O fenômeno da física moderna, especialmente entre os séculos XIX e XX, é marcado por mudanças significativas. Da teoria da relatividade à mecânica quântica, muitos pressupostos da física newtoniana precisaram ser atualizados, revisados, recontextualizados ou até abandonados. Mas o que isso significa, de fato?
Já no século XVII, a ciência estava imersa em um processo de transformação, que podemos, de forma imprecisa, definir como a transição do “qualitativo” para o “quantitativo”.
Como exemplo, consideremos o conceito de “movimento” e tentemos revisar esse entendimento desde seus primórdios.
O conceito de movimento estava profundamente enraizado na filosofia aristotélica, sendo concebido como sustentado por uma força contínua. Aristóteles dividia o movimento em natural e forçado, afirmando que os corpos tendem ao repouso na ausência de uma força constante.
Essa visão, fundamentada em qualidades sensíveis e abstrações filosóficas, sustentava a ideia de que todas as coisas no mundo estão interconectadas, incluindo as coisas eternas e contingentes. Para Aristóteles, as coisas se moviam porque alguém as movia, uma concepção de causa e efeito que levava à conclusão lógica de que havia uma “primeira causa” para tudo.
Galileu Galilei, no século XVI, trouxe novas ideias ao revelar o princípio da inércia, desafiando e invertendo a visão aristotélica. Embora tendamos a associar “inércia” à “falta de movimento”, na realidade, um corpo em movimento constante também é um corpo inerte. Para Galileu, somente uma força poderia alterar a inércia de um corpo, seja parando o que está em movimento ou movendo o que está parado.
Pode não parecer, mas Galileu não apenas desafiou a visão aristotélica; ele reorientou o entendimento humano da realidade ao afirmar que o movimento uniforme e o repouso não são entidades distintas, mas dependem da perspectiva do observador. Perceberam aqui a inauguração do conceito do “observador” como definidor da própria realidade?
Isaac Newton consolidou essa nova abordagem com a formulação de suas leis do movimento e da gravitação universal. Sua obra, marcada pela precisão, transformou a física em uma ciência de leis universais e quantificáveis, substituindo, de maneira cientificamente convincente, a antiga percepção qualitativa do mundo.
A física newtoniana não se revelou apenas útil, mas também possuía uma beleza própria. No início, ela representou a ordem e a harmonia do cosmos, interpretadas como algo esculpido em fórmulas.
No entanto, a humanidade nunca lidou bem com meias-verdades, e a física newtoniana revelou-se uma meia-verdade, sendo uma das muitas expressões de uma “tradição de meias-verdades atraentes” cultivadas desde o Renascimento.
O Renascimento foi uma época em que o florescimento científico foi acompanhado por um florescimento esotérico, o que tornou parte de seus pressupostos não apenas de caráter pseudo-científico, mas também profundamente pseudo-religioso.
Não, antes que digam qualquer coisa, não sou daqueles que acreditam que tudo o que surgiu dessa época deve ser descartado. A humanidade, nos séculos seguintes, se dedicaria a separar o joio do trigo, tanto na filosofia quanto na religião e na ciência — embora, até hoje, ainda tenha que lidar com os estilhaços de ideias que, em determinado momento, se consolidaram em dogmas.
A história da ciência, em particular, não é uma narrativa contínua de progresso linear; ela avança em direção ao futuro, mas oscila dialeticamente com o passado.
O Renascimento representou o resgate de ideias que a Escolástica havia deixado de lado, no limbo da curiosidade histórica. Anos depois, o próprio Renascimento seria superado.
Newton, produto desse processo histórico, que antes era visto como o fundamento irrefutável da ciência, acabou sendo relativizado e reduzido à figura marmórea da curiosidade histórica.
O físico Roger Penrose aposta que o futuro da ciência será marcado por uma resolução dialética entre novas e antigas descobertas.
Ao longo do tempo, a história da ciência se desenhou exatamente dessa forma. A física do século XX se afastou das leis determinísticas de Newton, especialmente ao explorar a escala subatômica, revelando-se um domínio até mesmo “aristotélico” de incertezas. O observador, que desde Galileu se tornara o “medidor universal”, acabou sendo justamente aquilo que influencia, atrapalha e confunde os dados.
Na minha opinião, paradoxalmente, são as improbabilidades, incertezas e os cálculos que insistem em “dar errado” que nos proporcionam certo alívio existencial.
As leis determinísticas de Newton, como aponta Roger Penrose, revelariam um universo sombrio, se estivessem corretas. Um mundo newtoniano absoluto, regido completamente por regras matematicamente determinadas e guiado por uma previsibilidade diabólica de passado, presente e futuro, apesar de parecer atraente no início, não poderia acomodar a ideia de mente, livre-arbítrio ou consciência.
Em seu livro The Emperor’s New Mind: Concerning Computers, Minds, and the Laws of Physics, Penrose explora a questão do livre-arbítrio, que sempre esteve presente no desenvolvimento intelectual sobre o mistério da consciência.
Para Roger Penrose, a crença de que a inteligência artificial alcançaria um estado de consciência é baseada em um dogmatismo newtoniano puro, que, hoje podemos afirmar com clareza, é apenas pseudo-ciência. Graças a Deus!
