Teodoro Sampaio, engenheiro, geógrafo, escritor e um dos mais célebres historiadores negros do país (um verdadeiro polímata), deixou afirmações que hoje deixariam alas mais politicamente corretas da historiografia e dos estudos sociais mais furiosas do que mulher feia e ressentida diante de Sydney Sweeney vestindo jeans.
Segundo Sampaio, durante o bandeirismo, foi menos determinante a violência direta do que a aceitação, pelos dominados, dos valores mais eficazes dos dominadores – um ponto que Sérgio Buarque de Holanda também menciona e questiona, sem histrionismo, em Raízes do Brasil.
No entanto, mesmo nesse contexto de conquista, era mais comum o intercâmbio pacífico de trocas culturais.
Gostaria de destacar o que Sampaio (e também Sérgio Buarque) registra sobre o desenvolvimento da chamada língua geral em São Paulo.
Para ele, a difusão e a extraordinária riqueza do idioma tupi devem-se mais aos bandeirantes e jesuítas do que aos próprios indígenas. Foram eles que aprenderam, dicionarizaram e refinaram o idioma local, levando-o para o interior do Brasil.
O padre Antônio Vieira, citado por ambos, comentou o caráter poliglota da Capitania de São Paulo: em casa, falava-se tupi; na escola, aprendia-se português; e, na missa, ouvia-se latim.
Havia ainda um recorte de gênero no uso das línguas. As famílias eram, em geral, formadas por descendentes de portugueses pelo lado paterno e de indígenas pelo lado materno, e isso, segundo consta, era muito mais favorável à língua indígena do que ao próprio português, dado que a educação das crianças era mais atribuição materna do que paterna.
Se não fosse a ação do Estado brasileiro em padronizar o português como idioma oficial, o falar paulista, deixado ao seu curso natural, provavelmente teria se transformado em um híbrido tupi-lusitano.
Há outra questão interessante nessa história. A repressão à língua indígena foi, em boa parte, mais um esforço anticatólico do que anti-indígena.
Já em 1758, o marquês de Pombal, muito antes de Getúlio Vargas, proibiu o ensino e o uso do tupi e de outras línguas nativas, impondo o português como única língua oficial.
O objetivo, ao contrassenso de todos os emocionados hoje, era reduzir a influência da Igreja Católica, especialmente dos jesuítas, que utilizavam as línguas indígenas para evangelizar e se comunicar com os povos nativos. O Vaticano, sempre foi uma pedra no sapato de projetos nacionalistas de cunho ufanista.
Sampaio e Sérgio Buarque também observaram que a configuração familiar paulista tinha efeitos sociais marcantes. Embora a colonização seja geralmente descrita como um processo patriarcal de dominação, na prática, quanto mais o bandeirismo avançava, mais matriarcal e religiosa se tornava a sociedade. Isso se explicava pelo fato de que muitos homens, que não eram muito religiosos, partiam em expedições e não retornavam, deixando viúvas, solteiras e órfãos, frequentemente acolhidos pela Igreja.
A força masculina, dominante nos primeiros anos, acabava se diluindo no tempo e na estabilidade doméstica, onde a mãe exercia sua autoridade – apenas complementada pelas escolas e paróquias.