“Muitos inimigos me cravaram aqui…
Vi o Deus dos homens sofrer com coragem.
Fui erguida como um patíbulo, mas os homens me adornaram com ouro e prata…
Agora eu, outrora a mais odiada das árvores, sou honrada acima de todas.”— O Sonho da Cruz (The Dream of the Rood)
Luís da Câmara Cascudo, em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, no verbete “Árvore”, inicia com uma observação particularmente significativa: europeus, africanos e ameríndios compartilham um mesmo “sentimento religioso” em relação às árvores.
É recorrente, nas mitologias desses povos, a presença de bosques sagrados, árvores consagradas a divindades e narrativas sobre entidades sobrenaturais que habitam o interior das florestas ou das próprias árvores.
Em diferentes continentes e civilizações, a árvore parece surgir não apenas como elemento natural, mas como ponto de contato entre homens e deuses.
Tenho para mim que a árvore é percebida como uma verdadeira hierofania, não apenas por seu valor simbólico imediato, mas por aquilo que representa intrinsecamente no campo metafísico da filosofia e da religião: um elo entre terra e céu, matéria e transcendência, vida orgânica e espírito.
A semente, por exemplo, representa a potência primordial da vida, a promessa contida em estado latente. Há nela algo de virtualidade metafísica: a possibilidade infinita condensada em uma forma mínima.
As raízes, por sua vez, penetram a terra, associada simbolicamente ao ventre materno, telúrico, ctônico e subterrâneo, de onde extraem a seiva que será transfigurada em flores e frutos, isto é, em dádiva.
A árvore também oferece uma poderosa imagem dos ciclos de renovação e permanência. Diante da consciência humana da morte e do desaparecimento, ela se apresenta como lembrança concreta da regeneração cíclica da existência. A arvore “morre” no outono, despe-se no inverno e renasce na primavera, reiterando continuamente o drama simbólico da morte e da ressurreição.
Além disso, por atravessar séculos e sobreviver a sucessivas gerações humanas, a árvore adquire, para o homem efêmero, uma aparência de imortalidade.
Há ainda outro aspecto fundamental em sua simbologia: a árvore como representação da estabilidade divina e do eixo ordenador do mundo. Imóvel e silenciosa, ela permanece enquanto tudo ao redor se transforma. Sua presença organiza o espaço, tornando-se ponto de referência tanto geográfico quanto espiritual.
A árvore também encarna aquilo que Mircea Eliade definiu como axis mundi: o ponto de comunicação entre céu e terra, o centro simbólico por meio do qual se estabelece uma ligação com o transcendente.
Nesse sentido, a árvore constitui a expressão arquitetônica perfeita dessa ponte metafísica. Sua estrutura reproduz, de maneira quase exemplar, a divisão tradicional do cosmos presente em inúmeras cosmologias arcaicas. As raízes mergulham no submundo, domínio associado aos ancestrais, ao mistério e às forças ocultas da origem. O tronco ergue-se na superfície terrestre, espaço da experiência humana, da história e da vida ordinária. Já a copa projeta-se em direção ao céu, esfera da luz, do divino e da morada dos deuses.
Subir em uma árvore, ou mesmo meditar sob ela, como fez Buda, constitui um gesto de profunda dimensão sagrada.
Nesse sentido, a árvore torna-se também uma reminiscência do estado edênico ou paradisíaco primordial, aquele momento mítico em que céu e terra ainda não haviam sido plenamente separados e o divino permanecia acessível ao homem de forma imediata.
Eliade diria que a árvore é uma hierofania perfeita porque, além de todo esse simbolismo poliédrico, ela é totalizante e reúne em si opostos (coincidentia oppositorum): céu e terra, vida e morte, fixidez e movimento, umidade e secura.
No mundo romano, diversas árvores e plantas eram associadas diretamente aos deuses, como se expressassem, em forma vegetal, os atributos essenciais de cada divindade. O carvalho, por exemplo, era identificado com Júpiter em razão de sua altura, robustez e extraordinária longevidade. Não por acaso, o carvalho é frequentemente atingido por raios e, ainda assim, sobrevive, tornando-se uma imagem adequada da força soberana e da potência celeste do deus.
A oliveira, por sua vez, era vinculada a Minerva, pois fornecia o azeite utilizado para curar feridas, alimentar os homens e iluminar a noite. Para os romanos, a sabedoria e a civilização, atributos próprios da deusa, deveriam agir exatamente como a oliveira: nutrindo, protegendo e trazendo luz à vida humana.
Já a murta, arbusto persistente que conserva suas folhas verdes e brilhantes durante todo o ano e exala um perfume suave e delicado, era associada a Vênus, tornando-se símbolo de beleza, sensualidade e fertilidade.
Há ainda a vinha, identificada com Baco. O vinho extraído dela era compreendido como o próprio sangue do deus, uma substância sagrada capaz de alterar a consciência e aproximar o homem comum da experiência divina.
