
NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #1
As primeiras páginas de Escândalo, de Shusaku Endo, já indicam que o livro funciona como uma continuidade temática de Silêncio, embora sob uma perspectiva inteiramente distinta.
Enquanto Silêncio aborda a fé, a apostasia e o martírio pelo olhar do estrangeiro em terra hostil, representado pelo jesuíta português que viaja ao Japão para evangelizá-lo, em Escândalo encontramos um protagonista japonês e católico vivendo na Tóquio consolidada dos anos 1980, chamado Suguro.
Suguro é um escritor marginal, deslocado de si e dos outros.
É um homem que enfrenta a velhice e convive com a sensação persistente de ainda não ter escrito sua obra-prima.
Esse parece ser o seu grande drama íntimo.
O catolicismo surge como um elemento peculiar em sua identidade. Ele não é um convertido, alguém que abraçou a fé ao longo de sua vida, mas alguém batizado na infância, que cresceu dentro do catolicismo.
O tema de Deus, embora não ocupe visivelmente o centro de sua vida, permanece nele de forma resistente e silenciosa.
Ele relata sofrer bullying de outros escritores por insistir na presença de Deus em seus romances, mesmo que essa insistência lhe pareça, em certos momentos, incompreensível.
O confronto com o personagem Kano, um amigo-rival que demonstra profundo desprezo pelo Cristianismo (e uma grande admiração por ele), reforça e até intensifica o conflito entre o homem cristão e o homem japonês que convivem dentro dele.
É um conflito que Suguro parece incapaz de resolver, tanto interna quanto externamente.
Embora japonês, Suguro se torna um estrangeiro entre seus iguais, o que é particularmente interessante.
A fé que não escolheu, mas também não abandona, o coloca numa espécie de deslocamento permanente.
Ele se vê afastado de si mesmo, dos demais cristãos e dos outros japoneses.
Essa mudança de perspectiva em relação a Silêncio parece gerar uma dissociação ainda mais significativa, mais íntima e, pra mim, mais inquietante.
NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #2
Dando continuidade às notas de leitura do romance de Shusaku Endo, acompanhamos o protagonista, Suguro, na vernissage de lançamento do seu novo livro.
No meio da festa, surge uma jovem de cerca de vinte anos, usando batom vermelho que chega a manchar os dentes, com um cigarro na mão direita e uma bebida na mão esquerda.
Ela se aproxima de Suguro com intimidade e carinho, perguntando se ele já havia se esquecido dela. Surpreso, ele responde com educação que ela deve estar o confundindo com outra pessoa. A jovem insiste e o segue pela sala, afirmando que os dois se conheceram em Shinjuku, em uma rua de Kabukicho, o famoso distrito da luz vermelha em Tóquio. Diz ser artista plástica e afirma ter passado uma noite divertida ao lado dele.
Suguro continua sem se lembrar da jovem e, em determinado momento, começa a se irritar. Alguns seguranças percebem seu desconforto e a retiram do salão.
Um repórter literário chamado Kobari, que observava tudo atentamente, decide ir atrás dela para tentar esclarecer a situação.
Kobari detestava os romances de Suguro, não suportava o tom de religiosidade presente em seus livros e enxergava naquele episódio a chance perfeita de “arrastar o escritor na lama”, pois o considerava um “santarrão”.
É interessante notar como se repetem, em diferentes culturas, os mesmos padrões de crítica vulgar dirigidos a cristãos.
Kobari recorre à acusação mais desgastada de todas, a de hipocrisia.
Ele se deliciava com a possibilidade de revelar que, por trás da imagem de escritor cristão, poderia existir um homem que “espiava mulheres em peep shows e apalpava garotas em saunas mistas”.
Há, nesse tipo de crítica, uma expectativa quase fixa de que o cristão seja alguém permanentemente encenando uma moralidade impossível, como se estivesse preso a uma teatralidade compulsória de virtudes.
O ponto que Kobari não enxerga é que, quando essa crítica faz algum sentido, ela só é válida porque nasce de uma sensibilidade cristã. Nenhuma outra tradição religiosa foi tão incisiva ao condenar a exibição pública e farisaica de virtude.
