Uma observação intrigante feita por Slavoj Žižek, no ensaio Welcome to the Civilization of the Liar’s Paradox, diz respeito à forma como a China lida com sua própria história e com o discurso político.
Segundo Žižek, o Partido Comunista Chinês domina com maestria a arte de manipular a distância entre o enunciado (o que é dito) e a enunciação (quem diz e em que contexto).
Aprendeu-se, a partir do fracasso de Gorbachev na União Soviética, que admitir integralmente os “crimes fundadores” de um regime é, muitas vezes, uma forma de destruí-lo.
Assim, na China, reconhece-se formalmente que Mao Zedong cometeu erros — e, sim, isso é dito abertamente —, mas sem se desculpar e sem permitir que esse reconhecimento gere horror ou corrosão.
Um exemplo emblemático é o de Xi Jinping, filho de um contrarrevolucionário, um antigo perseguido político da era Mao. Ele teria todos os motivos pessoais para condenar o regime, mas, paradoxalmente, é quem hoje o lidera.
Esse paradoxo canaliza toda a energia potencialmente destrutiva da crítica e a converte em sublimação — ou seja, transforma a dor histórica em força de coesão e continuidade.
De fato, todo o modelo chinês, seja político ou econômico, parece se basear nessa lógica de sublimação.
A famosa frase de Deng Xiaoping resume bem essa postura pragmática:
“Não importa a cor do gato, contanto que ele cace o rato.”
A China recusou o choque liberal e, ao mesmo tempo, sublimou a ortodoxia marxista para abrir seus mercados e se integrar à economia global.
Hoje, o país critica o papel dos Estados Unidos em favor de um livre-comércio mundial — algo impensável décadas atrás.
E, nesse cenário, Mao permanece uma figura paradoxal: reconhecido como ditador e mantido como herói nacional — com seu corpo repousando em um mausoléu e seu rosto ainda estampando as cédulas chinesas.
Tudo isso que Žižek aponta é dito em tom de crítica. No entanto, acredito que é justamente aí que está o acerto da China. Aliás, não é a primeira vez que leio Žižek e percebo que concordo com suas premissas, mas não com as conclusões que ele tira delas.
Talvez fosse possível aplicar uma lógica semelhante em outros contextos: exercer uma crítica sem escândalos, que não destrói, mas busca compreender. Escolher, entre os fatos de nossa história, os que podem unir em vez de dividir — e assim criar um verdadeiro senso de coesão nacional.