No universo africano, especialmente na tradição iorubá e em suas permanências no Candomblé brasileiro, as árvores também ocupam um papel sagrado. O Ìrókò, associado no Brasil à gameleira-branca, é cultuada como uma entidade espiritual ligada ao tempo, à ancestralidade e à paciência.
Há também o baobá, frequentemente chamado de “mãe das árvores” ou “árvore da vida”, concebido em diversas tradições africanas como a árvore primordial plantada pelos deuses. Ela estabelece uma ligação entre o Orun, o mundo espiritual, e o Ayê, o mundo material, funcionando como eixo de comunicação entre as diferentes dimensões da existência.
Além disso, o baobá é tradicionalmente compreendido como guardião da memória coletiva e da história da humanidade.
É difícil não perceber, nesse simbolismo, uma impressionante proximidade com Yggdrasil, o gigantesco freixo cósmico da mitologia nórdica. Assim como o baobá, o Yggdrasil atua como sustentáculo do cosmos e ponto de conexão entre os diversos planos da existência e também são vistos como lugar de proteção uterina da memória (depois do fim do mundo, o Ragnarök, é do “ventre” do Yggdrasil que surgirá novamente a vida).
Em toda a Europa e em diversas regiões da África abundam narrativas sobre árvores que choram, vingam-se, adoecem e carregam consigo histórias locais e memórias coletivas. Em muitas tradições populares, elas não são percebidas como elementos inertes da paisagem, mas como seres dotados de sensibilidade e participação no destino humano e do próprio cosmos.
Acreditava-se também que as árvores podiam receber e absorver enfermidades humanas por meio de rituais específicos de transferência simbólica. Na Bulgária, por exemplo, havia o costume de “depositar” a malária em um salgueiro, contornando-o em corrida durante o ritual. Na Grécia, um sacerdote amarrava um cordão ao pescoço do enfermo acometido por febre e, na manhã seguinte, prendia esse mesmo cordão a uma árvore. Práticas semelhantes também existiam na Itália.
Parece haver, na simbologia tradicional da árvore, uma espécie de vocação sacrificial. Ela não apenas oferece frutos, sombra e sustento, mas também absorve sobre si o mal, a doença e a corrupção, funcionando como receptáculo das dores humanas.
É difícil não relacionar esse imaginário ao lenho da cruz de Jesus Cristo, que assume uma dimensão cósmica de redenção. Na tradição cristã, Cristo toma para si os pecados e as “enfermidades” da humanidade e os “fixa” na madeira da cruz. O próprio lenho torna-se instrumento de absorção da maldição da morte, permitindo a libertação espiritual do homem.
Essa percepção alcança uma expressão particularmente intensa na literatura medieval. No poema anglo-saxão O Sonho da Cruz, que inicia este texto, a própria madeira da cruz adquire voz, consciência e sofrimento. Ela chora, sangra e relata o peso terrível de sustentar o sacrifício do mundo, como se o lenho participasse ativamente do drama redentor. A árvore deixa então de ser apenas matéria passiva e torna-se testemunha viva do sofrimento, da expiação e da possibilidade de salvação.
No universo ameríndio, a árvore também aparece como símbolo cosmológico e sagrado, frequentemente assumindo a função de axis mundi. Entre os Warao, habitantes tradicionais do delta do Orinoco (na Venezuela), a palmeira buriti ocupa posição central nesse imaginário sagrado. Segundo sua mitologia, os primeiros seres humanos teriam descido do céu pelas fibras e folhas dessa palmeira primordial, como se ela funcionasse como ponte entre o mundo celeste e o mundo terreno.
Outro exemplo notável é o mito de Wazaká, presente entre povos do norte amazônico, como os Macuxi e os Pemon.
Wazaká era a grande árvore primordial que continha em si todos os frutos e alimentos da Terra, concentrando simbolicamente a abundância original do mundo.
Segundo a narrativa mítica, o herói demiúrgico Makunaima derrubou essa árvore cósmica, e de seu tronco e de sua seiva nasceram os rios, as florestas e a própria configuração da paisagem amazônica.
O toco remanescente teria se petrificado, dando origem ao Monte Roraima, montanha sagrada que ainda hoje ocupa lugar central no imaginário indígena da região.
O mito de Wazaká também evoca um dos temas mais recorrentes das cosmologias arcaicas: o do gigante primordial sacrificado ou desmembrado, cujo corpo dá origem ao próprio cosmos ordenado. Essa estrutura simbólica aparece em diversas tradições ao redor do mundo.