Chesterton dizia que o mundo moderno é formado por virtudes cristãs enlouquecidas, e esse tipo de distorção é um exemplo claro disso.
A melhor resposta para quem acusa a Igreja de ser um espaço de hipócritas, corruptos e pecadores continua sendo a mesma: “sim, somos as piores pessoas do mundo, POR ISSO MESMO estamos em busca de redenção”.
Kobari, por fim, não está denunciando hipocrisia. Ele está apenas se incomodando com a virtude.
Esse zelo agressivo pelo cristianismo alheio aparece em muitos lugares e atravessa fronteiras.
Surge tanto no Japão quanto no Brasil.

NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #3
Dando continuidade às notas de leitura do romance de Shusaku Endo.
Tal como em Silêncio, o autor começa aqui a abordar temas extremamente delicados.
Suguro, o protagonista — um escritor católico respeitado que, como já mencionei, vive o drama do envelhecimento e a angústia de ainda não ter escrito sua obra definitiva —, encontra-se por acaso com uma garota num parque.
O primeiro contato é banal: ele pisa no pé dela e tenta se desculpar.
Desde esse encontro inicial já se percebe uma tensão sexual crescente, descrita por Endo de maneira sutil e perturbadora.
Ele narra como Suguro tira os sapatos da garota, depois a meia, e examina se há algum ferimento. Para se redimir, compra-lhe uma Coca-Cola de um vendedor próximo.
A garota faz algumas perguntas. Ao vê-lo como um senhor idoso, presume que ele seja um dos habituais frequentadores daquela praça — aqueles homens que circulam ali apenas para observar garotas jovens.
Suguro, porém, não pertence àquele mundo. Durante toda a vida manteve uma conduta irrepreensível, como se espera de um bom cristão: marido fiel, pai dedicado, assíduo às missas.
Aquele incidente, no entanto, funciona como um tropeço que o faz cair num universo até então desconhecido.
A garota, chamada Mitsu, está no nono ano do ensino fundamental. Já possui seios desenvolvidos e coxas fornidas; é, paradoxalmente, infantil e sexualizada.
Ela conta a Suguro, com naturalidade assustadora, a rotina promíscua de suas amigas, que são abordadas por homens mais velhos oferecendo dinheiro em troca do “A”, do “B” e do “C”: um beijo, carícias e, por fim, o ato sexual completo (infelizmente, isso é comum no Japão).
Esse tipo de garota (precocemente erotizada, mas ainda pré-adolescente) é, infelizmente, o que grande parte dos homens japoneses considera mais atraente.
Suguro sente-se atraído por Mitsu, mas não de forma avassaladora ou imediata.
Ouve com repulsa os relatos dela e se compadece, de um modo cristão, da sua situação.
Oferece-lhe dinheiro para que não precise se submeter àquilo.
Não acha suficiente; quer ajudar mais.
Propõe, então, que ela trabalhe em sua casa como ajudante da esposa.
É a pior decisão possível.
Quando Mitsu trabalha, torna-se ainda mais bonita. O rosto fica corado, gotas de suor brotam na testa, no queixo, na garganta. Suguro esforça-se por não olhar para as zonas erógenas, mas, embora os olhos se desviem, a mente vagueia sem o mesmo pudor.
Ele trouxe para dentro de casa exatamente a figura que passaria a dominar sua imaginação, a invadir seus sonhos e a reivindicar suas fantasias.
Shusaku Endo repete aqui, com maestria, o mesmo gesto de Silêncio: coloca o cristão diante de uma provação extrema. Como se o impulso genuíno de ajudar eo próximo — feito de forma ingênua, sem malícia — fosse justamente a sua provável pedra de tropeço, o ponto exato onde os maus pensamentos encontram brecha para entrar.

NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #4
Suguro, o protagonista do romance, ainda estava intrigado com o encontro que tivera com uma mulher misteriosa durante o lançamento de seu livro. No dia seguinte, ela lhe enviara um convite para uma exposição de arte nas proximidades de Kabukicho, o distrito da luz vermelha em Shinjuku, Tóquio.
