O palácio de Baal, o furor de Anat e o gênero feminino

Para celebrar a vitória sobre o dragão, Anat oferece um banquete em honra a Baal.

Mais tarde, a deusa fecha as portas do palácio e, tomada pelo furor homicida, mata os guardas, os soldados e os velhos; com o sangue que chega até seus joelhos, ela se adorna com as cabeças e as mãos das vítimas.

Baal é morto em seu próprio palácio.

Ao encontrar o corpo inanimado de Baal, Anat começa a lamentar-se e, ao mesmo tempo, devorar sua carne e beber seu sangue.

Mircea Eliade lembra que paralelos desse evento são encontrados nos mitos egípcios e, sobretudo, na mitologia e na iconografia da deusa indiana Durga.

Carnificina e canibalismo são traços característicos das deusas arcaicas da fertilidade.

O mito de Anat pode ser classificado entre os elementos comuns da antiga civilização agrícola que se estendia pelo Mediterrâneo oriental até a planície gangética.

Em outro episódio, Anat ameaça o próprio pai, El, de cobrir-lhe os cabelos e a barba de sangue.

É interessante notar que as deusas que representam esse tipo de violência catártica são representadas por mulheres, e também é interessante observar que a violência de Anat ocorre em um tipo de transe incontrolável.

A violência não é algo exclusivo de um ou outro gênero. Geralmente, no campo simbólico, o masculino representa a guerra e o feminino, o assassinato e a chacina.

A guerra é essencialmente masculina por ser racional, planejada e estoica. O chacina, por outro lado, é furtiva ou passional, características simbolicamente mais ligadas ao feminino.

Camille Paglia também observa isso em ‘Personas Sexuais’, ao destacar que a característica fundamental do feminino é a sua sujeição completa aos ciclos ctônicos.

A própria natureza engole, define e humilha o gênero feminino, fazendo-o sujeitar-se a incontáveis situações de vulnerabilidade e instabilidade (gravidez, variações hormonais, etc.). Não é aleatório o fato de os casos de possessão serem majoritariamente femininos.

A mulher deseja (e muito) a capacidade masculina de estabilidade, controle, projeção e direção.

Isso é o que Freud interpretaria posteriormente (e pejorativamente) como inveja do pênis.

É natural que a mulher seja interpretada como uma força caótica, contraditória e imprevisível, tal como sua natureza.

É natural, também, que no mundo espiritual a mulher seja, em parte, reflexo dessa condição perpétua de inconformidade com o próprio gênero.

O canibalismo das deusas, e o fato de a maior parte de suas vítimas serem homens, além de ser um reflexo de um desejo sexual criptografado, também simboliza uma vontade de engolir o princípio masculino.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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