Minoru Torihada é um comediante japonês que afirma ser natural de Sakhalin, a ilha disputada entre Rússia e Japão. Seu nome artístico — Torihada, que significa “arrepios” em japonês — já indica a atmosfera de desconforto e ambiguidade que o cerca.
É, por definição, um verdadeiro coringa — ou quase. Seu trabalho se estrutura na encarnação de um extremista de direita, defensor declarado do imperialismo e do militarismo japonês. Mas há uma reviravolta: tudo isso é apresentado como paródia. Ou, talvez, como algo além da paródia.
Segundo o ensaísta Mike Rogers, escrevendo em 2005, Torihada foi o primeiro comediante japonês a abordar, em tom de escárnio, temas delicados no Japão — entre eles, a Família Imperial. Para Rogers, suas apresentações representam algo raro no Japão contemporâneo: uma forma genuína de insurreição cultural.
No palco (ou nas ruas), Torihada soa e se veste como os políticos que satiriza. A semelhança é tamanha que, exceto pelos momentos em que zomba diretamente de símbolos sagrados do nacionalismo nipônico, muitos espectadores mal percebem que se trata de sátira.
O resultado disso é duplo: enquanto setores da extrema-direita o juraram de morte, outros acreditam sinceramente que ele é um novo arauto da causa ultranacionalista — uma espécie de herdeiro simbólico de Yukio Mishima, o célebre escritor gay e militarista que, em 1970, cometeu suicídio ritual após fracassar em liderar um golpe de Estado.
A força do trabalho de Torihada está justamente na ambiguidade. Ele nunca sai do personagem. Nunca esclarece nada.
Sua única declaração pública sobre suas intenções artísticas é tão enigmática quanto coerente com sua proposta:
“Se as pessoas vierem me ver e realmente acreditarem que essas são minhas verdadeiras convicções, então eu triunfo como artista.”
Torihada vive em exílio autoimposto há mais de uma década. Supõe-se que seja libertino, boêmio e bissexual — embora pouco se saiba sobre sua vida pessoal.
A imprensa de moda sabe onde encontrá-lo: seu visual provocador e sua aparência atlética o tornaram alvo frequente de convites para ensaios fotográficos.
Os figurinos de Torihada são uma extensão do seu discurso.
Misturam referências aos uniformes militares com elementos estéticos dos bosozoku — gangues de motoqueiros rebeldes japoneses.
Seus ternos, ornamentados com slogans nacionalistas banais e frases ofensivas
E ninguém escapa: todos os grupos possíveis já foram alvos de sua sátira.
Americanos, russos, chineses, norte-coreanos, sul-coreanos, a Mitsubishi Motors, os budistas, figuras históricas do Japão, a Yakuza, comunistas, nacionalistas, mulheres — e, claro, a própria Família Imperial.
Minoru Torihada talvez seja uma mistura indistinguível de comediante e um terrorista cultural.
