As amazonas de Frei Gaspar de Carvajal e a importância da história-mito

Gaspar de Carvajal foi um missionário e padre dominicano espanhol, além de principal cronista da expedição de Francisco de Orellana, a primeira viagem europeia a percorrer toda a extensão do rio Amazonas.

Ele acompanhou a expedição entre os anos de 1541 e 1542, na descida do rio. Seu diário, Descubrimiento del río de las Amazonas, constitui a mais importante fonte primária sobre o primeiro contato europeu com a região e suas populações nativas.

Sua obra é considerada fundamental para compreender o imaginário europeu sobre o “Novo Mundo” no século XVI.

No relato, há uma passagem particularmente interessante sobre o mito das amazonas, registrada no dia 24 de junho de 1541, na foz do rio Jamundá. Esse episódio também é mencionado por Luís da Câmara Cascudo em seu Dicionário do Folclore Brasileiro.

Diz o relato:

“Íamos desta maneira caminhando e procurando um lugar aprazível para folgar e celebrar a festa do bem-aventurado São João Batista, precursor de Cristo, e foi servido Deus que, dobrando uma ponta que o rio fazia, víssemos alvejando muitas e grandes aldeias ribeirinhas. Aqui demos de chofre na boa terra e senhorio das amazonas.”

Mais adiante, continua:

“Começaram os espanhóis, arcabuzeiros e besteiros, atirando nos indígenas, que lutavam como bichos bravios. Quero que saibam qual o motivo de se defenderem os índios de tal maneira. Hão de saber que eles são súditos e tributários das amazonas e, conhecendo a nossa vinda, foram pedir-lhes socorro, vindo dez ou doze. A estas nós as vimos, que andavam combatendo diante de todos os índios como capitãs, e lutavam tão corajosamente que os índios não ousavam mostrar as espáduas; e ao que fugia diante de nós, o matavam a pauladas. Eis a razão por que os índios tanto se defendiam. Estas mulheres são muito alvas e altas, com cabelos muito compridos, entrançados e enrolados na cabeça. São muito robustas e andam nuas em pelo, tapadas as suas vergonhas, com seus arcos e flechas na mão, fazendo tanta guerra como dez índios. E, em verdade, houve uma destas mulheres que meteu um palmo de flecha por um dos bergantins, e as outras pouco menos, de modo que os nossos bergantins pareciam porcos-espinhos.”

Outro trecho relata:

“Os espanhóis, dirigidos por Francisco de Orellana, mataram cerca de sete ou oito amazonas, enfraquecendo a resistência indígena. Os brancos desceram o rio levando um prisioneiro, que narrou notícias surpreendentes quando interrogado pelo capitão. As mulheres residiam no interior, a sete jornadas da costa. Viviam sem marido e se dividiam, em grande número, por cerca de setenta aldeamentos de pedra, com portas, ligados entre si por estradas cercadas de ambos os lados, nas quais se exigia pedágio dos transeuntes. Quando lhes vinha o desejo, faziam guerra a um chefe vizinho, trazendo prisioneiros que libertavam após algum tempo de coabitação. As crianças masculinas eram mortas e enviadas aos pais, enquanto as meninas eram criadas nas práticas da guerra. A rainha chamava-se Conhori. Havia imensa riqueza de ouro e prata, com utensílios domésticos de ouro para as fidalgas e de madeira para as plebeias. Na cidade principal havia cinco grandes casas com adoratórios dedicados ao sol. As casas de devoção chamavam-se Caranai. Possuíam assoalho elevado até meia altura e tetos forrados com pinturas coloridas. Nesses templos havia ídolos de ouro e prata em figuras femininas, além de muitos objetos preciosos dedicados ao culto solar. Vestiam finíssima lã de ovelha do Peru, usando mantas ajustadas dos peitos para baixo, com o busto descoberto, e um manto preso à frente por cordões. Traziam os cabelos soltos até o chão e, na cabeça, coroas de ouro com cerca de dois dedos de largura.”

Percebe-se como a descrição de Frei Gaspar se harmoniza com o mito grego das amazonas.

