Ciclos Cósmicos e Escatologia Germânica

Sincretismo e Dispersão na Religião Germânica

Mircea Eliade, em seu livro A História das Crenças e Ideias Religiosas, ao tratar dos celtas, germanos, trácios e getas, destaca uma dificuldade peculiar no estudo da religião germânica: não a escassez de informações, mas, paradoxalmente, seu excesso e sua diversidade.

O que se conhece com mais detalhe sobre essa religião encontra-se frequentemente mesclado a descrições de missionários cristãos e, sobretudo, aos poemas escáldicos islandeses.

Eliade observa ainda que as fontes disponíveis, que vão desde os relatos romanos até os vestígios arqueológicos, possuem naturezas distintas e valores desiguais. O problema, portanto, não reside em um silêncio absoluto, mas no caráter fragmentado e muitas vezes contraditório dessas evidências.

A obra Germânia, de Tácito (98 d.C.), é ao mesmo tempo fundamental e problemática. Tácito jamais esteve na Germânia; baseou-se em relatos de terceiros e recorreu frequentemente à interpretatio romana. Isso implicava “traduzir” deuses germânicos em termos romanos, como identificar Odin com Mercúrio, procedimento que tende a distorcer a natureza original dessas divindades e de seus ritos.

Grande parte do que se conhece sobre a mitologia germânica, como o Edda em Prosa, foi registrada na Islândia do século XIII, cerca de duzentos anos após a cristianização. Seu principal autor, Snorri Sturluson, era um erudito cristão. Embora tenha preservado muitos mitos, organizou-os de maneira linear e literária, frequentemente buscando uma coerência interna ou recorrendo ao evemerismo, isto é, à transformação dos deuses em antigos heróis humanos, algo que pode não corresponder à prática religiosa arcaica.

Os poemas escáldicos, por sua vez, são densos e altamente elaborados, repletos de metáforas, conhecidas como kennings, e variações regionais que se modificam conforme o clã e a época. Quando confrontados com os dados arqueológicos, como pedras rúnicas, barcos-túmulo e depósitos em pântanos, nem sempre apresentam correspondência direta. A arqueologia revela práticas sacrificiais e símbolos que os textos cristãos posteriores podem ter atenuado ou omitido.

Há ainda um fator decisivo. Diferentemente das religiões abraâmicas, a religião germânica não constituía uma “Igreja” estruturada em torno de um texto canônico único. Tratava-se de uma tradição oral, fluida e orgânica. Assim, as crenças de um germano do Reno no século I podiam diferir significativamente das práticas de um viking dinamarquês no século IX. O “excesso” de variações apontado por Eliade deriva justamente dessa descentralização geográfica e temporal.

Existe uma heterogeneidade das crenças que resulta tanto de múltiplas influências quanto da diversidade tribal ao longo da dispersão germânica por grande parte da Europa.

A expansão de tribos como godos, saxões, francos e lombardos produziu um mosaico religioso no qual um possível núcleo proto-germânico foi continuamente remodelado por contatos culturais diversos.

Além da interpretatio romana, observa-se uma influência céltica significativa, perceptível na metalurgia associada às runas, em divindades compartilhadas e na noção de um “Outro Mundo”. A proximidade geográfica nos vales dos rios Reno e Danúbio contribuiu para a formação de uma zona de fronteira cultural particularmente fluida.

Também é possível identificar influências xamânicas de origem norte-asiática. Muitos estudiosos, seguindo a linha de Mircea Eliade, reconhecem no seiðr, prática mágica nórdica, e na figura de Odin, especialmente no episódio em que se sacrifica na árvore Yggdrasil em busca de conhecimento, paralelos consistentes com tradições xamânicas das estepes e de povos fino-úgricos, que se estendem da Escandinávia até a Sibéria e a bacia do Danúbio.

