Costuma-se dizer que, nas noites de sexta-feira, surge uma luz sobrenatural na pedra do Morro do Pico, em Fernando de Noronha.
Viajantes, pescadores e curiosos que se aproximam afirmam ver, sobre o pico, a figura de uma mulher branca, loira e muito bonita, às vezes nua, flutuando acima da rocha. Os moradores da ilha deram a essa aparição o nome de Alamoa.
Em Sob o Céu dos Trópicos, Olavo Dantas descreve seu “níveo corpo mal coberto pela coma loura que vai quase ao chão”. Segundo a tradição, o nome Alamoa deriva de “alemã”, em referência às mulheres holandesas que estiveram na ilha durante o período de ocupação.
Fernando de Noronha serviu como base de apoio logístico e centro de recuperação para tropas holandesas que lutavam no continente. Soldados doentes, acometidos por escorbuto e disenteria, eram enviados para a ilha para se recuperar. Quando os holandeses foram expulsos, em 1654, espalhou-se a ideia de que deixaram riquezas escondidas no local.
A lenda afirma que a Alamoa atua como guardiã desses tesouros. Contudo, quando um homem, movido pela ganância ou pela luxúria, entra na fenda iluminada da rocha em busca da mulher ou do ouro, a entidade revela sua verdadeira natureza. A abertura se fecha e a vítima desaparece para sempre.
Diferentemente das lendas de sereias, essa narrativa sugere que o monstro não é apenas a figura feminina, mas o próprio Morro do Pico. No folclore local, o morro não é apenas cenário, mas o corpo da entidade. A fenda que se abre com a luz funciona como uma boca.
A mulher loira e nua seria apenas uma isca luminosa, algo belo e irresistível criado para atrair a vítima para o interior da rocha, de onde não há saída.
Assim, a Alamoa deixa de ser apenas uma aparição sedutora e se torna um mito mais profundo e inquietante: a própria terra de Noronha como um ser vivo e faminto, que cobra um preço daqueles que tentam se apoderar do que está enterrado nela.