A beleza do abandono na fotografia de Toshiboo

Imagine caminhar por uma escola abandonada onde as carteiras continuam perfeitamente alinhadas, ou explorar uma casa vazia em que objetos pessoais permanecem intocados, como se o tempo tivesse sido suspenso.

No Japão, essa experiência tem um nome: haikyo (廃墟), termo que significa “ruínas” ou “vestígios”. Mas por que uma cultura reconhecida pela ordem, disciplina e manutenção meticulosa desenvolveu uma fascinação tão intensa por lugares abandonados?

Essa curiosidade vai além do mero voyeurismo. Ela se entrelaça profundamente com conceitos estéticos e filosóficos conhecidos no Japão como mono no aware — a melancolia provocada pela transitoriedade das coisas — e wabi-sabi — a apreciação da beleza na imperfeição e no efêmero.

Existe, na sensibilidade cultural no país para reconhecer beleza mesmo no que está em declínio, no que está prestes a desaparecer.

Essa predisposição estética pode ser compreendida também à luz da história recente do país. Após a Segunda Guerra Mundial, o Japão experimentou uma destruição quase total. Mais de 60 cidades foram bombardeadas, com metrópoles como Tóquio, Hiroshima e Nagasaki praticamente apagadas do mapa. É importante lembrar que, embora tenha sido vítima, o Japão também foi agente ativo de destruição em outras regiões da Ásia.

De qualquer forma, o trauma coletivo, moldou profundamente a paisagem física e psíquica do pós-guerra – e acabou reforçando algumas noções preexistentes na sociedade há milênios.

A estética do cyberpunk — com seus cenários de sucata, entulho e estruturas corroídas — é, em parte, reflexo direto desse trauma. As cidades reduzidas a esqueletos de ferro e concreto inspiraram um imaginário distópico que vemos em Akira de Katsuhiro Otomo ou Tetsuo, O Homem de Ferro de Shinya Tsukamoto.

Mas se a guerra foi a origem do trauma, o colapso econômico dos anos 1990 ofereceu sua continuação silenciosa e cotidiana. O estouro da bolha especulativa deu início às chamadas “décadas perdidas”, um período prolongado de estagnação que ainda reverbera na economia japonesa. Associado a uma crise demográfica aguda — o Japão possui uma das populações mais envelhecidas do mundo —, esse cenário gerou um fenômeno singular: as akiya (空き家), ou “casas fantasmas”. Estima-se que existam cerca de 9 milhões dessas casas abandonadas no país, representando cerca de 14% de todo o parque habitacional japonês.

Essas construções vazias não são apenas um problema urbano ou habitacional: são símbolos concretos de uma transformação social profunda. Vilarejos inteiros desaparecem, especialmente em regiões rurais, à medida que os jovens migram para os grandes centros urbanos e os mais velhos morrem sem deixar herdeiros dispostos a retornar.

O termo haikyo, reaparece aqui não como mero conceito, mas como lente através da qual se compreende a decadência silenciosa de uma sociedade que enfrenta, simultaneamente, o colapso de suas estruturas econômicas, familiares e comunitárias.

Há, no entanto, uma forma de sublimação nesse processo. Lugares abandonados como hotéis, fábricas, escolas, hospitais e até ilhas inteiras tornaram-se objeto de interesse para exploradores urbanos e fotógrafos. Esses espaços evocam a beleza melancólica da natureza lentamente retomando aquilo que foi moldado pela mão humana, num processo quase poético de reversão.

Um dos nomes mais notáveis nessa vertente é o fotógrafo japonês Toshibo.

Nascido em Saitama em 1988, Toshibo começou sua trajetória enquanto mantinha um blog dedicado a lugares inusitados e festivais excêntricos. Com o tempo, sua atenção se voltou quase exclusivamente às ruínas. Hoje, ele registra imagens e vídeos — muitos capturados por drones — de construções abandonadas no Japão e no exterior.

Desde 2018, participa da Changing Ruins Exhibition, organizada pelo TODAYS GALLERY STUDIO, e publicou obras como Game Journey (Geijutsu Shinbunsha) e Horror Creators File Visual Disaster (Genkosha).

Uma de suas coleções mais marcantes é Paisagens Decadentes, que reúne imagens de ruínas no Japão e em Taiwan. Nela, destacam-se locais como as ruínas de Kuroshio-so, uma antiga pousada localizada na Ilha Awaji, na província de Hyogo, famosa por seus abajures ornamentais caídos, demolida há poucos anos; ou ainda uma enigmática fábrica de madeira abandonada em Taiwan.

O trabalho de Toshibo e de outros artistas que exploram o haikyo além da celebração da natureza sobre a arquitetura humana em ruína. Sua obra estabelece, para mim, um paradoxo: ao mostrar o desaparecimento do homem, reafirma sua presença. O rastro humano é valorizado por ser humano, não por ser rastro.

Essa sensibilidade revela uma questão que é, para mim, mais ampla: por que tratamos a ação humana como algo antinatural, ou essencialmente oposto à natureza? A separação entre o sintético e o natural, ou entre o natural e o sobrenatural, talvez seja uma construção arbitrária — e é justamente essa separação que o haikyo parece dissolver. Nas imagens dessas ruínas, o concreto e o musgo, o vidro quebrado e a luz do entardecer coexistem em harmonia silenciosa. Não há antagonismo, apenas continuidade.

E talvez seja aí que resida o fascínio: não no fim das coisas, mas no modo como elas continuam — silenciosas, esquecidas, mas ainda humanas.

Segue abaixo algumas fotos:

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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