Não se pode ignorar, por fim, a influência cristã. Grande parte do que se conhece sobre a mitologia germânica e nórdica foi registrada por intelectuais cristãos, e esse processo implicou inevitavelmente um filtro interpretativo. Autores como Snorri Sturluson, na Islândia, tomaram tradições originalmente orais, fluidas e por vezes contraditórias e as organizaram em estruturas mais coerentes e lineares, frequentemente próximas da teologia cristã ou da épica clássica.

Cosmogonia e Escatologia

No entanto, apesar de toda essa diversidade, Mircea Eliade destaca a existência de uma unidade fundamental na religião dos germanos: um interesse recorrente e intenso pelo mito do fim do mundo.

Na tradição germânica, independentemente de suas variações, a ideia do fim já se encontra inscrita desde a própria cosmogonia.

O relato mais completo da criação aparece no Völuspá, geralmente traduzido como “Predição da völva” ou “Profecia da vidente”, considerado o primeiro e mais célebre poema da Edda Poética.

Nesse poema, a criação do mundo e seu destino final são narrados por uma vidente e dirigidos a Odin. A profecia inicia-se com uma invocação ao deus, após a qual a völva passa a expor, de forma sintética, a origem do cosmos. Ela também revela a fonte de seu conhecimento, relacionada à própria busca de sabedoria de Odin, e menciona diversos segredos dos deuses de Asgard, o reino divino da mitologia nórdica.

Ao longo do relato, são evocadas tanto ocorrências passadas quanto eventos futuros, com referências a episódios centrais da mitologia nórdica, como a morte de Balder, frequentemente associado à justiça e à pureza, e a punição de Loki, figura ligada à astúcia e à desordem.

Por fim, a vidente anuncia o destino último do mundo, o Ragnarök, seguido pela renovação do cosmos e pelo retorno de Balder. Essa estrutura narrativa, que articula destruição e restauração, apresenta paralelos frequentemente apontados com a ideia de uma segunda vinda redentora presente na tradição cristã.

Entre Fogo e Gelo

Segundo as “Predições” (estrofe 3) do poema Völuspá, no princípio não havia “nem terra nem abóbada celeste”, mas apenas um “gigantesco abismo”, o Ginnungagap.

Percebe-se aqui uma imagem recorrente em diversas cosmogonias orientais, como as da Mesopotâmia, da Índia e até mesmo a do Gênesis bíblico.

O “abismo escancarado” ou “vazio hiante” representa o caos primordial, um estado de pré-existência que Mircea Eliade identifica em múltiplas culturas. Assim como Tiamat, na tradição babilônica, ou o Caos grego, o Ginnungagap não corresponde ao nada absoluto, mas a um espaço de potencialidade pura, no qual a vida ainda não se manifestou.

Snorri Sturluson esclarece que, ao norte, estendia-se uma região fria e brumosa chamada Niflheimr, associada ao mundo dos mortos e atravessada por uma fonte que dava origem a onze rios. Ao sul, situava-se uma região ardente, Muspell, guardada pelo gigante Surtr, “o Negro”.

Na cosmogonia germânica, a criação ocorre quando o calor do sul, Muspell, encontra o gelo do norte, Niflheimr, no interior desse abismo. A ideia de que a vida emerge da tensão entre opostos, como fogo e gelo, luz e trevas, masculino e feminino, constitui uma estrutura recorrente que Mircea Eliade denomina coincidentia oppositorum.

Como consequência do encontro entre gelo e fogo, surge um ser antropomorfo na zona intermediária, Ymir.

Ymir

O gigante Ymir, enquanto dormia, gerou, a partir de seu próprio corpo, os primeiros seres. De seu suor, sob o braço, nasceram um homem e uma mulher, ambos gigantes, e de seus pés surgiu um filho. Do gelo em processo de fusão emergiu também uma vaca, Audhumbla, que, com seu leite, passou a alimentar Ymir.

A vaca, formada a partir das gotas de degelo, começou a lamber o gelo primordial que circundava o Ginnungagap. Ao lamber esse gelo salgado, foi progressivamente revelando a forma de um homem, Búri, o primeiro dos deuses.

Búri uniu-se a Bestla, filha do gigante Bolthorn, e dessa união nasceram três filhos: Odin, Vili e Vé.

