“As Academias de Sião” é um conto de Machado de Assis, publicado em 1884 na coletânea Histórias sem Data.
Trata-se de uma obra bastante singular dentro do universo machadiano.
Quando a li pela primeira vez, fiquei espantado com três aspectos.
O primeiro foi perceber o quanto Machado se afastou de seu cenário habitual, o Rio de Janeiro do século XIX. As Academias de Sião se passa no Reino de Sião, atual Tailândia.
O segundo foi a linguagem do conto, que adota um tom de fábula exótica, impregnado de certo romantismo orientalista, algo bastante incomum em sua obra.
O terceiro e último aspecto que me surpreendeu foi a presença de um dilema que hoje poderíamos associar à disforia de gênero e às discussões que se desenvolvem em torno desse tema ao longo da narrativa.
No conto, o Reino de Sião é governado por Kalaphangko, um rei de comportamento extremamente feminino e dócil. O soberano possui uma concubina, Kinnara, descrita como uma mulher de alma masculina.
Para explicar por que existem homens com almas femininas e mulheres com almas masculinas, as quatro academias intelectuais de Sião, conselhos compostos por sábios, filósofos e cosmólogos, passam a debater a natureza sexuada da alma.
Três academias sustentam que a alma é neutra e não possui sexo.
A quarta, presidida por um sábio chamado Tong, propõe, entretanto, que a alma possui um gênero inerente, masculino ou feminino, e que as anomalias surgem quando ela é inserida no “corpo errado”.
A disputa teórica degenera em um conflito violento e sangrento, no qual a quarta academia aniquila as três rivais e passa a deter o monopólio da verdade.
Convencidos de que tanto Kinnara quanto Kalaphangko habitam corpos inadequados às suas almas, os sábios decidem submetê-los a um antigo feitiço de troca de corpos. Kinnara, agora no corpo do rei, assume o trono com mãos de ferro e expõe as contradições do reino.
Não consegui conter um discreto sorriso, não de deboche, mas de espanto e perplexidade, ao perceber que justamente Sião, a atual Tailândia, tenha servido de cenário imaginário para que Machado de Assis construísse uma narrativa sobre o descompasso entre corpo e identidade.
No entanto, há outro elemento particularmente interessante no conto, e este é profundamente machadiano: a sátira aos intelectuais.
Sei que esse não era o debate em pauta na época. Sei também que as teorias contemporâneas sobre gênero provavelmente soariam bastante estranhas a um autor como Machado de Assis. Ainda assim, não posso ignorar que leio esse conto em 2026, quando essas discussões ocupavam, até uns dois anos atras, um lugar central no debate público.
Normalmente, As Academias de Sião é apresentado como uma espécie de antecipação das discussões contemporâneas sobre gênero. Eu diria, porém, que Machado vai além. Mais do que antecipar o tema, ele antecipa a própria discussão sobre a discussão (ele faz uma metadiscussão). Sua sátira não recai sobre a questão do gênero em si, mas sobre o processo de hiperteorização que inevitavelmente se instala em torno dela. Em outras palavras, Machado parece prever não apenas o surgimento do debate, mas também o seu esgotamento.
O ápice dessa ironia ocorre quando a nova governante decide consultar os sábios da academia vitoriosa. Ao perguntar reservadamente a cada acadêmico o que pensa de Tong, todos respondem, de forma unânime, que ele é um completo ignorante. Quando interroga o próprio Tong, este admite considerar todos os demais igualmente estúpidos.
Machado expõe, assim, o corporativismo acadêmico: reunidos, os intelectuais proclamam-se a “claridade do mundo”; individualmente, porém, alimentam profundo desprezo pela inteligência uns dos outros.
Antonio Candido, em Literatura e Sociedade, observa que Machado de Assis satiriza a “embriaguez da esquematização excessiva” e a “tendência de tudo explicar”.
Antes da disputa entre as academias, o Reino de Sião vivia em paz sob o governo de Kalaphangko. Embora sua personalidade fosse apresentada como uma espécie de anomalia, essa característica era plenamente integrada à vida do reino, feita de “danças, comédias e cantigas”.
A paz é rompida quando as academias decidem investigar a “causa” do fenômeno e dividir a sociedade em “opiniões”, numa tentativa de encontrar soluções epistemológicas para algo que, ao que tudo indica, jamais exigira solução alguma.
A diversidade, ou mesmo a excentricidade de Kalaphangko, não produzia crise porque ainda não havia sido mediada pelo discurso teórico. O conflito nasce no instante em que a academia decide que a experiência vivida precisa ser convertida em objeto de teoria.
Foi justamente a tentativa de oficializar uma tese sobre aquele estado de coisas que dividiu o reino.
Essa necessidade compulsiva de enquadrar a vida em esquemas explicativos rígidos, essa obsessão por classificar, catalogar e teorizar tudo, é característica dos espíritos positivistas, darwinistas e deterministas da época, alvos recorrentes da ironia machadiana.
O conto acaba formulando uma crítica profunda aos intelectuais belicosos, capazes de consumir enorme quantidade de energia em discursos grandiloquentes sobre questões tão abstratas quanto o sexo de uma alma.
Sob essa perspectiva, o debate sobre gênero, quando capturado pela compulsão classificatória da academia, deixa de acolher a complexidade das subjetividades e passa a aprisionar os indivíduos em categorias taxonômicas rígidas, produzindo um esgotamento decorrente do excesso de vigilância conceitual e discursiva.
No fim, Machado ridiculariza a inclinação do intelectual para atribuir mais importância à palavra sobre a coisa do que à própria coisa.