A roda e os quatro véus da existência

Imagine uma roda, imóvel em seu eixo. De repente, uma mão a toca e ela começa a girar. O movimento persiste por um tempo, mas, pouco a pouco, a força se esgota e a roda retorna ao estado de inércia.

Nesse gesto simples, a existência se revela em quatro faces. Quatro, sempre quatro. Os mesmos quatro yugas e das eras evocadas no sonho da estátua de Nabucodonosor.

Quando a roda repousa, há apenas a potência adormecida, a promessa de um movimento ainda por vir. Se víssemos apenas esse instante, acreditaríamos que nada jamais acontece, que o mundo repousa fixo.

Quando a mão intervém e a roda desperta, é como se tudo ganhasse um sentido imediato: o silêncio se rompe, e a vida (o movimento) parece sustentada por uma força externa sempre presente, uma mão que jamais abandona o que moveu.

Mas logo essa mão se retira, e ainda assim a roda continua a girar. Nesse momento, a ilusão se inverte: passamos a crer que a roda se basta, que o movimento lhe pertence, esquecidos do impulso primeiro que fez nascer seu movimento.

E então o giro enfraquece, até que o movimento se desfaz e a roda repousa outra vez. Ao contemplar apenas esse fim, uns se entregam à curiosidade; perguntam-se de onde veio a força, se existe uma mão oculta que poderá voltar a tocá-la; enquanto outros se rendem ao niilismo, convencidos de que tudo caminha inevitavelmente para o nada, o não-movimento.

Talvez o mistério não esteja apenas em algum lugar ou outro, mas na própria articulação que une repouso, impulso e movimento.

E entre a fé que espera a mão e a certeza que se resigna no repouso, eu escolho a primeira.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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