Um panorama da diversidade extrema de ideias, práticas e escolas que marcaram a planície indo-gangética
Quando leio sobre a religiosidade indiana surgida na vasta e fértil planície indo-gangética, sempre sou levado a pensar que praticamente tudo o que poderia ser imaginado em termos de filosofia, cosmologia e especulação metafísica encontrou ali o seu primeiro laboratório. Parece que cada intuição possível acerca da origem, estrutura e finalidade da existência foi, em algum momento, experimentada naquele território.
Dos śramaṇas aos brâmanes, dos ascetas errantes aos sacerdotes védicos, a Índia antiga concentrou uma profusão de buscas que, embora frequentemente divergentes ou até contraditórias, revelam uma curiosidade espiritual inesgotável. Era um ambiente no qual se investigava tanto o todo quanto as partes, a ordem do cosmos e a desordem da alma, o divino e o completamente mundano.
Essas tradições conheceram extremos inconciliáveis à primeira vista. Abraçaram a renúncia total da vida material, com ascetas que caminhavam nus, dependiam da mendicância e abandonavam o mundo; mas também cultivaram o luxo palaciano, a riqueza ritual e a sofisticação aristocrática. O que impressiona não é apenas a diversidade de vertentes, mas uma espécie de pacto implícito entre opostos, como se cada elemento extremo exigisse a existência do seu contrário.
Mircea Eliade observa, no segundo volume de História das Crenças e das Ideias Religiosas, que os indianos eram capazes de instituir rituais extremamente elaborados e, pouco depois, rejeitá-los com a mesma intensidade. Criavam sistemas de sacrifícios e em seguida decretavam sua abolição. Condenavam a sensualidade e, mais tarde, realizavam orgias. Desenvolviam metafísicas de complexidade quase impenetrável para, logo depois, aderir ao niilismo mais radical ou ao materialismo mais direto.
O panteão se multiplicava, desfazia-se e se reconstruía como se os deuses fossem expressões momentâneas de uma imaginação cósmica em permanente combustão. Do politeísmo exuberante ao ateísmo resoluto, a Índia parecia capaz de divinizar cada detalhe da existência e, em seguida, destruir todas essas divinizações para começar de novo.
Por isso a sensação recorrente: ali, todo tipo de pensamento religioso, filosófico e metafísico nasceu, floresceu e se desfez inúmeras vezes. Nada parece realmente novo para um hindu, porque tudo já foi tentado em alguma medida. Para cada nuance de doutrina, surgia uma seita própria, com mestres, discípulos e uma linhagem cuidadosamente preservada. Muitas desapareceram sem deixar vestígios, mencionadas apenas de passagem em textos jainistas ou budistas. Outras foram exterminadas. Outras ainda se extinguiram por conta própria, consumidas pela mesma febre especulativa que as havia criado.
A impressão final é a de uma civilização que nunca se satisfez com respostas parciais e que, por isso mesmo, explorou todos os caminhos disponíveis. Como cristão que se interessa pelo maximalismo, considero ao mesmo tempo confusa e fascinante uma cultura que levou cada ideia ao seu limite, colocou todas as certezas em questão e transformou a própria busca por sentido em um campo contínuo de experimentação.