Ao chegar, deparou-se com um retrato seu exposto na galeria.
A perplexidade foi imediata: ele não se lembrava de ter autorizado qualquer retrato, muito menos em um local como aquele. A recepcionista, que conhecia todas as artistas em exibição, afirmou que o próprio Suguro dera essa autorização durante uma noite festiva. Nada, porém, fazia sentido para ele.
O romance então sugere a existência de um doppelgänger de Suguro, alguém que circula entre artistas plásticos e prostitutas.
É nesse contexto que surge Madame Nurse, uma mulher de meia-idade que se apresenta como admiradora de sua obra. Ela traz consigo uma revista literária conhecida pelas críticas duras aos livros de Suguro, sobretudo por seu caráter cristão. Um dos articulistas acusava o autor de evitar o tema da sexualidade porque, como cristão, veria o sexo como algo maculado; insinuava até que ele tinha medo do sexo.
Antes que Madame Nurse tocasse no assunto, Suguro se adianta. Tenta explicar sua posição, como se estivesse desconfortável com a possibilidade de ela ter lido aquela crítica e de enxergá-lo como um santarrão.
Suguro não era “puritano”. Sua moral religiosa se estendia à esfera da sexualidade, mas ele não via o sexo com a carga negativa que a caricatura pressupunha.
Para sua surpresa, Madame Nurse compreende isso. Ainda assim, a conversa se torna mais reveladora. Suguro não conseguia negar que, na concepção católica do sexo ordenado, havia uma mácula implícita — sustentada por uma exuberante poética da virgindade, com seus símbolos de pureza, imaculada concepção e celibato sacerdotal.
Diante disso, emerge uma fricção entre o escritor experimental e o católico devoto, talvez capaz de explicar a possibilidade de dissociação. O doppelgänger que vaga pelas vielas de Kabukicho, afinal, pode ser o próprio Suguro – em busca de algo que evitava assumir.

NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #5
O protagonista, Suguro, parece não apenas ser um homem dividido entre o sagrado e o profano, mas também entre o velho e o jovem.
A questão da idade ocupa um lugar singular na formação desse personagem. Ele se observa no espelho e enxerga uma figura decrépita, imagem que acentua a angústia de imaginar que não viveu a vida de forma plena.
Ele se encontra com madame Naruse, uma mulher de meia-idade que divide o tempo entre trabalhos voluntários em um hospital infantil durante o dia e imersões no submundo sadomasoquista de Tóquio durante a noite.
Suguro começa a fazer perguntas sobre esse universo como se fosse um adolescente em plena puberdade, como alguém que vê uma revista erótica pela primeira vez.
Estamos falando de um senhor católico, casado e com filhos. O sexo não era para ele um mistério, mas parece carecer de um componente de fantasia e sinceridade.
Por pudor, ele não conversava sobre isso com a esposa, mas perguntava a Naruse com evidente lascívia.
O que o fascina nela são essas imagens aparentemente contraditórias que beiram o inverossímil.
Na descoberta de seu duplo, o suposto impostor que vaga pelas ruas sujas do distrito da luz vermelha de Tóquio, aquilo que antes lhe provocava escândalo (o nome do livro passa a fazer sentido) passa a gerar curiosidade e, suspeito, começa a se transformar em admiração.
Em suma, Shusako Endo parece reivindicar aqui a mais mundana e pornográfica das narrativas. É um tipo de livro que escandalizaria muitos padres e leigos piedosos. Para mim, ele recupera a tradição literária mais genuinamente católica (e uma das coisas que mais me aproximou da Igreja), a confissão agostiniana.

NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #6
Suguro encontra-se com Kobari após receber um telefonema em que ele o questiona, de forma passivo-agressiva, sobre os boatos de que frequentaria um distrito de má fama em Tóquio.
Suguro nega, culpa um impostor e, para provar sua inocência, aceita ir com Kobari ao hotel onde, segundo os rumores, ocorreriam orgias de sadomasoquismo.