Esses três irmãos decidiram matar Ymir. Trata-se de um dos padrões mais recorrentes e significativos da mitologia comparada: o conflito entre gerações, frequentemente expresso como um parricídio de natureza cosmogônica.

Odin e seus irmãos pertenciam à linhagem divina que precisava subjugar a linhagem dos gigantes, associados à matéria bruta e ao caos, para instaurar a ordem.

Esse motivo aparece em diversas culturas com funções semelhantes. Um exemplo clássico encontra-se na mitologia grega, em que Cronos destrona seu pai, Urano, e posteriormente Zeus lidera seus irmãos na Titanomaquia para derrotar Cronos e os titãs. Em ambos os casos, observa-se o mesmo ciclo de substituição da desordem por uma nova ordem divina.

Ao matar Ymir, o sangue do gigante provocou uma inundação que aniquilou quase todos os gigantes, com exceção de Bergelmir e sua esposa, que conseguiram sobreviver. Em seguida, os deuses transportaram o corpo de Ymir para o centro do abismo e, ao esquartejá-lo, criaram o mundo: de sua carne fizeram a terra, de seus ossos, as rochas, de seu sangue, o mar; de seus cabelos, as nuvens, e de seu crânio, o firmamento.

Um paralelo próximo ao mito de Ymir pode ser encontrado no gigante Purusha, da tradição hindu do Rig Veda. Também há correspondências no mito babilônico de Tiamat, em que o deus Marduk derrota a entidade primordial e utiliza seu corpo para estruturar o cosmos. Na mitologia chinesa, o gigante Pangu desempenha função semelhante ao separar o céu da terra e, após sua morte, ter seu corpo transformado nos elementos do mundo.

Nesses mitos, a criação assume a forma de um ato de violência sagrada. O gigante primordial representa uma unidade indiferenciada, associada ao caos. Para que o mundo adquira forma, diversidade e estrutura, essa unidade precisa ser desmembrada.

Há ainda um aspecto significativo no mito de Ymir: sua natureza bissexuada. Ele gera, a partir de si mesmo, um casal, o que indica uma condição de totalidade primordial. O nome Ymir já foi relacionado ao sânscrito Yima, associado à ideia de duplicidade. Segundo Tácito, em sua obra Germânia, o ancestral mítico dos germanos seria Tuisto, nome possivelmente ligado à ideia de dualidade ou separação, o que reforça a associação com a androginia.

A bissexualidade, ou androginia, aparece, assim, como expressão simbólica da totalidade primordial.

Dando continuidade à obra cosmogônica, os três irmãos criaram os astros a partir das faíscas provenientes de Muspell e organizaram seus movimentos, estabelecendo o ciclo do dia e da noite, bem como a sucessão das estações. A Terra, concebida como circular, era circundada por um grande oceano. Em suas bordas, os deuses fixaram o domínio dos gigantes sobreviventes, enquanto, no interior, edificaram Midgard, a “morada do meio”, destinada aos homens e protegida por uma paliçada formada com os cílios de Ymir.

Com o auxílio de Hoenir e Lodhur, Odin criou o primeiro casal humano a partir de duas árvores, Askr e Embla. Askr remete ao freixo cósmico, enquanto Embla pode estar associada ao olmo. A ideia de uma origem arbórea da humanidade é amplamente difundida nas mitologias arcaicas e encontra paralelos entre diversos povos indo-europeus.

Hoenir concedeu aos humanos a inteligência, enquanto Lodhur lhes atribuiu os sentidos e a forma propriamente humana.

Yggdrasil e o Ragnarök

Outro mito relata a sobrevivência da humanidade por meio de um casal que se abriga na árvore cósmica, Yggdrasil, durante a destruição do mundo.

Conta-se que, durante o grande inverno do Ragnarök, o único refúgio possível encontra-se no interior dessa árvore, e aqueles que permanecem sob sua proteção são nutridos pelo orvalho de seus ramos.

