Podemos dizer que os primeiros teatros surgiram intimamente ligados às atividades religiosas. As festas dionisíacas do século VI a.C., os rituais ditirâmbicos e os autos dedicados a Osíris no Egito antigo são exemplos disso.
Assim como no teatro, esses rituais envolviam a presença de atores — pessoas que se despersonificavam e assumiam outras identidades. O mesmo acontece nas festas: nelas, o indivíduo abandona temporariamente quem é para se integrar a algo maior, coletivo e simbólico.
A própria ideia de folia tem origem religiosa. Quando observamos uma cerimônia litúrgica — uma missa, por exemplo —, vemos, em termos didáticos, uma forma de teatralização do sagrado. A eucaristia encena a Santa Ceia e a Crucificação, transformando-as num banquete teofágico e num sacrifício incruento, no qual uma vítima expiatória é eternamente oferecida.
A folia, em sua essência, também possui essa dimensão religiosa. Não se trata apenas de festas religiosas formais, mas também das festas públicas marcadas por alegria, máscaras, danças e música. São celebrações menos solenes e mais anárquicas, que frequentemente entram em tensão com os rituais oficiais — mas sem jamais perder o vínculo com suas origens sagradas.
Essas manifestações populares, de caráter festivo e teatral, foram incorporadas ao universo católico de diferentes maneiras, como na Folia de Reis e nas Quadrilhas de Festa Junina. As folias costumam estar associadas a festas religiosas mais antigas que os próprios ritos litúrgicos, mas, por seu caráter espontâneo, mudam constantemente de forma e de significado.
Por isso, é compreensível sentir repulsa diante de paródias religiosas contemporâneas — como a chamada festa “Sem João” —, mas apenas até certo ponto. Tradições populares são, por natureza, voláteis e mutáveis. A religião dominante, historicamente, nunca buscou suprimi-las por completo, mas sim discipliná-las e integrá-las ao seu sistema simbólico.
O historiador das religiões Mircea Eliade, em História das Crenças e das Ideias Religiosas, descreve as festas dedicadas a Dionísio em Atenas. As Dionisíacas Campestres, realizadas em dezembro, incluíam uma faloforia — um cortejo que conduzia um grande falo em procissão. Essa celebração pré-dionisíaca, mais antiga que o próprio culto a Dionísio (e ainda hoje existente em regiões do Japão), foi incorporada ao imaginário religioso grego por Pisístrato. É provável que as autoridades religiosas tenham adaptado esse ritual popular às práticas dionisíacas oficiais.
Outras formas de entretenimento ritual com origem religiosa incluem concursos e desfiles de máscaras, antecessores de práticas contemporâneas como o Halloween e até os eventos de cosplay — versões modernas dessas farras antigas, agora desvinculadas de instituições religiosas. Eliade ironiza o homem moderno, que se considera secularizado, mas continua a repetir gestos e rituais impregnados de significado espiritual.
Entre essas antigas celebrações, havia ainda a Pithoigía, a abertura dos tonéis de vinho (píthoi) guardados desde o outono. Os tonéis eram levados em procissão até o santuário para libações sagradas, seguidas de competições de bebida — nas quais os participantes disputavam quem conseguia esvaziar um cântaro mais rápido. É uma cena que, sob outro contexto, não parece muito diferente de uma confraternização em um bar.