A única ligação direta entre Suguro e esse ambiente seria uma artista plástica chamada Motoko, frequentadora assídua desses eventos e figura que mereceria quase um capítulo à parte.
Motoko expressa no sadomasoquismo um desejo explícito de aniquilação. Ela implora por sessões de tortura, exige que os homens a agridam com força, que derramem cera quente sobre sua pele e que a estrangulem até a inconsciência. Assusta até os próprios clientes. Seu sonho declarado é morrer ali.
Supostamente, Suguro teria passado uma noite com ela em uma dessas orgias.
Suguro e Kobari pedem para ver as gravações do hotel e, para decepção de Kobari, não conseguem identificar os envolvidos, já que todos estão mascarados. Reconhecem apenas Motoko.
Suguro volta para casa inocentado, ao menos por enquanto, mas as imagens de tortura e sexo que viu começam a persegui-lo.
Antes de sair, ele havia colocado algumas cartas no bolso e, para desviar seus pensamentos, decide lê-las.
Uma delas vem de um admirador que conta ter se batizado no catolicismo inspirado por um de seus romances. Em vez de alegrá-lo, a carta o angustia profundamente. Ele se sente uma fraude, um desonesto, como se tivesse enganado aquele jovem. É certo que seus romances não tinham teor apologético, mas a religiosidade católica era nele ao mesmo tempo epidérmica e visceral.
Ele acabara de testemunhar um universo lascivo e violento e, em seguida, lia atônito que um de seus leitores havia se convertido por causa dele e de seus livros.
A culpa se agarra ao seu coração porque ele se vê responsável não apenas por uma vida, mas por uma alma.
Ele desejava falar com aquele jovem, dizer que sua conversão fora um engano, que não deveria se inspirar em alguém tão falho e decadente quanto ele.

NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #7
Madame Naruse escreve a Suguro uma carta perturbadora que ocupa quase todo o capítulo 4, estruturada como uma confissão em que biografia e inconsciente se entrelaçam.
Ela relata como conheceu o marido e como esse vínculo originário se converteu, após sua morte, em uma clivagem subjetiva que a faz viver entre o cuidado e a autoviolência: voluntária em um hospital infantil durante o dia, adepta de práticas sadomasoquistas à noite.
Eles se conheceram quando ele ainda era professor universitário, antes de ser enviado à China.
O casamento, após seu retorno, parecia normal, mas para ela havia uma ausência radical de desejo.
Esse silêncio se rompe quando ele, por meio de um ex-companheiro de guerra, admite ter participado de atrocidades na China, incendiando mulheres e crianças.
A revelação, mantida oculta por anos, produz nela um curto-circuito afetivo: náusea, culpa e, de modo inconfessável, excitação.
O erotismo irrompe justamente no ponto em que o humano falha.
O sexo entre eles se intensifica.
A iniciativa passa para ela, como se o contato com o horror liberasse algo soterrado.
E isso dura até a morte dele.
Após enviuvar, Naruse se percebe vazia.
Para elaborar a culpa de ter desejado o monstro que habitava o marido, cria uma forma de economia psíquica baseada na divisão: uma identidade diurna voltada ao sacrifício e uma identidade noturna dedicada à repetição ritualizada do trauma.
O cuidado às crianças doentes torna-se espécie de pagamento simbólico, permitindo que à noite ela reinscreva no corpo a violência que a fascina e punir-se por esse fascínio.
O mais interessante de tudo: Endō não a julga.
Ele a observa como alguém que reconhece, em Naruse, o mesmo abismo que o inquieta: a coexistência do mal e do gozo, a zona onde ética, fé e desejo deixam de se distinguir.
Por isso sua compaixão é quase insuportável, e talvez difícil para leitores que exigem pureza moral.
NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #8
Estou da metade para o fim do livro. Enquanto a primeira parte era mais insinuada na apresentação desse possível doppelganger que ronda Suguro, na segunda parte a figura duplica-se com nitidez crescente. A aparição ocorre no fundo de um salão durante uma de suas palestras e o sorriso zombeteiro desse outro é descrito como um gesto de reconhecimento íntimo, quase animalesco, como se soubesse exatamente onde tocar para desestabilizá-lo.
