Este artigo é uma tradução do artigo Dangerous Writing do Substack de Chuck Palahniuk.
Nada realmente bom surge do nada. Anos atrás, eu e Max Brooks estávamos sozinhos em uma sala de aula vazia. Seu livro Guerra Mundial Z havia se tornado o romance de zumbis mais vendido da história — mas eu suspeitava que não se tratasse exatamente de mortos-vivos. Ou melhor, tratava, e não tratava.
Falando sobre o pai, Mel Brooks, Max me contou:
“Nunca comíamos em restaurantes. Durante todo o jantar, os homens faziam fila na mesa para contar suas melhores piadas para o meu pai. Todo dentista judeu sonhava em fazê-lo rir.”
Mel ria de todas, fossem boas ou não, enquanto sua esposa, Anne Bancroft, sorria educadamente ao lado. Nada relaxante.
Aproveitei a deixa e perguntei:
“E a sua mãe? Guerra Mundial Z é, de certa forma, sobre ela?”
Não era uma pergunta aleatória. O último ano de vida de Anne coincidiu com o período em que Max escreveu o livro.
Os olhos dele se encheram d’água. “Ninguém nunca percebeu isso”, disse. No último ano da vida da mãe, ele a levou de médico em médico. Cada oncologista prometia um novo tratamento milagroso, sempre com confiança. Por isso, em Guerra Mundial Z, cada governo anuncia com segurança um plano para derrotar os zumbis.
Mas todos os tratamentos falharam — e, assim como no livro, depois de um ano, os zumbis venceram. Max contou que muitos leitores odiaram o final melancólico, mas ele não poderia ser outro: ao fim de um ano lutando contra o câncer, Anne Bancroft havia morrido.
Aquela conversa, só nós dois naquela sala, foi um momento raro. Um momento bom.
Max é um sujeito engraçado, peludo, e tem pés chatos — o que o impediu de seguir carreira militar. Durante toda a vida, ouviu homens mais velhos dizerem: “Sua mãe, em A Primeira Noite de um Homem, é a mulher mais sexy do mundo!” Por isso, ele nunca assistiu ao filme. Tinha medo de ter uma ereção. E depois?
A verdade é que Anne Bancroft era uma mulher prática: plantava seus próprios vegetais, guardava sementes, enlatava comida. Durante os protestos de Rodney King, ela viu a fumaça sobre Los Angeles e calculou quanto tempo a família conseguiria sobreviver se precisasse abater o pit bull e pescar as carpas do lago do quintal.
“Ela era basicamente uma camponesa italiana”, disse Max — não com vergonha, mas com orgulho.
No ano seguinte à morte da mãe, ele reuniu tudo o que aprendeu com ela — jardinagem, conservação de alimentos — e transformou em outro livro: O Guia de Sobrevivência Zumbi. Uma homenagem.
E eu não fiquei surpreso. É assim que se escreve um bom livro.
Meu melhor professor de escrita, Tom Spanbauer, me ensinou isso. Ele chamava esse método de “Escrita Perigosa”: explorar uma ferida pessoal, algo não resolvido — uma morte, por exemplo. Algo tão íntimo que parece arriscado demais encarar. Ao escrever, o autor exagera, desabafa, e pouco a pouco esgota a dor. Esse processo o faz voltar ao texto, mesmo sem garantias de sucesso, dinheiro ou leitores.
Mas, dizia Tom, essa dor deve ser contada por meio de uma metáfora — como zumbis. Ou Clubes da Luta.
Todo mundo tem uma mãe. E toda mãe, um dia, morre. Poucos querem ler sobre a morte da mãe de alguém, mesmo que ela tenha sido uma estrela de cinema. A metáfora é o que permite que o leitor entre na história. Ela engana a dor e a torna suportável.
Com uma metáfora, você não encara a dor diretamente — e isso é crucial. Michel Foucault dizia que enfrentar um problema de frente só o fortalece. É melhor abordá-lo de lado, com humor ou imaginação. Andrew Sullivan, escrevendo sobre os protestos “Don’t Ask, Don’t Tell”, descreveu manifestantes usando chapéus extravagantes e cartazes que diziam “Gays na Chapelaria”. Ele comentou: “Foucault teria adorado isso.”
Quanto a mim, muitas pessoas me chamam para conversar, pagar um café, e dizem:
“Tenho uma ótima ideia para um livro! Já está toda na minha cabeça. Você escreve, e dividimos os lucros.”
Como Mel Brooks, eu apenas sorrio.
Essas pessoas não fazem ideia de como escrever é desagradável. Tom Spanbauer dizia que o primeiro rascunho é “cagar o pedaço de carvão”: lento, doloroso. Mesmo com a melhor metáfora do mundo, a Escrita Perigosa exige isolamento. E o isolamento é o menor dos problemas.
Mas, quando o rascunho termina, vem o alívio. É sua merda — e toda merda própria tem cheiro de alívio. É o cheiro de que a dor passou.
A dos outros, por outro lado, só fede. Por isso, nessas conversas, sempre penso: por que eu iria querer evacuar?
As grandes ideias raramente se tornam livros, porque nelas não há nada em jogo — nada pessoal, nada perigoso. Quando são escritas, soam artificiais, como um pitch de reunião com café e sanduíche.
Durante anos, troquei cartas com Ira Levin, mestre do século XX em usar metáforas para dizer o indizível. As Esposas de Stepford captou a reação masculina ao feminismo. Já O Bebê de Rosemary, eu acreditava, era uma metáfora para a tragédia da Talidomida — a droga que causou deformidades em bebês. Levin nunca confirmou, nem negou.
Também defendo que A Loteria, de Shirley Jackson, simboliza o recrutamento militar: jovens escolhidos ao acaso para morrer na guerra, como a mulher apedrejada na história. O escândalo após a publicação refletia a culpa e a negação do público.
Anne Rice, por sua vez, escreveu Entrevista com o Vampiro enquanto a filha enfrentava leucemia. O sangue era o tema constante de suas vidas — exames, transfusões. E o vampiro virou sua metáfora. Quando a menina morreu aos cinco anos, a personagem no livro também precisou morrer.
Nada de bom vem do nada.
Tom Spanbauer tinha razão: é a dor insolúvel que mantém o escritor voltando ao texto. Levin, Jackson, Rice — todos escreveram disfarçando o sofrimento em metáforas.
Jacqueline Susann fez o mesmo em O Vale das Bonecas. O momento mais melodramático do livro — um cantor debilitado levantando da cadeira de rodas para cantar com uma estrela em crise — foi inspirado em algo real: o filho dela, internado em um hospital psiquiátrico. O público riu no cinema, mas para Susann, era o reflexo de seu próprio reencontro semanal com o filho. Até a pieguice vem da dor. Até o melodrama nasce da Escrita Perigosa.
Se você ainda não percebeu, não vou revelar as minhas dores. Levin não revelou as dele. Nem Jackson. Nem Susann. Estou em boa companhia.
Mas posso contar uma última coisa:
No primeiro ano de faculdade, na aula de cinema, o professor de Max Brooks apagou as luzes e anunciou:
“Hoje veremos A Primeira Noite de um Homem.”
Max me disse que, para seu grande alívio, não teve uma ereção.