Conquista, poder e guerra civil inscritos no mito fundador de Roma
Estou lendo sobre a fundação de Roma no segundo volume de A História das Crenças e das Ideias Religiosas, de Mircea Eliade.
Sempre ouvi falar da fundação mítica de Roma pelos irmãos gêmeos Rômulo e Remo, mas confesso que nunca havia parado para refletir com atenção sobre os detalhes dessa narrativa. O estudo mais atento das tradições míticas revela que nenhum elemento de uma história desse tipo é gratuito. Cada detalhe carrega um sentido simbólico preciso.
O mito da fundação de Roma atravessa padrões cosmogônicos universais, mas ao mesmo tempo cifra elementos históricos, sociais e políticos muito concretos. Enquanto lia, chamou-me a atenção uma ideia curiosa: poucas civilizações possuem dois fundadores míticos, e menos ainda fundadores gêmeos colocados em oposição desde a origem.
Essa duplicidade pode estar relacionada à própria formação histórica de Roma, frequentemente interpretada como a fusão de dois grupos distintos. De um lado, populações neolíticas autóctones da península Itálica. De outro, invasores indo-europeus vindos das regiões transalpinas. A cidade já nasceria, portanto, como síntese forçada de diferenças, não como unidade orgânica.
Segundo a tradição, Numitor, rei de Alba Longa, foi deposto por seu irmão Amúlio. Para consolidar o poder, Amúlio mandou matar os filhos de Numitor e obrigou sua sobrinha, Reia Silvia, a tornar-se vestal. Como sacerdotisa, ela deveria manter o fogo sagrado do templo, símbolo da pureza, da estabilidade e da segurança do Estado, além de permanecer virgem.
No entanto, Reia Silvia é engravidada pelo deus Marte e dá à luz os gêmeos Rômulo e Remo. Para evitar ameaças ao trono, as crianças são abandonadas às margens do rio Tibre. Ali, segundo o mito, são amamentadas por uma loba enviada por Marte e, posteriormente, recolhidas por um pastor e criadas por sua esposa.
Já adultos, Rômulo e Remo retornam a Alba, matam Amúlio e restauram Numitor ao trono. Após esse ato de justiça, deixam a cidade e decidem fundar uma nova comunidade no local onde haviam passado a infância.
É nesse ponto que o conflito reaparece. De acordo com a tradição mística e com historiadores como Tito Lívio, os irmãos não conseguem chegar a um acordo sobre o local exato da fundação. Rômulo escolhe o Palatino, a colina mais central, associada à origem mítica dos gêmeos. Remo prefere o Aventino, ao sul do Palatino.
Desde a origem, portanto, Roma nasce marcada pela discordância. Como eram gêmeos e não havia primogenitura clara, decidem recorrer à vontade dos deuses por meio do auspício, a observação ritual do voo dos pássaros. Remo vê seis abutres primeiro. Rômulo, mais tarde, vê doze. Embora Remo reivindique a primazia temporal, Rômulo reclama a vitória pelo número maior.
A disputa se intensifica quando Rômulo traça, com um arado, o sulco que delimitaria o espaço sagrado da cidade. A terra retirada simbolizava os muros, o sulco representava o fosso, e o arado erguido indicava o local futuro das portas. Remo, em gesto de escárnio, salta por cima dessa fronteira simbólica.
Rômulo então o mata, proclamando: “Assim pereça todo aquele que no futuro atravessar minhas muralhas”.
Como observa Eliade, o caráter mitológico dessa tradição é evidente. O abandono do recém-nascido remete a figuras como Sargão, Moisés e Ciro. A loba enviada por Marte antecipa a vocação guerreira dos romanos. Alimentados por uma fera e filhos de um deus da guerra, os fundadores de Roma não estavam destinados à vida pastoral ou pacífica, mas à conquista e à dominação.
A loba não é apenas um animal protetor. Ela simboliza a força bruta, a sobrevivência e a agressividade. Roma nasce como uma cidade de predadores, não de pastores. A dominação aparece como destino natural, inscrito desde o mito fundador.
O tema dos irmãos inimigos e do fratricídio pode ser interpretado tanto como o primeiro sacrifício cruento, comum aos mitos de fundação, quanto como um presságio político. A morte de Remo consagra a fronteira sagrada da cidade, o pomerium, mas também institui a violência interna como princípio estruturante.
A dualidade entre Rômulo e Remo estabelece que Roma já nasce sob o signo da divisão. Ao contrário de outros mitos, nos quais irmãos cooperam para fundar uma ordem, em Roma a unidade só é alcançada pela eliminação do outro. Não há conciliação, apenas vitória.
Historiadores romanos posteriores, como Horácio em seus Epodos, chegaram a afirmar que as guerras civis da República eram a “maldição de Remo” cobrando seu preço. Do assassinato de Júlio César às conspirações e traições do período imperial, a política romana parece repetir o gesto fundador de Rômulo. O poder absoluto não admite iguais nem vizinhos.
Roma seria, assim, marcada pela conquista, pelo domínio e pela expansão. Mas, desde o seu mito de origem, também estaria condenada ao conflito interno, às disputas fratricidas, às conspirações e às guerras civis. O fratricídio inicial não foi um acidente narrativo, mas o arquétipo de um modo de exercício do poder que se prolongaria por mais de mil anos.