Assim como nas narrativas de Heródoto, Carvajal descreve mulheres que exercem papéis tradicionalmente associados aos homens, como guerreiras e capitãs. A menção de que elas “matavam a pauladas” os índios que fugiam reforça a ideia de uma autoridade absoluta e implacável sobre os homens, que aparecem como “súditos e tributários”.

O trecho sobre a “coabitação” temporária com prisioneiros e o descarte dos filhos homens, mortos ou enviados aos pais, remete diretamente à tradição mitológica grega. Esse elemento funcionava, no imaginário clássico, como explicação para a perpetuação de uma sociedade exclusivamente feminina sem a presença permanente de homens.

Carvajal também eleva o status dessas mulheres ao descrevê-las como integrantes de uma sociedade altamente organizada. A menção a aldeias de pedra, estradas e pedágios sugere um grau de complexidade que contrasta com a ideia de “selvageria” que os espanhóis esperavam encontrar.

A presença de ídolos de ouro, prata e templos dedicados ao Sol aproxima o mito das amazonas do imaginário do Eldorado, introduzindo um componente econômico que certamente estimulava novas expedições.

Ao descrevê-las como “alvas e altas” e exímias arqueiras, capazes de transformar embarcações em “porcos-espinhos”, Carvajal as distingue visualmente dos demais povos nativos. Essa caracterização dialoga com a literatura de cavalaria da época, na qual a brancura e a estatura elevada eram atributos recorrentes de figuras heroicas ou extraordinárias. Assim, tornavam-se adversárias dignas, quase sobre-humanas, aos olhos do público europeu.

Historiadores mais rigorosos tendem a descartar esse relato como invenção, argumentando que Frei Gaspar teria moldado sua narrativa para ajustá-la ao mito das amazonas. No entanto, há um pressuposto igualmente problemático na historiografia: a ideia de que a história não seja, também, uma construção narrativa. Esse processo é recorrente, seja na seleção parcial de fatos, seja na ênfase desigual atribuída a determinados acontecimentos. No contexto contemporâneo, essa questão se torna ainda mais evidente diante das disputas ideológicas que atravessam a escrita da história.

Nesse sentido, pode-se argumentar que Frei Gaspar foi, à sua maneira, mais transparente. Ele não ocultou suas referências culturais. Originalmente, Francisco de Orellana havia nomeado o curso d’água como “Rio de Orellana”. No entanto, após o registro do encontro com as guerreiras, imediatamente associadas às amazonas da mitologia grega, a denominação acabou sendo ressignificada.

Talvez seja mais preciso afirmar que Frei Gaspar “reconheceu” o mito grego no território amazônico, interpretando o que via a partir das referências que já possuía.

Diferentemente de muitos cronistas modernos que reivindicam uma suposta neutralidade, Carvajal deixa visíveis as estruturas de sua narrativa. Ele não simula uma objetividade científica inexistente no século XVI; ao contrário, opera por analogia e reconhecimento. Para o homem do Renascimento, o mundo só se tornava inteligível quando relacionado ao cânone clássico ou à tradição bíblica.

Ao “reconhecer” as amazonas, ele buscava traduzir uma alteridade radical — possivelmente mulheres guerreiras indígenas ou mesmo guerreiros de cabelos longos — em termos compreensíveis para a Coroa espanhola e para o público europeu, e, sobretudo, em algo que pudesse ser valorizado dentro daquele horizonte cultural.

A historiografia contemporânea, por sua vez, frequentemente oculta suas próprias “fontes aspiracionais” sob uma aparência de tecnicidade ou neutralidade. Enquanto Carvajal implicitamente reconhecia que via o mundo através de Homero e da Bíblia, muitos historiadores selecionam os fatos que melhor se ajustam às suas hipóteses, relegando ao silêncio aquilo que as contradiz.

Dizer que ele “reconheceu” o mito é mais preciso e sofisticado do que afirmar que ele “mentiu”. O que fez foi projetar um mapa mental sobre uma geografia desconhecida. O resultado dessa operação é uma amálgama singular: o rio Amazonas deixa de ser apenas um dado geográfico e passa a existir também como um espaço literário, fundado por essa crônica.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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