Na mitologia nórdica, temos Ymir, o gigante primordial morto pelos deuses Odin, Vili e Vé. De sua carne surgiu a terra, de seu sangue nasceram os mares, de seus ossos as montanhas e de seu crânio o céu. Na tradição chinesa, o gigante Pangu separa o céu e a terra e, após sua morte, seu corpo transforma-se nos elementos do mundo: sua respiração torna-se o vento, seus olhos convertem-se no Sol e na Lua, e seu sangue passa a formar os rios. No hinduísmo, o homem cósmico Purusha é sacrificado pelos deuses no Rig Veda. De seu corpo nascem o cosmos, os elementos naturais e até mesmo as diferentes castas da sociedade. Já na tradição mesopotâmica, a deusa primordial Tiamat é derrotada por Marduque, que utiliza seu corpo dividido para criar o céu e a terra. Poderíamos ainda lembrar de Gayomart, o homem primordial do zoroastrismo, de cujo corpo brotam metais e formas de vida após sua morte, ou de Cipactli, o monstro telúrico despedaçado pelos deuses para formar o mundo.
O mito amazônico de Wazaká insere-se, portanto, em uma tradição simbólica vastíssima: a ideia de que o universo nasce do sacrifício ou da fragmentação de um ser primordial, cujo corpo se converte na própria matéria do mundo.
É, de certa forma, profundamente poético pensar que os três grandes troncos culturais que formaram o Brasil, apesar de suas diferenças, conflitos e antagonismos históricos, compartilhavam algo essencial: uma mesma disposição de sacralizar a natureza e reconhecer nas árvores uma manifestação do sagrado.
Há, nesse encontro de mundos, uma espécie de reconhecimento simbólico subterrâneo. O português vindo de uma Europa marcada por bosques sagrados e carvalhos associados aos deuses, ou pelo próprio lenho da Cruz; o africano que trazia consigo o culto ao Ìrókò e ao baobá; e o ameríndio que via no buriti e em Wazaká verdadeiros eixos cósmicos. Todos, em algum nível profundo, pareciam compartilhar uma mesma percepção hierofânica da árvore, até mesmo fitolátrica.
Talvez por isso determinadas árvores tenham adquirido, no imaginário brasileiro, uma presença quase espiritual. Diante de uma gameleira monumental, de um baobá aclimatado ou de uma palmeira imponente, esses povos podiam reconhecer, ainda que por caminhos simbólicos distintos, algo que os aproximava.
É igualmente poético, e talvez até providencial, que o nome do país seja também o nome de uma árvore. Costumo defender que esta terra deveria ser chamada Terra de Santa Cruz, como forma de ressaltar sua dimensão espiritual e sua origem vinculada a uma aventura sagrada da cristandade. Ainda assim, há algo profundamente significativo no nome Brasil. Talvez a síntese mais adequada estivesse justamente na união dos dois: Terra de Santa Cruz do Brasil.
Esse nome parece reunir, numa única expressão, o sagrado cristão, a memória fitolátrica de ameríndios e africanos e noção hierofânica europeia da natureza.
A cruz e a árvore da vida, venerada de maneiras distintas pelos três grandes povos formadores do Brasil, fundir-se-iam numa concepção cristocêntrica do axis mundi. O pau-brasil, com sua seiva avermelhada como brasa e sangue, evocaria simultaneamente vitalidade, sacrifício e fertilidade, como se a própria terra carregasse em si um princípio de regeneração e acolhimento sob sua copa simbólica.
O nome Brasil parece apontar para uma ideia de síntese. Como se a vocação brasileira deixasse de ser apenas a de um país histórico e assumisse uma dimensão quase arquetípica: um lugar mítico onde elementos fragmentados voltam a se integrar. Um espaço em que matrizes espirituais distintas, sem perder totalmente suas diferenças, encontram uma linguagem comum.
É como se o próprio nome da terra sussurrasse que aqui o madeiro da Cruz encontrou a árvore nativa, e ambos se reconheceram.
Há, nisso, uma beleza estranha e quase providencial.
Tudo isso parece infinitamente mais expressivo do que o nome oficial “República Federativa do Brasil”, fórmula estéril, cartorial e burocrática que reduz a pátria a uma abstração jurídica e administrativa.
Há nesse título algo incapaz de traduzir a profundidade simbólica do território brasileiro, como se a nação fosse apenas um arranjo institucional e não também uma experiência histórica, espiritual e imaginária.
Ao contrário, a ideia de Brasil parece carregar uma vocação mítica primordial: a de um lugar de amizade, de cordialidade sagrada, nunca antes experimentada no mundo. Um espaço onde aquilo que a história separou violentamente, as três matrizes étnicas, culturais e espirituais da formação nacional, pudesse voltar a reconhecer-se, ainda que de maneira dolorosa e imperfeita. Um território em que o eixo vertical do sagrado, representado pela Cruz como axis mundi redentor, pudesse enraizar-se na horizontalidade exuberante, caótica e generosa da terra tropical.
Nesse sentido, “Brasil” soa menos como o nome de um Estado moderno e mais como o nome de um mito em construção.
Talvez o Brasil seja, de fato, um grande experimento arquetípico ainda inconcluso: o lugar onde a fragmentação produzida pela modernidade e pela própria história colonial poderia encontrar algum princípio de recomposição mais profunda. Como se a identidade brasileira surgisse de uma espécie de sinfonia sacrificial, formada pelo encontro traumático, mas também criador, de diferentes mundos sob a copa simbólica de uma árvore que sangra.