Marc Augé nos mostra a estranha sensação de viver em um mundo onde tudo acontece o tempo todo, mas nada parece realmente acontecer.
Estou lendo Não-Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade, de Marc Augé.
Ainda não terminei e, embora o livro seja relativamente curto, confesso que está sendo uma leitura mais desafiadora do que eu imaginava.
Então, não tome este artigo como um esgotamento dos conceitos apresentados no livro e, muito menos, assuma que a minha interpretação seja ortodoxa.
Motivado pelo filme Backrooms, fui atrás desse livro por meio de uma indicação, já que estava, e na verdade ainda estou, curioso sobre o conceito de espaços liminares e sobre o conceito de “não-lugar”, que tem aqui a sua gênese.
No entanto, ao ler o livro de Marc Augé, me deparei com uma densa discussão epistemológica e filosófica sobre antropologia e história. Uma discussão que, percebo, está um pouco fora do meu alcance, embora eu ache que tenha conseguido entendê-la de maneira superficial.
Não vou me alongar muito sobre tudo o que ele disse, pois certamente não seria capaz de fazê-lo com a competência que gostaria. Além disso, depois de terminar o livro, pretendo lê-lo novamente, desde o começo, fazendo uma análise mais detida de todas as ideias e conceitos, apenas para me sentir mais seguro para comentar, com mais propriedade, as ideias do autor.
Minha intenção agora é apenas fazer um comentário geral sobre o livro (até onde li) e destrinchar alguns conceitos que achei interessantes.
Entre os conceitos que aparecem com frequência no livro, até onde li, e que achei particularmente interessantes estão as chamadas “figuras de excesso”.
As “figuras de excesso” são aquilo que, segundo o autor, define nossa época atual, a supermodernidade, e que ajudam a produzir os chamados “não-lugares”.
Elas são três. Temos a “densidade factual”, ou “superabundância factual”; a “superabundância espacial”; e a “individualização das referências”.
A “superabundância factual” diz respeito à “aceleração do tempo” e ao “excesso de acontecimentos”.
O mundo atual produz fatos históricos em uma velocidade maior do que a nossa capacidade de compreendê-los. Antigamente, um acontecimento podia levar décadas ou séculos para ser digerido pela sociedade e se transformar em “História”.
Hoje, devido à globalização e à velocidade dos meios de comunicação, tudo se torna “histórico” quase instantaneamente. Plataformas digitais, transmissões ao vivo e redes sociais registram, catalogam e comentam acontecimentos em tempo real. Criamos fatos, notícias, crises e inovações em um ritmo muito mais rápido do que nossa capacidade de dar sentido a eles.
Basicamente, o que o autor quer dizer é que nosso presente está saturado e que existe uma rápida “obsolescência” do presente.
Uma crise global que domina a atenção do mundo hoje pode ser completamente esquecida ou soterrada por outro acontecimento na semana seguinte, e nem precisa ser algo monumental.
É curioso como esse excesso de movimento pode causar uma certa sensação de imobilidade, de apatia por saturação ou de “estagnação frenética” (frenetic standstill).
A “superabundância espacial” diz respeito ao “encolhimento das distâncias físicas”, acompanhado pela “multiplicação dos lugares de trânsito”.
Devido aos avanços nos transportes e nas telecomunicações, o planeta ficou “menor” e mais acessível. Ao mesmo tempo, os espaços também se tornaram mais homogêneos.
A “superabundância espacial” reflete o paradoxo da sensação de estarmos em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum.
Como diria Clark, em Backrooms, para se referir àquelas salas infinitas: “It’s every place that ever was.”
Por fim, temos a “individualização das referências”, ou o “excesso de ego”.
Na modernidade clássica, as pessoas recorriam a grandes instituições coletivas para compreender seu papel na sociedade. Na supermodernidade, o indivíduo se torna seu próprio ponto de referência.
É interessante como essas três coisas se articulam.
Pense em você sentado na sala de espera de um aeroporto internacional moderníssimo (superabundância espacial), olhando para a tela do celular, que se atualiza a cada segundo com notícias urgentes de tragédias globais (superabundância factual), enquanto usa fones de ouvido com cancelamento de ruído e permanece isolado das centenas de pessoas ao seu redor, vivendo em seu próprio universo digital particular (individualização das referências).
Essas três coisas se combinam perfeitamente e se traduzem materialmente nos famosos não-lugares.
Você deve estar se perguntando: por que usar esse termo? Não-lugares. O que isso significa?
Marc Augé criou o termo “não-lugar” como uma provocação conceitual ao “lugar”.
Se a antropologia tradicionalmente estudou o lugar como espaço da cultura e das relações humanas, o mundo contemporâneo criou espaços que seriam, em muitos aspectos, o exato oposto disso.
Para diferenciar um do outro, Augé estabelece três critérios fundamentais.
Um lugar antropológico precisa ser identitário, relacional e histórico. Se o espaço não reúne essas características, ele pode ser compreendido como um não-lugar.
Os não-lugares, que, segundo o autor, incluem justamente aeroportos, shoppings, redes de fast-food e autoestradas, são desenhados para gerenciar um trânsito constante e indiferente de pessoas, mercadorias, informações etc.
São espaços focados no presente imediato, desprovidos de raízes, memórias ou relações duradouras. São lugares de impermanência.
O terror dos espaços liminares surge justamente dos vazios desses espaços quando eles perdem sua densidade factual, isto é, o movimento e as informações que justificam sua existência.
A única razão de existir de um não-lugar é gerenciar fluxos e consumo. Quando retiramos o movimento e as informações, o espaço entra em uma espécie de colapso existencial.
É interessante, e quase absurdo, pensar em um colapso existencial de um lugar.
Mais interessante ainda é perceber que o colapso existencial do lugar pode criar um colapso existencial em nós mesmos. E era justamente essa pista que eu estava procurando quando comecei o livro.
Enquanto a “densidade” está ativa, ou seja, enquanto os espaços estão ocupados, o não-lugar nos oferece o conforto do anonimato distraído.
Quando os espaços que deveriam estar ocupados estão vazios, sentimos apreensão.
E sentimos apreensão não pelo espaço em si, mas pela relação de espelho que esse espaço estabelece conosco.
Perceba como o homem contemporâneo está também acostumado ao transbordamento das três figuras de excesso de Augé. Podemos dizer que também somos como espaços liminares: de impermanência, de fluxo e de passagem.
Olhar para um espaço liminar é como olhar para nós mesmos no espelho.
Estamos sempre de passagem, cheios de conexões, mas vazios de permanência. Quando olhamos para um espaço liminar estamos vendo, talvez, a nossa existência despida de suas distrações.