Segundo Snorri Sturluson, esse casal, Líf e Lífthrasir, cujos nomes podem ser interpretados como “vida” e “aquele que ama a vida”, será o único a sobreviver à destruição do mundo. Abrigados na árvore cósmica, eles terão a função de repovoar a nova Terra que surgirá após o cataclismo.

A árvore cósmica desempenha, nesse contexto, a função de eixo do mundo, aquilo que se convenciona chamar de axis mundi. Yggdrasil, situada no centro do cosmos, não apenas simboliza o universo, mas também o sustenta estruturalmente. Seu topo alcança o céu, enquanto seus ramos se estendem sobre o mundo.

Uma de suas raízes penetra o reino dos mortos, Hel; outra se estende até a terra dos gigantes; e a terceira alcança o mundo dos homens. Trata-se da imagem clássica da árvore universal que conecta os três níveis cósmicos: céu, terra e mundo subterrâneo.

Ao abrigar o casal em seu interior, a árvore assume uma função análoga à de um útero, preservando a vida enquanto o exterior é destruído. Essa imagem sugere que a essência do mundo, representada pela própria árvore, permanece intacta, mesmo quando suas formas visíveis, como deuses e monstros, são aniquiladas.

Nessa perspectiva, o mito não apresenta uma escatologia no sentido absoluto. O Ragnarök não configura o fim definitivo da história, mas antes o término de um ciclo, comparável a um inverno que antecede uma nova primavera.

O Mundo que Nasce para Morrer e Renascer

A análise da religião germânica revela, antes de tudo, um campo marcado pelo sincretismo e pela dispersão. As múltiplas influências culturais, somadas à ampla distribuição geográfica das tribos, produziram um mosaico religioso dinâmico, no qual crenças se transformam, se sobrepõem e se reinterpretam ao longo do tempo. Ainda assim, como observa Mircea Eliade, essa diversidade não impede a identificação de uma unidade estrutural profunda.

Essa unidade manifesta-se sobretudo na articulação entre cosmogonia e escatologia. Na tradição germânica, o mundo não apenas tem uma origem, mas já nasce orientado para o seu fim. A criação e a destruição não são momentos isolados, mas partes de um mesmo processo contínuo.

O mito cosmogônico exemplifica essa lógica ao situar a origem do mundo no encontro entre opostos, o fogo de Muspell e o gelo de Niflheim, no interior do Ginnungagap. Essa tensão primordial, que Mircea Eliade descreve como coincidentia oppositorum, expressa uma estrutura universal na qual a realidade emerge da união de forças contrárias.

É nesse contexto que surge o gigante Ymir, figura central da criação. Seu corpo, ao ser desmembrado pelos deuses, dá origem ao mundo ordenado. A violência cosmogônica, longe de ser um elemento acidental, constitui o próprio fundamento da diferenciação e da estrutura do cosmos.

Essa mesma lógica reaparece na escatologia. O Ragnarök não representa um fim absoluto, mas a culminação de um ciclo que conduz à renovação. A destruição dos deuses e do mundo abre espaço para um recomeço, no qual a vida persiste e se reorganiza.

A presença de Yggdrasil reforça essa continuidade. Como eixo do mundo, a árvore cósmica sustenta e atravessa todos os níveis da realidade, conectando vida, morte e renascimento. Ao abrigar Líf e Lífthrasir durante o cataclismo, ela simboliza a permanência da essência vital mesmo diante da dissolução das formas.

Dessa forma, a escatologia germânica distingue-se de concepções absolutas de fim do mundo. Não se trata do término definitivo da história, mas do encerramento de um ciclo que prepara sua própria renovação. A destruição, assim como a criação, integra uma dinâmica mais ampla, na qual o cosmos se desfaz apenas para, em seguida, recompor-se.

Entre dispersão e unidade, entre caos e forma, entre fim e recomeço, a religião germânica revela uma visão de mundo profundamente cíclica, na qual o destino do cosmos está inscrito desde sua origem e se cumpre não como aniquilação final, mas como transformação contínua.

 

 

 

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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