Da Cognição à Supracognição

Vyasa, um dos sábios mais reverenciados da Índia antiga, descreve de forma precisa o caminho que conduz da cognição (Samprajñāta Samādhi) à supracognição (Asamprajñāta Samādhi).

Vamos definir, primeiramente, a diferença entre cognição e supracognição.

A cognição, nesse contexto, não se refere apenas ao ato comum de pensar ou raciocinar, mas ao processo meditativo no qual a mente ainda opera com algum tipo de objeto ou referência: pode ser uma ideia, uma imagem ou um princípio metafísico. Trata-se de um estado de concentração profunda em que há clareza e discernimento, mas em que a atividade mental, embora refinada, ainda persiste.

A supracognição, por sua vez, marca a superação desse estágio. Nela abandona-se completamente qualquer apoio mental ou objeto de meditação, mergulhando em uma experiência em que não há mais distinção entre sujeito e objeto. É a consciência sem conteúdo, um estado de pura presença, silencioso e absoluto, no qual a mente deixa de funcionar como mediadora.

No processo de supracognição, a iluminação (prajñā) surge de maneira espontânea, como uma forma de sabedoria direta e intuitiva que não depende de raciocínio, linguagem ou comparação.

Segundo as doutrinas espirituais indianas, por meio desse estado, realiza-se o chamado “isolamento absoluto” (kaivalya), no qual o puruṣa — o princípio espiritual, consciente, imóvel e passivo — liberta-se definitivamente do prakṛti — o princípio material, inconsciente, dinâmico e ativo. Essa libertação representa a consumação da jornada, em que a consciência deixa de estar condicionada pelas estruturas da mente e do mundo material, alcançando sua pureza intrínseca.

Mircea Eliade adverte que seria um erro considerar esse processo de “isolamento absoluto” como uma espécie de “transe” ou “catatonia”, em que a consciência seria esvaziada de todo conteúdo. O estado de supracognição é aquele em que a consciência se esvazia apenas dos objetos. Na verdade, a consciência deixa de se concentrar na “ideia do conhecimento do objeto” e a substitui pelo próprio “objeto do conhecimento”.

Não se trata, portanto, de uma consciência absolutamente vazia. Ao retirar os “objetos da consciência”, abre-se espaço para a entrada da intuição direta e total. Inaugura-se, assim, um estado que já não é mais “experiência”, mas “revelação”.

A pessoa que alcança esse estado é considerada um jīvan-mukta, ou seja, “liberta em vida”. Ela já não vive sob o domínio do tempo, mas num eterno presente — o nunc stans, expressão com a qual Boécio definia a eternidade. Sua situação, naturalmente, é paradoxal: está, ao mesmo tempo, dentro e fora do tempo. Ainda possui um corpo sujeito à temporalidade e à mortalidade.

Nisso, Eliade identifica um tema recorrente nas religiões e nas tradições místicas: a coincidentia oppositorum (ou coincidência dos opostos). Ou seja, um ponto de convergência entre unidade e multiplicidade, finitude e infinitude. A unidade buscada nesse processo é a mesma que está no cerne de toda experiência religiosa: “religar” aquilo que foi separado.

Esse processo em busca da supracognição (e, como resultado, da iluminação) é muito mais do que imaginamos. Não se trata de “se tornar mais sábio” ou de “virar um guru”. É algo muito mais profundo: pode ser entendido como a busca da não-dualidade primordial, da plenitude não diferenciada anterior à cisão do real em sujeito e objeto.

No entanto, segundo Eliade, seria um erro grosseiro considerar essa suprema reintegração como um simples retorno ao estado indiferenciado primordial, ao “sono profundo” da existência pré-natal. Reintegração não é regresso. Voltar ao Éden não é o mesmo que ir para o Paraíso.

O ponto decisivo está em que a reintegração não significa apagar a história individual ou dissolver a consciência num anonimato impessoal. Ao contrário, ela incorpora toda a experiência vivida, transcendendo-a. O estado originário é recuperado, mas não como repetição do passado: é uma recuperação enriquecida pela travessia do tempo, pela experiência do sofrimento, do desejo, do erro e da finitude. O iogue não retorna ao “não-saber” primordial, mas alcança uma sabedoria que só é possível porque passou pela diferenciação e superou-a. Reintegração, portanto, é uma síntese superior, em que a unidade se afirma sem negar a multiplicidade, e a eternidade se manifesta sem abolir a temporalidade. Trata-se da plenitude conquistada, não do vazio inconsciente.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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