O Bodhisattva e o Paradoxo da Libertação Individual
O que talvez diferencie o budismo de outras religiões seja, antes de tudo, sua ênfase quase exclusiva na soteriologia e no pragmatismo. Para o budista, questões como a cosmogonia, a existência de um deus criador ou o fim do mundo não ocupam necessariamente o primeiro plano. O que importa, acima de tudo, é o despertar espiritual e a libertação definitiva do ciclo de sofrimento, tal como ocorre no jainismo e em determinadas vertentes do hinduísmo, que buscam o moksha.
Em suma, o budismo busca o nirvana.
À primeira vista, essa parece ser a única coisa que realmente importa. Talvez por isso eu interpretasse a iluminação como algo urgente, uma conquista que deveria ser buscada acima de qualquer outra coisa.
No entanto, percebi que o budismo, dependendo da escola que examinamos, estabelece uma distinção bastante clara entre urgência e necessidade. Nem tudo o que importa é necessariamente urgente.
É justamente nesse intervalo entre a consciência da iluminação e sua realização definitiva que se desenvolveu uma figura que considero particularmente interessante: o bodhisattva.
Nos estudos budistas, o bodhisattva é aquele que percorre o caminho da iluminação e assume o compromisso de permanecer no samsara, o ciclo de nascimento, morte e sofrimento, pelo tempo que for necessário para contribuir com a libertação de todos os seres. Em determinadas interpretações do budismo Mahayana, isso significa adiar a entrada no nirvana final para continuar ajudando os demais a alcançar o despertar.
A figura do bodhisattva é particularmente venerada no Mahayana e, nessa tradição, costuma ser apresentada como um ideal superior ao do arhat, figura central no budismo Theravada. O arhat é aquele que alcançou a libertação espiritual ao extinguir as impurezas mentais e superar o apego que o mantém preso ao ciclo de renascimentos. O bodhisattva, por sua vez, orienta sua prática para a libertação de todos os seres, e não apenas para a própria libertação.
Poderíamos argumentar que o Mahayana coloca o bodhisattva em uma posição superior por causa da compaixão e do autossacrifício, qualidades que, consideradas isoladamente, parecem evidentemente boas.
No entanto, essa interpretação levanta uma questão interessante. Se a finalidade do budismo é a libertação do sofrimento, até que ponto a compaixão e o autossacrifício seriam desejáveis caso implicassem a perpetuação desse mesmo sofrimento? Se ajudar os outros significasse apenas prolongar a própria permanência no sofrimento, teríamos motivos para considerar a via do arhat, tal como compreendida no Theravada, mais coerente com a finalidade última da prática budista.
Além disso, há um paradoxo aparente nessa discussão: o bodhisattva também almeja a iluminação completa. A questão, portanto, não é simplesmente se libertar ou não do sofrimento, mas o que significa estar verdadeiramente liberto e qual é a relação entre essa libertação e a dos demais seres.
Ao ler sobre a via do bodhisattva, comecei a perceber que sua superioridade em relação ao ideal do arhat parece ser menos uma avaliação de caráter do que uma consequência de determinadas premissas filosóficas do Mahayana.
O arhat, quando interpretado como alguém que busca o nirvana apenas para si, pode ser visto, nessa perspectiva, como alguém que ainda não superou completamente a ilusão do eu. Haveria nele um resquício de dualidade, uma separação sutil entre a própria libertação e o sofrimento do mundo.
Essa demarcação entre “minha paz” e “o caos do mundo” é interpretada por determinadas escolas do Mahayana como um vestígio de apego ao eu. Portanto, a iluminação do arhat, embora real e monumental, é considerada por essa tradição como incompleta em relação ao ideal do bodhisattva. Seria, por assim dizer, um descanso no caminho.
Nesse contexto, a compaixão e o autossacrifício do bodhisattva não estariam em desacordo com o budismo por implicarem sofrimento, mas justamente por não se reduzirem a uma obrigação moral. Eles seriam instrumentos de um processo de superação da própria ilusão do eu.
A compaixão do bodhisattva operaria, assim, menos como uma regra moral e mais como uma consequência lógica da iluminação.
Se a compaixão fosse apenas uma regra moral, ela dependeria do dever, do esforço e, frequentemente, da culpa. O indivíduo ajudaria os outros porque acredita que deve fazê-lo, mesmo quando isso contraria suas inclinações.
Na perspectiva do bodhisattva, porém, a compaixão não seria simplesmente uma escolha moral. Uma mente que compreendeu profundamente a ausência de um eu independente e a interdependência entre todos os seres não poderia continuar percebendo o sofrimento alheio como algo inteiramente exterior a si. A compaixão se tornaria tão natural quanto o fogo produzir calor ou a água molhar.
É nesse ponto que a via do bodhisattva me parece lidar melhor com a ideia de interdependência, o pratītyasamutpāda. Se a separação entre “eu” e “o outro” é uma ilusão, então a própria ideia de uma libertação estritamente individual se torna problemática. A iluminação deixa de ser uma conquista isolada e passa a envolver, necessariamente, a maneira como nos relacionamos com todos os demais seres.
Talvez seja essa a questão central: a compaixão do bodhisattva não seria uma virtude acrescentada à iluminação, como se primeiro nos libertássemos e depois decidíssemos ajudar os outros. Ela seria uma expressão da própria iluminação. Se a libertação implica reconhecer a interdependência de todas as coisas, a separação absoluta entre a minha libertação e a libertação dos demais perde o sentido.