Son of Arrakis: riffs pesados, misticismo messiânico e psicodelia cósmica baseado em Duna (Frank Herbert)

O universo de Duna, criado por Frank Herbert, consolidou-se como um marco na ficção científica ao abordar, em uma narrativa de grande densidade, temas como ecologia, religião, política e a tragédia de um messianismo que não traz redenção.

Arrakis, o planeta desértico, é mais do que um cenário: é o centro simbólico e espiritual de uma teologia e de uma geopolítica complexas, sustentadas pela melange, a especiaria que concede presciência, longevidade e possibilita as viagens espaciais.

É justamente essa aridez filosófica e essa profundidade conceitual que a banda canadense Son of Arrakis busca traduzir em música, em seus álbuns conceituais Volume I (2022) e Volume II (2023), no estilo que eles chamam de Melange Rock.

Formada por Vick Trigger, Mathieu Rcine, Francis Duchesne e Frédéric Couture, a banda utiliza as sonoridades arrastadas e psicodélicas do stoner e do doom rock para recriar a sensação hipnótica do deserto de Arrakis. Seus dois primeiros discos funcionam como um díptico sonoro, explorando a ascensão trágica de Paul Atreides e as consequências cósmicas de seu reinado, culminando no sacrifício transcendental de seu filho, Leto II, o Imperador-Deus.


Volume I – A crítica à tecnologia e a tragédia do messias

O Volume I concentra-se nos temas do primeiro livro da saga. Abre com “Shai-Hulud”, um instrumental que evoca a força brutal e indomável dos vermes de areia, símbolo máximo da natureza viva e espiritual de Arrakis. A cadência lenta e o peso dos riffs criam uma atmosfera meditativa e opressiva, como se o ouvinte fosse sugado pelas dunas.

A carga filosófica se intensifica em “Complete Obliteration”, que faz referência direta à Jihad Butleriana, a guerra santa que baniu as “máquinas pensantes”. Herbert usa esse episódio para criticar a dependência humana da tecnologia e sua consequente passividade. O verso “Dissidents of this decadence caused by man’s lethargy” denuncia essa complacência, enquanto “Annihilate the illusion of freewill with power to coerce” resume o cerne político de Herbert: qualquer sistema de controle total — seja tecnológico, religioso ou carismático — transforma a liberdade em ilusão.

Com “Temple of the Desert” e “Omniscient Messiah”, o álbum mergulha nas intersecções entre religião, ciência e manipulação. A saga de Duna é atravessada por mitos fabricados, especialmente pela Bene Gesserit, uma irmandade que espalhou lendas messiânicas através da Missionaria Protectiva para preparar a chegada do líder que poderiam manipular: o Kwisatz Haderach.

Paul Atreides, fruto dessa manipulação genética e espiritual, é ao mesmo tempo salvador e condenado. Ele se torna o Mahdi, o messias esperado pelos Fremen, mas seu dom de presciência é também uma maldição. Em “Abomination”, o álbum retrata o fardo desse poder: Paul enxerga o futuro — uma jihad sangrenta em seu nome —, mas é incapaz de detê-la. O verso “Altered ego by the depth of your recollection / Prior to all ancient lives” simboliza sua transformação em um repositório de memórias ancestrais, um homem despedaçado por visões que o ultrapassam.

O Volume I termina como uma advertência: o carisma e o poder absoluto, mesmo guiados pelas melhores intenções, levam inevitavelmente à tirania e à destruição. Paul é o messias que, ao tentar salvar a humanidade, a condena.

Crítica completa do Volume I aqui.

Volume II – O sacrifício tirânico e a sobrevivência da espécie

O Volume II amplia a narrativa, explorando as consequências do reinado de Paul e a visão monumental de seu filho, Leto II. A faixa de abertura, “Scattering”, é mais enérgica e representa o Caminho Dourado — a solução radical e dolorosa de Leto II para garantir a sobrevivência da humanidade.

Após 3.500 anos de domínio tirânico como Imperador-Deus, Leto força a humanidade a evoluir e se dispersar pelo cosmos. O Espalhamento é sua herança: uma diáspora cósmica que assegura a diversidade e impede a estagnação. A música traduz o custo desse ato — a perda temporária da liberdade e o sofrimento em nome da sobrevivência coletiva. Herbert sugere, assim, que a tirania pode, paradoxalmente, ser um ato de amor em escala civilizacional.

Em “High Handed Enemy”, a perspectiva muda para Lady Jessica Atreides, que reflete sobre sua condição de instrumento genético da Bene Gesserit. A canção expressa sua desilusão ao perceber-se manipulada por um sistema que a reduz a um meio para um fim. A dor da submissão e a luta contra o destino imposto são os temas centrais.

A brutalidade da vingança ressurge em “Retaliation” e “Blood for Blood”. Esta última, uma das faixas mais intensas, aborda a futilidade da guerra e o ciclo autodestrutivo do poder. O conflito entre as Casas Atreides e Harkonnen simboliza a engrenagem imperial que perpetua a violência sob novos disfarces. A guerra, como em Herbert, é sempre a mesma — apenas as bandeiras mudam.

Em “Burn Into Blaze”, o foco recai sobre Alia Atreides, irmã de Paul, nascida com a consciência de todas as suas ancestrais — uma “Abominação”. Incapaz de suportar o peso de tantas vozes, Alia se consome em seu próprio poder. A música funciona como uma metáfora sobre o colapso da identidade sob o excesso de conhecimento e poder espiritual.

Por fim, “Caladan”, uma faixa instrumental, encerra o álbum de modo contemplativo. Caladan, o planeta natal dos Atreides, é um mundo de oceanos e chuvas — o oposto de Arrakis. Sua presença evoca a memória de um lar perdido e o contraste entre fertilidade e aridez, entre o passado verde e o deserto inevitável do futuro.

Crítica completa do Volume II aqui.

A sinfonia da advertência de Herbert

O Melange Rock do Son of Arrakis não é apenas uma homenagem musical a Duna; é uma tradução emocional e conceitual de seus temas. A banda capta, de modo geral, o peso discursivo da obra de Herbert: a crítica à dependência tecnológica, a manipulação religiosa, o poder carismático e o preço da sobrevivência.

Há uma ironia particular no fato de Frank Herbert ter detestado o heavy metal. Quando o Iron Maiden lançou “To Tame a Land” em 1983 — inspirada em Duna —, o autor recusou que o nome do livro fosse usado e manifestou abertamente sua aversão ao gênero.

Ainda assim, é tentador imaginar que, se pudesse ouvir hoje os dois volumes do Son of Arrakis, Herbert talvez se deixasse levar pela curiosidade e revisse sua opinião. Sua sensibilidade literária, atenta à tensão entre misticismo e deserto, poderia reconhecer algo familiar tanto na aridez espiritual evocada pelo Son of Arrakis quanto na grandiosidade dramática da interpretação de Bruce Dickinson em “To Tame a Land” — dois gestos distintos, mas movidos pelo mesmo impulso épico.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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