A ideia de que a perfeição estava no princípio parece ser muito antiga. Ela é, em todo caso, extremamente difundida. Trata-se, por outro lado, de uma ideia que pode ser indefinidamente reinterpretada e integrada às inúmeras concepções religiosas.
A ideia da perfeição dos primórdios desempenhou um importante papel na elaboração sistemática dos ciclos cósmicos cada vez mais amplos. O “Ano” comum foi consideravelmente dilatado, dando origem a um “Grande Ano” ou a ciclos cósmicos de duração incalculável.
À medida que o ciclo cósmico se tornava mais amplo, a ideia da perfeição dos primórdios tendia a implicar a seguinte noção complementar: para que algo de verdadeiramente novo possa ter início, é preciso que os restos e as ruínas do velho ciclo sejam completamente destruídos. Em outros termos, para a obtenção de um começo absoluto, o fim do mundo deve ser radical.
A escatologia é apenas a prefiguração de uma cosmogonia do futuro. Mas toda escatologia insiste em um fato: a Nova Criação não pode ocorrer antes que este mundo seja definitivamente abolido. Não se trata mais de regenerar o que degenerou, mas de destruir o velho mundo a fim de recriá-lo in toto. A obsessão pela beatitude dos primórdios exige a aniquilação de tudo o que existiu e que, portanto, degenerou após a criação do mundo. Essa é a única possibilidade de restaurar a perfeição inicial.
Certamente, todas essas nostalgias e crenças já estão presentes nos enredos mítico-rituais da renovação anual do mundo. Mas, progressivamente, a partir do estágio protoagrícola da cultura, foi ganhando força a ideia de que existem também destruições e recriações reais, e não apenas rituais, do mundo; isto é, de que há um “retorno à origem” no sentido literal do termo. Ou seja, uma regressão do cosmo ao estado amorfo e caótico, seguida de uma nova cosmogonia.
Os mitos do fim do mundo são os que melhor ilustram essa concepção. Podemos estudá-los não apenas por seu interesse intrínseco, mas também porque esclarecem a função dos mitos em geral.
Até aqui, ocupamo-nos apenas dos mitos cosmogônicos e dos mitos de origem, isto é, daqueles que relatam o que já se passou. Veremos agora como a ideia da “perfeição do princípio” foi projetada igualmente em um futuro atemporal.
Os mitos do fim do mundo certamente desempenharam um papel importante na história da humanidade. Eles colocaram em evidência a “mobilidade” da origem. Efetivamente, a partir de certo momento, a origem deixa de se encontrar apenas em um passado mítico e passa a situar-se também em um futuro fabuloso.
Esta, como sabemos, é a conclusão a que chegaram os estóicos e os neopitagóricos ao elaborarem sistematicamente a ideia do eterno retorno. Mas a noção de “origem” está ligada, sobretudo, à ideia de perfeição e beatitude.
Eis a razão pela qual encontramos, nas concepções de escatologia entendida como uma cosmogonia do futuro, as fontes de todas as crenças que proclamam a Idade de Ouro não apenas no passado, mas também, ou até exclusivamente, no futuro.
Trecho de Mito e Realidade (Mircea Eliade, Cap. III – Mitos e Ritos de Renovação)
Imagem: Rosa Celeste: Dante e Beatriz contemplam o mais alto dos Céus, O Empíreo – Gustave Doré (1832)

