A obsessão vazia com a originalidade

Nenhuma tradição precisa ser absolutamente original para criar uma relação autêntica com o sagrado

Mircea Eliade, em seu magnífico livro A História das Crenças e das Ideias Religiosas, no volume II, em “A história do budismo de Mahakasyapa e Nagarjuna”, lembra que o budismo, como qualquer outro movimento religioso, era “sincretista”, no sentido de que assimilava e incorporava continuamente valores que não eram necessariamente budistas.

O próprio Buda havia aceitado grande parte da herança indiana, não só na doutrina do carma e do samsara, nas técnicas ióguicas e nas análises de tipo bramânico e samkhya, mas também nas imagens, nos símbolos e nos temas mitológicos pan-indianos, reservando-se o direito de reinterpretá-los de acordo com sua própria perspectiva.

É provável que a cosmologia tradicional, com incontáveis céus e infernos, já fosse aceita no tempo do Buda e pelo próprio Buda.

A partir desse sincretismo original, e assumido, do budismo, é pertinente perguntar sobre aquilo que parece assombrar o homem moderno do Ocidente: a originalidade. Vejo muitas pessoas extremamente preocupadas com isso. É normal, especialmente na época do Natal, surgirem inúmeros posts nas redes sociais com provocações ao cristianismo, sugerindo que boa parte de sua doutrina não seja original, embora a maior parte desses questionamentos esteja simplesmente errada. Eu, pessoalmente, nunca me importei tanto com isso. Mesmo se fosse verdade, não recuaria um milímetro da minha fé.

Para o homem antigo, e eu tento ser um homem antigo, o intercâmbio simbólico era um sinal de vitória e universalidade, não de fraqueza.

A obsessão moderna com a “originalidade pura” é, na verdade, um anacronismo. É a mania do homem ocidental contemporâneo de aplicar a lógica das patentes, dos direitos autorais e da propriedade intelectual a algo que pertence à alma humana e à evolução da consciência.

O que assombra o homem ocidental moderno é, no fundo, o vazio de significado. Como a modernidade perdeu a capacidade de experimentar o Mito e a Transcendência de forma viva, ela se apega ao literalismo e à cronologia factual. Se algo “veio antes”, o que “veio depois” perde o valor para a mente hiper-racionalista.

Estudando o budismo e outras religiões, percebo que o intercâmbio simbólico nunca foi uma questão problemática. O budismo incorporou elementos tanto de sua matriz da tradição indiana quanto, posteriormente, do helenismo de Alexandre Magno, quando este chegou à Índia.

Antes de Alexandre, durante séculos, o budismo era anicônico, ou seja, não representava o Buda em forma humana, mas apenas por meio de símbolos como pegadas, uma roda ou uma árvore.

As primeiras estátuas do Buda tinham as feições de Apolo, o deus grego da luz e da harmonia, vestindo uma toga grega, as vezes em pé, as vezes sentado em posição de lótus.

Quando, no começo da Era Cristã, foram fabricadas as primeiras estátuas de Buda, na estatuária greco-indiana de Gandhara, a imagem de Buda não se acanhava de aglutinar o nimbo que brilhava em volta da cabeça, derivado do halo radiante de Aura-Mazda, algo que o próprio cristianismo iria incorporar em sua iconografia.

Tanto o budismo quanto o cristianismo mostram que a árvore não é explicada pela terra onde foi plantada, mas pelos frutos que ela gera. O que importa não é a origem do símbolo, mas a metanoia, a transformação da mente, ou a salvação que ele opera em quem crê.

 

 

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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