As Malhas da Tarde de Maya Deren

Um pesadelo surrealista em que a casa, os objetos e a própria identidade se dissolvem em um labirinto de repetições.

Meshes of the Afternoon (conhecido no Brasil como Tramas do Entardecer ou Malhas da Tarde) é um curta-metragem experimental de 1943, dirigido e estrelado pela pioneira do cinema de vanguarda surrealista Maya Deren, em parceria com seu então marido, Alexander Hammid (Alexandr Hackenschmied).

Produzido com um orçamento modesto de 275 dólares, o filme tem cerca de 14 minutos de duração e é amplamente reconhecido como uma das obras mais influentes e emblemáticas da história do cinema experimental norte-americano.

A história acompanha uma mulher, interpretada por Maya Deren, que, ao retornar para casa, adormece em uma poltrona e mergulha em um profundo transe onírico. Nesse universo subjetivo, ela passa a perseguir uma figura misteriosa encapuzada, cujo rosto é substituído por um espelho.

A protagonista se vê presa em um ciclo de ações repetidas, cruza com suas próprias sósias e se depara com objetos cotidianos que assumem contornos bizarros.

O filme adota uma estrutura narrativa espiralada, marcada pela repetição e pela descontinuidade, que reproduz a lógica de um pesadelo.

A atmosfera é densa, claustrofóbica e carregada de suspense. Deren e Hammid filmaram com uma câmera Bolex de 16 mm, utilizando uma única residência em Hollywood como locação. A dupla explorou recursos que contribuíram para renovar a linguagem cinematográfica da época, como a câmera lenta, os enquadramentos oblíquos e geométricos, os cortes rápidos e as rupturas na continuidade do tempo e do espaço.

Achei particularmente interessante a maneira como o filme trabalha as sombras, que me remeteram ao expressionismo alemão, especialmente a Nosferatu, de F. W. Murnau. Mas o que mais me chamou a atenção foi a percepção do espaço, que parece se deformar progressivamente à medida que avançamos pelo caminho espiralado da narrativa. A casa deixa de ser um ambiente familiar e reconhecível para se transformar em um labirinto mental, no qual as relações obedecem a uma lógica própria, cada vez mais distante daquela que conhecemos na vida cotidiana.

Ao longo do filme, há também uma recorrência de objetos que parecem cumprir uma função narrativa: uma flor caída, uma chave que sai da boca de uma personagem, uma faca deixada sobre uma fatia de pão. Esses elementos reaparecem em diferentes contextos, reforçando a impressão de que estamos diante de uma experiência organizada pela lógica associativa dos sonhos, na qual objetos comuns perdem sua função habitual e passam a estabelecer relações inesperadas entre si.

Embora críticos frequentemente interpretem esses objetos a partir das teorias de Sigmund Freud e Carl Jung sobre o inconsciente, a identidade e a sexualidade, Maya Deren resistia a interpretações simbólicas rígidas. Para ela, os elementos do filme não precisavam corresponder a um código de significados ocultos. Sua importância estava também na função que desempenhavam dentro da obra e na experiência subjetiva que produziam no espectador.

Mais interessante, porém, do que os próprios objetos e os diferentes usos que assumem ao longo do filme é observar como a casa vai sendo progressivamente povoada por sósias da protagonista. A multiplicação de suas imagens parece sugerir uma espécie de saturação da própria identidade, como se a personagem estivesse se enchendo de si mesma. A casa já não abriga apenas uma mulher, mas diferentes versões dela, que se repetem, se cruzam e parecem escapar ao seu controle.

Essa multiplicação torna ainda mais perturbadora a estrutura circular do filme. A protagonista não parece conseguir sair de si mesma, nem encontrar um ponto de vista exterior a partir do qual possa compreender o que está acontecendo. Tudo retorna, mas nunca exatamente da mesma maneira. O familiar se torna estranho, os espaços perdem sua estabilidade e a identidade se fragmenta diante dos nossos olhos.

Meshes of the Afternoon constrói, assim, uma experiência cinematográfica que não depende de uma narrativa convencional para produzir sentido. Sua força está justamente na maneira como imagens, objetos, sombras e espaços se articulam para nos colocar dentro de uma experiência mental inquietante, em que a fronteira entre realidade, sonho e identidade se torna cada vez mais difícil de reconhecer.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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