O cinema de horror de Kaneto Shindo

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O Japão, como qualquer outro país, possui uma rica tradição de histórias de terror em seu folclore nativo.

Durante o período Edo, havia uma atividade conhecida como Hyaku Monogatari, ou “o jogo das cem histórias”, que era extremamente popular entre os samurais que precisavam se manter acordados para guarnecer algum castelo ou fortaleza. Neste jogo, os participantes se reuniam em uma sala escura, geralmente à meia-noite, e cada um deles tinha a tarefa de contar uma história de terror que supostamente era baseada em experiências reais.

Antes de dar início ao jogo, acendiam-se 100 velas e escondiam-se todas as armas, intensificando assim a sensação de vulnerabilidade. À medida que cada uma das 100 histórias chegava ao seu fim, uma vela era apagada, mergulhando gradualmente a sala na escuridão até que esta se tornasse totalmente imersa na penumbra.

Com o passar do tempo, a tradição do jogo das 100 histórias evoluiu, adaptando-se aos costumes sociais contemporâneos.

A sala escura do período Edo deu lugar às poltronas de uma sala de cinema.

O nascente cinema japonês de horror começava a refletir a fusão da longa tradição oral oriental com as inovações ocidentais do cinematógrafo. Os contadores de histórias de outrora se transformaram em escritores, roteiristas e diretores.

Embora haja diversos diretores talentosos no gênero de horror japonês, gostaria de destacar um específico: Kaneto Shindo.

Kaneto Shindo

Kaneto Shindo nasceu na província de Hiroshima em 1912, testemunhando as transformações culturais mais marcantes do Japão, desde o período em que o país se uniu ao Eixo durante a Segunda Guerra Mundial até os devastadores ataques atômicos dos Estados Unidos em sua terra natal.

Sua vida, a despeito das tragédias que o circundava, foi dedicada integralmente ao cinema, tornando-se um verdadeiro pioneiro na produção de filmes independentes no Japão. Sua obra é tanto vasta quanto impactante, tendo dirigido 48 filmes e escrito roteiros para outros 238 ao longo de seus incríveis 100 anos de vida.

Shindo enxergava o cinema como uma forma de arte da montagem e da resolução de um exercício conflitante entre imagem e movimento. Ele nos convida a pensar no cinema como a arte da fotografia em seu estado cinético ilusório. Shindo, resgatando tanto a influência do teatro quanto o Kamishibai (teatro de papel), realça a importância do não-movimento para nos lembrar da essência radical do cinema, que reside na ininterrupta sucessão de momentos estáticos.

Os temas abordados por Shindo são fotografias dos temas que abundam o imaginário do diretor: tanto o imaginário desperto quanto onírico.

Seu cinema de horror, em especial, se destaca pela habilidosa combinação de elementos do mundo real com o sobrenatural, mesclando dramas contemporâneos e tradições ancestrais de maneira única.

Filmes de horror de Kaneto Shindo

O Gato Preto

O Gato Preto é o segundo filme de terror de Kaneto Shindo. Não é tão icônico ou repleto de alegorias quanto Onibaba, outro filme de terror do diretor – trata-se de um filme de terror folclórico mais linear, onde o tom sobrenatural é mais realçado, sem margens para interpretações ambíguas. Se pudéssemos resumir “O Gato

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Onibaba – A Mulher Demônio

“Onibaba, A Mulher Demônio” é um filme de 1964 escrito e dirigido por Kaneto Shindo, conhecido diretor que viveu e cresceu no distrito de Hiroshima. Assim como muitos filmes de Kaneto, muitos críticos de cinema apontam que “Onibaba” seja uma alegoria ao ataque das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Não tiro totalmente a razão

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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