Nada acontece, feijoada

Iaiá Garcia, de Machado de Assis, começa intenso e acelerado. Em poucas páginas, o leitor é levado de um beijo roubado entre dois personagens à Guerra do Paraguai, passando por conspirações e amores não correspondidos.

Superada a euforia inicial, tudo se estabiliza; e então percebemos que ainda não chegamos a vinte por cento do romance. Os outros oitenta por cento se dão no “pós”: no pós-romance, na pós-desilusão, no pós-trauma, na vida que lentamente se ajeita.

A narrativa se desloca, então, para a tranquilidade de Santa Teresa, no Rio de Janeiro.

Machado de Assis tem em Shakespeare uma influência notória. Os temas shakesperianos do amor, do poder familiar, da ascensão social, da ambição, da dissimulação e do orgulho estão todos presentes em Machado. Mas aparecem em chave “diurna”: sem fantasmas, sem reis, sem aparições, sem o “out, damned spot” de Lady Macbeth.

E isso é, em grande medida, o Brasil. Descrito por Sérgio Buarque de Holanda como um país nascido de uma aventura lusitana que se aquietou no mormaço das praias e das fazendas.

O Brasil tende ao centro; geograficamente, politicamente e espiritualmente.

Nossa característica mais marcante, que é ao mesmo tempo virtude e defeito, talvez seja essa: a tendência à estabilidade, sempre em contraste com memórias e promessas de algo grandioso.

Alguns podem querer substituir o lema “Ordem e Progresso” por “Nada acontece, feijoada”. Mas isso não me parece justo.

Coisas importantes acontecem, sim. O problema é que, no Brasil, o impacto das coisas essenciais e das coisas banais costuma soar exatamente o mesmo.

Basta observar como mensagens triviais de uma briga familiar conseguem ocupar as manchetes de todos os jornais, ao mesmo tempo em que um navio de guerra, pertencente a uma potência de força incomensurável, se aproxima de uma narco-distopia vizinha que já foi, em outro tempo, nosso aliado político declarado.

Enfim, olha essa paisagem. Nosso país é bonito.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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