O mais perturbador é que a presença dessa figura não se limita à percepção de Suguro. O repórter Kobari, obcecado por destruir a imagem do escritor, também testemunha esse duplo, o que desloca a narrativa do campo privado do delírio individual para uma zona de ambiguidade gótica, com ressonâncias folclóricas e literárias muito claras. A atmosfera lembra o William Wilson de Edgar Allan Poe, onde a duplicação é literalizada e funciona como mecanismo moral e sobrenatural ao mesmo tempo.
A imagem do doppelganger evoca tanto a tradição centro-europeia do “duplo como presságio” quanto a leitura psicológica de matriz junguiana, na qual o duplo é a irrupção da sombra, a exteriorização dos conteúdos reprimidos que o ego tenta negar. O romance articula essas camadas de forma deliberadamente instável, fazendo com que as aparições variem entre sinal profético, manifestação demoníaca e sintoma psíquico.
Suguro parece afundar num estado de despersonalização, numa espécie de delírio de auto-duplicação que dialoga com outras síndromes do duplo estudadas pela psiquiatria. A referência à síndrome de Capgras, em que o sujeito acredita que uma pessoa foi substituída por um impostor idêntico, e à síndrome de Fregoli, na qual muitos indivíduos seriam na verdade uma única pessoa camuflada, reforça o caráter clínico do fenômeno. O livro faz uso dessas patologias como metáforas para a crise de identidade de Suguro, mostrando como a mente pode multiplicar ou deformar rostos quando tenta fugir de si mesma.
O ponto mais inquietante é que esse delírio não é exclusivo de Suguro. Kobari compartilha dessa visão, configurando algo próximo de uma Folie à deux, uma psicose induzida que se dissemina entre indivíduos em forte tensão emocional. Isso cria uma dinâmica triangular peculiar: Suguro persegue o doppelganger, Kobari persegue ambos acreditando estar diante do mesmo ser, e o leitor permanece suspenso entre uma explicação sobrenatural e um colapso coletivo da percepção.
NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #9
Suguro adoece e, enquanto o corpo se enfraquece, sua consciência parece deslizar lentamente em direção à morte.
É nesse limiar que Mitsu retorna.
A jovem empregada doméstica, cuja presença se infiltrara nas fantasias eróticas de Suguro — fantasias que ele tentou repelir por pudor cristão, embora sempre retornassem contra sua vontade — ressurge agora com outra densidade simbólica.
Ela não volta como tentação. Surge transformada numa figura que é, ao mesmo tempo, mãe e filha. Enquanto ele delira de febre, Mitsu cozinha o arroz, umedece o pano sobre sua cabeça e ajeita o travesseiro. São gestos simples e carregados de cuidado.
Diante dessa presença, Suguro sente ao mesmo tempo constrangimento e conforto. Mitsu se torna a personificação da pulsão vital, um contraste nítido com seu corpo cansado, já inclinado à renúncia. Ela é uma luz que incide sobre o rosto de Suguro, revelando com ternura e crueldade cada ruga moldada pelo tempo. É também a régua que marca a distância entre o início e o fim, evidenciando o escândalo desse breve intervalo chamado vida.
NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #10
Suguro observava a esposa tocando o samisém, um hábito que ela cultivava para preencher as horas de sua velhice. Ele entrava na sala sempre em silêncio, movido por um respeito, e ela valorizava profundamente essa consideração. Entre ambos reinava uma harmonia imperturbável, uma cordialidade tão perfeita que beirava o irreal. Casamentos assim são raros — e, paradoxalmente, inquietantes.
Sob essa superfície de tranquilidade, porém, havia um sabor amargo de conformidade. A paz que compartilhavam era tão absoluta que desumanizava, como se não houvesse espaço para erro, desejo ou sombra. Para Suguro, essa ausência de atrito tocava um ponto sensível. Como escritor, ele precisava farejar conflitos, pulsões, desordens. Sem conflitos não há narrativa. Sem narrativa, ele não escreve. E se não escreve, ele não é escritor. Ele não existe.
