Como o princípio de violência e incorporação que marca o mito de Rômulo e Remo reaparece na história de Roma, da guerra com os sabinos à institucionalização e assimilação do cristianismo no Império.
Em uma postagem anterior, intitulada “A Glória de Roma e a Maldição de Remo”, analisei o mito fundador de Roma e seu sentido simbólico, que parece condensar e até antecipar traços decisivos de sua identidade histórica, social e política.
Como expliquei ali, a narrativa da fundação começa com os gêmeos Rômulo e Remo, já marcados pela divisão e pela rivalidade. O conflito entre eles termina no assassinato de Remo, estabelecendo a violência como gesto inaugural da cidade.
Depois desse fratricídio, Roma permanece atravessada por tensões internas. Horácio, nos Epodos, chamou essa herança trágica de “maldição de Remo”, sugerindo que a violência original continuaria a se repetir na história romana.
É a partir desse ponto que gostaria de avançar: comentar o embate entre os romanos, seguidores de Rômulo e fundadores da nova cidade, e os sabinos, povos vizinhos que já habitavam ou circulavam naquela região.
A guerra entre romanos e sabinos ocupa um lugar central nas narrativas míticas sobre a fundação de Roma. Mais do que um simples confronto militar, o episódio funciona como uma explicação simbólica para a formação étnica, política e cultural da cidade nascente.
A principal fonte dessa tradição é Tito Lívio, sobretudo em sua obra Ab Urbe Condita. Outros autores, como Plutarco, também registraram versões do relato.
Segundo a tradição, depois que Rômulo fundou Roma, a nova cidade passou a atrair principalmente homens: fugitivos, exilados, aventureiros e escravizados libertos. Essa população masculina garantia força militar, mas criava um problema estrutural: sem mulheres, não haveria descendência nem continuidade política. A cidade corria o risco de desaparecer com o tempo.
Rômulo então enviou emissários às cidades vizinhas solicitando alianças matrimoniais. Os pedidos, porém, foram recusados. Os povos vizinhos desconfiavam daquela comunidade recente, instável e já marcada por um espírito guerreiro.
Diante da negativa, Rômulo organizou um festival religioso em honra ao deus Consus, protetor dos grãos, e convidou os povos da região, inclusive os sabinos. Durante as celebrações, os romanos sequestraram as mulheres sabinas presentes no evento.
Indignados, os sabinos declararam guerra. O conflito foi prolongado e marcado por batalhas intensas. Contudo, o aspecto mais significativo da narrativa está em seu desfecho.
As mulheres sabinas, já casadas com romanos e mães de filhos romanos, decidiram intervir. Em determinado momento, colocaram-se entre os dois exércitos e suplicaram pelo fim da guerra, afirmando que não queriam perder nem os pais nem os maridos.
A reconciliação foi selada com a união política dos dois povos. Tito Tácio, líder dos sabinos, passou a governar Roma conjuntamente com Rômulo por um período, integrando sabinos e romanos em uma única comunidade.
Do ponto de vista histórico, é impossível determinar até que ponto esse relato corresponde a fatos concretos. Para Mircea Eliade, citando o filólogo francês Georges Dumézil em sua obra A História das Ideias e das Crenças Religiosas, o episódio deve ser compreendido como uma historicização de antigos mitos indo-europeus. Em outras palavras, trata-se de um mito estruturante que foi reinterpretado como narrativa histórica.
Segundo Dumézil, a guerra entre romanos e sabinos apresenta uma simetria notável com um episódio central da mitologia escandinava: o conflito entre os Æsir e os Vanir.
Na tradição nórdica, os Æsir são deuses guerreiros, associados ao poder soberano e à força militar, liderados por figuras como Odin e Thor. Já os Vanir estão ligados à fertilidade, à prosperidade, à riqueza e à abundância. São duas ordens divinas distintas, com funções complementares.
A guerra entre esses dois grupos não termina com a destruição de um dos lados, mas com uma reconciliação e uma troca de reféns divinos. O desfecho não é a vitória absoluta, mas a integração estrutural das duas ordens em um mesmo sistema religioso.
Dumézil destaca que a estrutura do mito romano é análoga. De um lado está Rômulo, filho de Marte e protegido de Júpiter, à frente de um grupo de guerreiros fortes, porém pobres e privados de mulheres. Do outro lado estão Tito Tácio e os sabinos, associados à riqueza e à fecundidade, pois são eles que possuem as mulheres e, portanto, a possibilidade de continuidade.
