A Espera (Keum Suk Gendry-Kim): Capítulo 4 – Tempos de Caos

No quarto capítulo, intitulado “Tempos de Caos”, continuamos a acompanhar as lembranças da juventude de Gwija, agora em um dos períodos mais turbulentos da história coreana: os últimos dias da ocupação japonesa e o início da presença soviética no norte da península.

Desde 1910, a Coreia estava sob domínio colonial japonês. Durante esse período, a população sofreu com a repressão política, a exploração econômica, a imposição cultural e diversas tentativas de apagamento da identidade nacional coreana. O uso da língua japonesa foi incentivado em detrimento do coreano, enquanto a população era submetida a políticas de assimilação e exploração do trabalho. Nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, milhares de coreanos também foram mobilizados para trabalhar em condições precárias ou servir aos interesses militares japoneses.

A situação começou a mudar em agosto de 1945, quando a União Soviética declarou guerra ao Japão e iniciou uma ofensiva militar na região da Manchúria e no norte da Coreia. Poucos dias depois, em 15 de agosto, o imperador Hirohito anunciou a rendição japonesa. Para os coreanos, aquele momento representava o fim de 35 anos de domínio colonial e a possibilidade de finalmente recuperar sua soberania. Havia um sentimento genuíno de alegria e esperança, acompanhado pelo desejo de reconstruir as instituições nacionais, recuperar a identidade cultural e estabelecer um governo independente.

Multidão em frente à Estação de Seul em 15 de agosto de 1945, dia da rendição japonesa.
Multidão em frente à Estação de Seul em 15 de agosto de 1945, dia da rendição japonesa. Foto: 原典不詳. Public domain, via Wikimedia Commons.

Entretanto, a libertação não significou uma independência imediata. Em um dos primeiros movimentos da disputa geopolítica que daria origem à Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética estabeleceram zonas distintas de ocupação na península, utilizando o paralelo 38 como linha de divisão. Os soviéticos ficaram responsáveis pelo desarmamento das tropas japonesas ao norte, enquanto os americanos assumiram essa função ao sul. O que inicialmente deveria ser uma divisão administrativa e militar temporária acabaria se transformando em uma fronteira política cada vez mais difícil de atravessar.

A chegada do Exército Vermelho foi inicialmente recebida por parte da população como a chegada de uma força libertadora. Entretanto, a presença soviética logo revelou outras intenções. Sob a administração militar da União Soviética, começou a reorganização política e econômica do Norte, com o fortalecimento de organizações comunistas, a ascensão de Kim Il-sung e a progressiva marginalização de grupos políticos considerados adversários do novo projeto de Estado. A promessa de autodeterminação coreana começava, assim, a ser subordinada aos interesses de uma nova potência estrangeira.

O cenário também era complicado no Sul, onde os Estados Unidos estabeleceram sua própria administração militar e passaram a apoiar forças políticas alinhadas aos seus interesses. A disputa entre os dois blocos, somada às divergências internas entre nacionalistas, comunistas e outros movimentos políticos coreanos, tornou cada vez mais difícil a construção de um governo unificado. Em 1948, surgiriam dois Estados distintos: a República da Coreia, ao Sul, e a República Popular Democrática da Coreia, ao Norte.

É justamente nesse ambiente de expectativas frustradas que se desenvolve o quarto capítulo. Existe uma alegria genuína pelo fim da tirania japonesa, mas ela vem acompanhada de uma percepção cada vez mais desconfortável de que a liberdade conquistada não seria tão simples quanto parecia. A Coreia mal havia conseguido se livrar de um regime de dominação estrangeira e já se encontrava submetida a uma nova disputa pelo controle de seu território e de seu futuro político.

Gosto da maneira como Keum Suk Gendry-Kim apresenta esse período sem transformar a narrativa em uma defesa automática de qualquer um dos lados. A autora não precisa recorrer a discursos ideológicos para mostrar a contradição daquele momento histórico. O que deveria ser uma celebração da independência acaba se convertendo em mais um período de incerteza para a população. Por trás das disputas entre potências, projetos políticos e ideologias, continuam existindo pessoas comuns que apenas desejam viver em seu próprio país, preservar sua cultura e decidir o próprio destino.


Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)

← Capítulo anterior: Minha Terra ao Norte | Próximo capítulo: Momentos Felizes, Apesar de Tudo →

Comente aqui

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter Semanal

Categorias

Asssuntos

Posts

Último Episódio

Quem faz

O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

Indra e a multivalência dos mitos de criação
Indra é o deus do céu no Hinduísmo, filho de...
O dono sem rosto: Sérgio Buarque de Holanda, o capitalismo e a dissolução das relações diretas
Uma leitura weberiana sobre o distanciamento entre empregadores e empregados...
Jazz no Japão: A História das Jazz Kissa e o Legado do Shinjuku Pit Inn
A música ocidental chegou ao Japão durante a Restauração Meiji,...
Uma análise de Heather Manson em Silent Hill 3 e o conceito de Final Girl
No reino do horror, a "final girl" se destaca como...
Rolar para cima