É nesse sufocamento silencioso que seus pensamentos se desviam em direção a Madame Naruse, tão distante da serenidade de seu lar quanto possível. Naruse era voluntária em um hospital infantil durante o dia e frequentadora de clubes de BDSM durante a noite — uma mulher que transitava entre o cuidado e a violência, entre o afeto e a abjeção. Viúva de um criminoso de guerra que incendiara civis na China, ela confessava que a memória brutal desses atos a excitava.
Esse mundo contraditório, bárbaro e vivo, parecia mais real a Suguro do que a placidez impecável de sua casa. Ele não saberia explicar por quê. Apenas sentia que Naruse encarnava uma verdade humana que sua esposa, perfeita demais, não parecia alcançar.
Em meio a esses devaneios, Suguro recebe um livro enviado por Naruse — uma obra sobre Gilles de Rais, contemporâneo de Santa Joana D’Arc, que lutara ao seu lado, mas que, longe da santidade, dedicou-se ao assassinato e ao abuso de crianças. A ligação entre santidade e perversão, convivendo sob a mesma bandeira, estimulava a imaginação de Suguro e correspondia à fascinação visceral de Naruse.
Dentro do livro havia uma carta e um convite para um encontro em um restaurante. A conversa entre eles percorreu temas diversos, girando, sobretudo, em torno da natureza do mal. Ali, Suguro percebia que Naruse não falava do mal como algo externo, mas como uma energia que atravessava o humano de forma profunda, às vezes prazerosa, às vezes inconfessável.
Ele aproveitou a ocasião para perguntar sobre Motoko, conhecida de ambos e frequentadora dos mesmos clubes. Motoko havia se suicidado — um suicídio arquitetado como fantasia fatal. Ela nutria o desejo fixo de morrer asfixiada ou espancada durante o sexo, ou, na falta disso, de dar cabo da própria vida. Houve planejamento, aviso prévio, data, hora e local. Naruse sabia de tudo. E não interveio.
No momento exato do suicídio, Naruse permaneceu em um café próximo, imaginando a cena com intensidade quase erótica. O mal, para ela, era um impulso que a excitava. Suguro, entre horrorizado e fascinado, reconhecia que não conseguia condená-la totalmente. O que o inquietava era sua própria reação a ela.
Porque Naruse parecia humana em sua contradição, em sua mescla de piedade e perversidade. Era uma figura cuja existência pulsava. Diante dela, Suguro percebia que sua esposa — tão correta, tão disciplinada, tão bela — parecia distante, quase idealizada demais para ser tocada. Quase fora do mundo.
Por que o mal, a imperfeição e o perigo lhe pareciam mais próximos da verdade do que a pureza? Por que a sombra lhe parecia mais humana do que a luz?
Essas perguntas, que ele nunca formula em voz alta, talvez sejam o verdadeiro coração do livro — e de sua própria crise.
NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #11
A convite de Madame Naruse, Suguro vai ao hotel numa Sexta-Feira 13, atraído pela promessa de finalmente encontrar o seu sósia. A data não é casual. Segundo uma tradição popular, teria sido num dia assim que ocorreu a crucificação.
Ao chegar ao quarto, porém, Suguro encontra apenas Naruse. É por meio dela que descobre que Mitsu está dormindo em outro cômodo, informação que o desconcerta. Por que Mitsu estaria ali? Que papel ela teria naquele arranjo?
Naruse, indiferente à inquietação dele, desvia o assunto para a Paixão de Cristo, mas não para a figura do inocente crucificado. Seu interesse recai sobre aqueles que o açoitavam, humilhavam e cuspiram nele.
Por que a vítima perfeita desperta o pior nos outros e de onde vem o prazer da crueldade?
Naruse admite sentir excitação ao recordar os crimes cometidos pelo marido na China: cabanas incendiadas, mulheres e crianças assassinadas. Reconhece que esse prazer a dilacera, como se o mal tivesse uma espécie de vitalidade própria que a seduz.
