A Espera (Keum Suk Gendry-Kim): Capítulo 5 – Momentos Felizes, Apesar de Tudo

O quinto capítulo, intitulado “Momentos felizes, apesar de tudo”, apresenta recordações da vida de Gwija nos primeiros anos de seu casamento, incluindo o nascimento de seu irmão mais velho e algumas passagens de sua infância. São lembranças de uma vida simples, marcada por pequenos acontecimentos cotidianos e momentos de felicidade, como sugere o próprio título.

Entretanto, a segunda metade do capítulo muda completamente de tom. A narrativa passa a acompanhar o deslocamento forçado de diversas famílias em consequência da Guerra da Coreia. O que chama a atenção é a maneira como essas pessoas parecem completamente alheias às disputas políticas que determinaram seu destino. Elas não compreendem plenamente o que está acontecendo, não conhecem os interesses envolvidos no conflito e, muitas vezes, sequer entendem a própria divisão entre Norte e Sul. De repente, precisam abandonar suas casas, suas plantações e tudo aquilo que construíram, simplesmente porque a guerra chegou até elas.

É importante lembrar que a Guerra da Coreia não foi apenas um confronto militar entre dois países que já existiam separadamente. Foi também uma guerra civil, profundamente atravessada pela disputa entre diferentes projetos de sociedade e pela intervenção de potências estrangeiras. A partir de 1950, quando as tropas norte-coreanas atravessaram o paralelo 38 e avançaram sobre o Sul, a península se transformou em um enorme campo de batalha. A intervenção das forças lideradas pelos Estados Unidos, sob a bandeira das Nações Unidas, seguida pela entrada da China no conflito, fez com que as linhas de combate se deslocassem repetidamente pelo território.

Refugiados atravessam o rio Taedong para fugir de Pyongyang durante a Guerra da Coreia, em 1950.
Refugiados atravessam o rio Taedong para fugir de Pyongyang durante a Guerra da Coreia, em 1950. Foto: US Army. Public domain, via Wikimedia Commons.

Para a população civil, isso significava que a segurança era sempre provisória. Cidades eram ocupadas e retomadas, estradas se transformavam em rotas de fuga e comunidades inteiras precisavam abandonar suas casas diante da aproximação dos exércitos. Famílias se dispersavam durante as retiradas, crianças perdiam seus pais no meio das multidões e pessoas que haviam passado a vida inteira em determinada região eram obrigadas a caminhar centenas de quilômetros em busca de algum lugar seguro. Em muitos casos, a separação não acontecia por uma decisão política consciente, mas por um acidente, uma mudança repentina na direção da fuga ou simplesmente pela impossibilidade de todos caminharem juntos.

Existe uma ironia particularmente cruel nessa história. A divisão da península, que inicialmente havia sido estabelecida como uma medida administrativa e militar, acabou se transformando em uma fronteira política, ideológica e, posteriormente, praticamente intransponível. Pessoas que compartilhavam a mesma língua, os mesmos costumes, as mesmas tradições e, muitas vezes, a mesma história familiar passaram a viver sob governos diferentes. Com o fim dos combates, em julho de 1953, o armistício consolidou uma nova linha de demarcação, mas não estabeleceu a paz definitiva nem resolveu o problema das famílias separadas. O que deveria ter sido uma divisão temporária tornou-se uma das fronteiras mais militarizadas do mundo.

A narrativa de Keum Suk ganha uma dimensão particularmente dolorosa nesse ponto. As pessoas retratadas não parecem interessadas em defender o capitalismo ou o comunismo, tampouco em participar das disputas geopolíticas que envolvem seus governantes. Elas querem continuar vivendo em suas casas, cuidar de suas plantações, criar seus filhos e permanecer próximas de seus familiares. São necessidades bastante elementares, que acabam esmagadas por projetos políticos muito maiores do que a própria existência dessas pessoas.

Há algo profundamente desumano na maneira como as ideologias podem transformar diferenças de visão de mundo em fronteiras concretas entre indivíduos. Uma população que compartilha uma identidade cultural e histórica passa a ser artificialmente separada por Estados que reivindicam para si o direito de representar projetos políticos incompatíveis. E, quando essa separação se consolida, são as pessoas comuns que precisam aprender a conviver com suas consequências. O irmão que não pode mais visitar a irmã, a mãe que envelhece sem notícias do filho, os amigos que nunca mais conseguem retornar à mesma cidade.

Não quero dizer que as diferenças ideológicas sejam irrelevantes ou que os conflitos políticos não tenham suas próprias causas e complexidades. A questão é perceber como essas abstrações, quando transformadas em projetos de poder, podem adquirir uma força destrutiva sobre a vida concreta. Os governantes discutem sistemas econômicos, soberania nacional e modelos de sociedade, enquanto indivíduos que jamais participaram dessas decisões precisam pagar o preço de suas consequências.

Acho especialmente significativo que Keum Suk apresente essas lembranças a partir da perspectiva de pessoas que não necessariamente compreendiam a dimensão histórica dos acontecimentos que estavam vivendo. Existe uma distância enorme entre a maneira como os livros de história registram guerras e revoluções e a maneira como elas são experimentadas por quem está no meio delas. Para os primeiros, existem datas, tratados, movimentos militares e mudanças de regime. Para os segundos, existem casas abandonadas, parentes desaparecidos, refeições interrompidas e uma vida inteira que pode mudar de direção em questão de horas.

É essa dimensão humana que a autora consegue recuperar. Antes de serem cidadãos de um Estado ou representantes de uma determinada ideologia, aquelas pessoas eram simplesmente coreanas. Tinham famílias, histórias e projetos de vida que não deveriam ter sido determinados por uma fronteira política. E talvez seja justamente essa a maior tragédia apresentada em A Espera: a de pessoas que passaram a vida inteira esperando por algo tão elementar quanto a possibilidade de voltar a estar junto de quem amam.


Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)

← Capítulo anterior: Tempos de Caos | Próximo capítulo: 1950: Guerra →

Comente aqui

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter Semanal

Categorias

Asssuntos

Posts

Último Episódio

Quem faz

O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

A Inteligência Intuitiva do Homem Comum
Ortega y Gasset disse que sempre que nos colocamos teoreticamente...
O período Andedeluviano, o Deus do homem e a fé de Abraão
Um dos períodos mais fascinantes da história humana — ou,...
Os ritos funerários e a transcendência
É um consenso científico que o dia do homem paleolítico...
A obsessão vazia com a originalidade
Nenhuma tradição precisa ser absolutamente original para criar uma relação...
Rolar para cima