A Igreja do Diabo, escrito por Machado de Assis em 1884, destaca a presença do tema do duplo e explora as dinâmicas entre Deus e o Diabo diante das contradições humanas. Machado se inspira diretamente em Fausto, especialmente na visão do Diabo como ser dialético.
Em determinado ponto, o conto adota a lógica do carnaval — o mundo às avessas — para, depois, revertê-lo novamente à normalidade.
O conto é dividido em quatro capítulos: “De uma ideia mirífica”, “Entre Deus e o Diabo”, “A boa nova aos homens” e “Franjas e franjas”.
No primeiro capítulo, o Diabo, insatisfeito com seu papel desorganizado, decide fundar uma igreja para rivalizar com as religiões existentes, usando a negação como estratégia.
No segundo, o Diabo visita Deus no céu e explica seu plano de corromper virtudes humanas.
No terceiro, o Diabo prega na Terra, fundando sua Igreja e pregando vícios como se fossem virtudes, conseguindo angariar adeptos.
No quarto e último capítulo, o Diabo perde o controle sobre seus fiéis devido à liberdade excessiva e fica perplexo ao perceber que, com o tempo, eles começam a praticar virtudes em segredo, levando-o a reconhecer o fracasso de seu projeto. Deus, sábio e irônico, atribui o resultado à “eterna contradição humana”.
A estrutura do conto é a de uma fábula moralizante, embora “moralizar” não seja um objetivo explícito do autor — antes, trata-se de lançar ideias sobre a natureza humana de forma irônica e sem conclusões óbvias.
A ironia do conto é oral, dramática e situacional: oral porque há um contraste entre discurso e intenção, dramática porque há um contraste entre expressão e compreensão, e situacional porque há um contraste entre intenção e resultado. Essa fórmula, consagrada na sátira machadiana, torna-se um recurso tanto cômico quanto reflexivo.
A reflexão machadiana nesse conto não me parece, como muitas teses afirmam, direcionada especificamente aos “dogmas” ou à “religião”. Sempre achei que o chamado “anticlericalismo de Machado de Assis” fosse mais uma construção a posteriori do que o tom central das suas narrativas.
Acertam ao dizer que há crítica aos costumes da elite; erram, contudo, ao afirmar que a elite da época de Machado era “religiosa”. Ora, a burguesia oitocentista, ávida de progresso e embriagada pelo cientificismo, via a fé com olhos de desdém: era anti-religiosa, darwinista, rousseauniana e determinista.
Não digo que o conto seja “uma defesa da fé cristã”; se fosse identificar algum traço de espiritualidade em Machado com base apenas nessa obra, ele me pareceria mais próximo de uma tradição filosófica ou espiritual chinesa — talvez um taoísmo (ainda que vulgar) —, ao sugerir que tentativas de oposição ou restrição não conseguem conter a tendência natural ao equilíbrio.
Machado de Assis deixa claro, aqui, uma contraposição à dialógica de Rousseau (que via o homem como bom por natureza, corrompido pela sociedade — uma negação do dogma do pecado original cristão) por meio de uma visão que enfatiza a ambivalência inerente ao ser humano.
Lendo A Igreja do Diabo, depreende-se que, para Machado, o homem é essencialmente contraditório — não é bom nem mau por natureza, mas rebelde e desobediente: o “eterno Adão” que come o fruto às escondidas.
Se a ordem for seguir virtudes, ele cultivará vícios secretamente; se a ordem for seguir vícios, ele, por pura rebeldia, buscará as virtudes.