Enquanto serve saquê, Naruse revela um ferrolho secreto no interior do armário. Por ali, diz ela, Suguro poderia espiar Mitsu e, em seguida, o próprio sósia. Ele rejeita a oferta, mas a curiosidade o corrói. Quando Naruse sai para buscar mais bebida, Suguro, já embriagado, enfim cede e olha.
Mitsu dorme nua, corpo ainda em formação, exposto na sua vulnerabilidade juvenil. O que toma Suguro não é um desejo carnal imediato, mas um choque erótico-existencial: ali repousa o início da vida, enquanto ele carrega a iminência do fim.
Naruse entra no quarto vizinho, toca a cabeça de Mitsu com um gesto quase maternal e a desperta suavemente. Logo depois surge o sósia: uma réplica perfeita de Suguro, com as mesmas cicatrizes, rugas e decadência física.
Ele acaricia os seios da jovem e saliva sobre seu corpo. A sensação atravessa Suguro como se fosse própria.
Esse prazer se transforma em um ardente desejo de destruição daquela pureza. O mal, por um instante, parece devolver-lhe algo como vitalidade. E então, num lampejo de revelação sombria, Suguro percebe que está entre os escarnecedores de Cristo.
NOTAS DE LEITURA: ESCÂNDALO (SHUSAKU ENDO) #12
Suguro acabara de ver a si mesmo salivando sobre Mitsu.
Confuso, pois se percebera de fora no exato momento em que aquilo ocorrera, atribuiu o episódio a alguma patologia psicológica.
Aos poucos, convenceu-se de que o impostor que vinha perseguindo era ele próprio. Precisaria assumir essa sua sombra.
Ao sair do hotel com Mitsu, que estava embriagada e não se lembrava do que havia acontecido, mantendo, portanto, sua pureza, Suguro é confrontado por Kobari, o fotógrafo que há tempos o seguia, determinado a destruir sua imagem pública de “escritor cristão”.
Suguro, no entanto, já se encontrava em processo de aceitação da própria sombra. Ele coloca Mitsu em um táxi e a manda de volta para casa.
Kobari o provoca, mas Suguro não reage.
“Durante sua longa carreira literária, Suguro sempre sentira que era possível identificar um sinal de salvação em cada ato torpe do homem. Acreditara que uma energia revigorante pulsava em cada pecado. Por esse motivo, fora capaz de acreditar, mesmo vacilando, que era cristão. Depois de hoje, porém, tinha de aceitar essa imundície como parte de si. Precisava começar a procurar evidências de salvação nessa imundície.
No entanto, não fazia ideia de como resolver isso. Não sabia como lidar com essa confusão. Não havia dúvida de que a escuridão que jamais descrevera em sua ficção estava escondida em seu próprio coração. Normalmente, aquela escuridão permanecia adormecida, mas, em certas condições, de repente abria os olhos e começava a se mexer.”
Nas páginas seguintes, Suguro passa a alucinar, e essas alucinações tornam-se progressivamente mais intensas e mais bizarras, a ponto de lançá-lo simbolicamente de volta ao útero materno. Esse movimento se conecta diretamente ao drama central do livro: o homem no fim da vida que fantasia um retorno radical à origem.
Conclusão
A obra, assim, ressignifica a ideia estereotipada de velhice.
A velhice não significa estar livre da perplexidade. Não implica uma existência reduzida a uma contemplação caricata ou a uma simples espera pela morte.
Mesmo na velhice, ainda há espaço para o mergulho no pecado.
Isso ocorre porque a velhice não nega a corporeidade. Evidentemente, o corpo já não é o mesmo e o desejo não possui a mesma intensidade, mas isso não significa que ele tenha desaparecido.
Shusaku Endo, de modo significativo, devolve dignidade à velhice. Ele desmonta a imagem falsa do sábio sereno e o reinsere no turbilhão da vida, marcado por sombra, dúvida, desejo, queda e pela persistente possibilidade de redenção.
Obs: boa parte das fotos que ilustram essas notas de leitura são do fotógrafo de Watanabe Katsumi