Dream Pools, kenopsia e a arquitetura onírica da infância

Como a memória de férias, parques aquáticos e espaços recreativos se transforma em uma paisagem de isolamento, sonho e estranhamento

As chamadas “Dream Pools” são uma famosa série de arte digital em 3D, feita em Blender pelo artista nova-iorquino Jared Pike, que se tornou um fenômeno viral na internet. As imagens acabaram se tornando uma das principais referências para a estética dos espaços liminares e foram, inclusive, absorvidas pelo fenômeno das Backrooms, dando origem às famosas “poolrooms”. Também se tornaram uma das manifestações estéticas mais características do dreamcore, uma estética visual e surrealista da internet que recria a atmosfera e a lógica dos sonhos e pesadelos por meio de uma mistura de imagens nostálgicas e reconfortantes associadas à infância.

Obviamente, para quem não está imerso nas ondas estéticas da internet, essa quantidade de palavras pode parecer uma coleção de conceitos sem muito sentido (e talvez sejam).

No entanto, sempre me interessou entender por que essas imagens provocam uma sensação tão particular de apreensão ou maravilhamento e por que viralizam com tanta facilidade em redes sociais como Instagram e TikTok.

Mais especificamente, por que elas parecem chamar tanta atenção entre Millennials e membros da Geração Z?

Foi a partir dessas dúvidas que comecei a ler Marc Augé e a pesquisar o conceito de “não-lugares”, uma ideia que, para mim, ajuda a entender boa parte desse sentimento de maravilhamento e estranhamento tão característico de certas experiências geracionais.

Seriam as Dream Pools representações distorcidas de não-lugares, assim como as Backrooms, ou estamos diante de outro fenômeno?

Bem, vamos começar definindo melhor as “Dream Pools”.

As Dream Pools são imagens que retratam complexos aquáticos modernistas e geométricos que são, ao mesmo tempo, familiares e impossíveis. São espaços normalmente labirínticos, compostos por piscinas, corredores, escadas e plataformas que parecem se prolongar indefinidamente.

Logo de cara, já é possível identificar uma primeira relação com as Backrooms.

Um dos elementos mais comentados nas Dream Pools é a misteriosa fonte de luz das imagens, o estranho movimento da água, e o contraste entre a claridade suave e as sombras persistentes nas bordas.

É justamente essa iluminação, mais do que a própria estrutura das salas, que ajuda a criar uma atmosfera de desconforto enigmático.

Existe, porém, algo ainda mais importante compartilhado pelas Dream Pools e pelas Backrooms: o senso de esvaziamento, que é diferente do simples vazio, e a assepsia.

Os ambientes são revestidos por azulejos brancos ou azuis, milimetricamente uniformes e perfeitamente limpos. Não há sujeira, marcas de uso, objetos abandonados ou qualquer outro vestígio da presença humana.

Essa assepsia extrema produz uma sensação de anomalia ambiental.

Também existe nesses ambientes uma espécie de hiperbolização do anonimato. Nas Dream Pools, você não vê outros banhistas, não ouve conversas, não há música tocando ao fundo. Você vê apenas uma estrutura gigantesca de paredes revestidas de azulejos e água.

Há, portanto, um elemento de kenopsia nesses lugares, uma atmosfera fantasmagórica típica de um espaço que normalmente estaria cheio de pessoas, mas que agora se encontra completamente abandonado. É por isso que enfatizo a diferença entre vazio e esvaziamento: não estamos diante de um espaço que nasceu vazio, mas de um espaço que deveria estar ocupado e foi esvaziado.

Seu cérebro olha para aquela piscina e espera ouvir gritos de crianças, o eco da água, conversas, música, passos, talvez até sentir o cheiro do cloro.

Quando nada disso está presente, surge uma sensação de presentificação onírica. O espaço parece existir em um estado intermediário entre a memória e o sonho.

Boa parte dos elementos que produzem o desconforto nas Dream Pools também está presente nas Backrooms, mas existe uma diferença estética importante entre os dois fenômenos, além da óbvia mudança de cenário.

As Dream Pools trabalham com a distorção do espaço recreativo.

Nas Backrooms, nossa memória é diluída e distorcida pela estética da monotonia corporativa: escritórios vazios, divisórias baratas, carpetes, corredores intermináveis e luzes fluorescentes crepitantes.

Nas Dream Pools, essa mesma memória é diluída e distorcida a partir do seu oposto: as lembranças de férias, lazer e relaxamento, dos fins de semana em parques aquáticos e piscinas.

Por isso, elas parecem evocar algo mais próximo da infância ou, talvez, de uma fase ainda anterior à infância. A água pode assumir uma dimensão quase uterina, recriando simbolicamente o líquido amniótico e produzindo uma sensação de retorno a um espaço anterior à própria experiência consciente.

Talvez seja justamente isso que torne essas imagens ainda mais perturbadoras.

A piscina, que deveria ser um ambiente solar, seguro, divertido e essencialmente social, transforma-se em um labirinto silencioso e solitário.

Enquanto as Backrooms são espaços liminares construídos a partir do esvaziamento da vida adulta, as Dream Pools são espaços liminares construídos a partir do isolamento de um imaginário infanto-uterino.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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