Em ambos os casos, os dois partidos não são simplesmente inimigos, mas polos complementares. A guerra revela uma tensão estrutural entre força guerreira e potência fecunda, entre conquista e prosperidade.
E, assim como no conflito entre Æsir e Vanir, a guerra entre romanos e sabinos não se encerra com a aniquilação de um dos lados. Ela termina com uma conciliação que produz uma nova totalidade: a fusão das duas ordens em uma única comunidade política e simbólica.
É importante observar que a simetria entre o mito romano e os mitos escandinavos não anula a possibilidade de um núcleo histórico. A precisão histórica, nesse caso, não está nos detalhes narrativos, mas na dinâmica que o mito preserva.
Do relato mítico podemos extrair uma matéria histórica plausível: conflitos entre grupos tribais, alianças matrimoniais usadas como estratégia política, fusão de elites e integração de comunidades distintas. O mito não funciona como crônica factual dos acontecimentos. Ele condensa e organiza a memória estrutural de um processo histórico real.
Nem Mircea Eliade nem Georges Dumézil sustentavam que a presença de uma estrutura mítica invalida a dimensão histórica. Pelo contrário, para ambos, o mito é a forma simbólica por meio da qual uma realidade histórica profunda foi compreendida, estruturada e transmitida ao longo do tempo.
O próprio mito fundador de Roma é revelador nesse sentido, pois não disfarça a violência. Ele a assume como parte constitutiva da identidade da cidade.
Roma nasce do conflito, mas se consolida pela incorporação.
Conquista e assimilação tornam-se expressões complementares do mesmo princípio fundador.
Assim, a simetria com os mitos indo-europeus não reduz Roma a uma ficção literária. Ela sugere que certos processos históricos foram interpretados por meio de categorias míticas profundamente enraizadas na mentalidade indo-europeia. O mito não nega a história. Ele funciona como a gramática simbólica através da qual a história foi pensada e narrada.
A Cristianização
Podemos sustentar que a relação entre o cristianismo e Roma, especialmente no que se tornaria a Igreja Católica Romana, reproduz uma dinâmica semelhante àquela que observamos no mito fundador da cidade: violência inaugural, institucionalização e, por fim, assimilação.
O cristianismo nasce a partir de um evento traumático: a crucificação de Jesus Cristo sob autoridade do Império Romano. Poucas décadas depois, a tradição registra o martírio de São Pedro na própria Roma. Esse duplo acontecimento pode ser compreendido como uma espécie de violência fundadora. A fé cristã se estrutura, desde o início, sob o signo da perseguição e do testemunho sangrento.
Durante cerca de três séculos, as perseguições foram intermitentes, até que ocorre uma inflexão decisiva com Constantino I e o Édito de Milão, em 313, que concede liberdade de culto aos cristãos. Mais tarde, sob Teodósio I, o cristianismo torna-se religião oficial do Império. A partir desse momento, inicia-se a fase de institucionalização.
Os concílios ecumênicos definem a ortodoxia doutrinal, consolida-se uma hierarquia estável e forma-se um corpo jurídico que, séculos depois, será sistematizado no Código de Direito Canônico. A Igreja passa a organizar normativamente a fé e a exercer uma forma clara de soberania jurídica sobre sua própria comunidade.
Em seguida, ocorre um amplo processo de assimilação. A teologia cristã incorpora categorias da filosofia grega, especialmente de Aristóteles. Assimila também o direito romano e as estruturas administrativas imperiais. Não se trata de simples apropriação externa, mas de uma integração orgânica.
A síntese realizada por Tomás de Aquino é talvez o exemplo mais claro dessa convergência: razão filosófica grega, revelação cristã e forma jurídica romana articulam-se em um sistema coerente.
Sob uma perspectiva teológica católica, pode-se afirmar que a Providência atua na história por meio de estruturas culturais já existentes. Nesse sentido, a própria forma romana, com sua vocação jurídica e universal, poderia ser compreendida como preparação histórica para a universalidade institucional da Igreja.
Assim como Roma nasceu do conflito e se consolidou pela incorporação, o cristianismo emerge da violência, institucionaliza-se no interior do Império e, ao assimilá-lo, transforma-o por dentro.
