A Espera (Keum Suk Gendry-Kim): Capítulo 7 – Rumo ao Sul

No sétimo capítulo, intitulado “Rumo ao Sul”, acompanhamos Gwija durante sua jornada como refugiada, distante do marido e do filho e carregando consigo apenas a pequena Jina. Apesar da situação desesperadora, ela continua alimentando a esperança de reencontrá-los. É doloroso observar como, em meio ao deslocamento de milhares de pessoas, a separação de familiares pode acontecer de maneira quase banal. Basta um instante de distração, um breve afastamento ou uma mudança no movimento da multidão para que alguém desapareça de vista.

A partir daí, encontrar essa pessoa se torna uma tarefa praticamente impossível. Os refugiados estão exaustos, não dispõem de recursos e precisam continuar caminhando. Não há tempo nem condições para interromper a fuga e iniciar uma busca. A perda acontece de maneira abrupta, mas suas consequências se prolongam indefinidamente. Para quem fica, resta apenas seguir adiante e alimentar a esperança de que, em algum momento, o reencontro ainda seja possível.

Essa situação revela o estado de sobrevivência extrema em que essas pessoas se encontram. O corpo está submetido ao cansaço, à fome e ao esforço contínuo de caminhar, enquanto a mente precisa se concentrar nas necessidades mais imediatas. Mesmo os vínculos familiares, que em circunstâncias normais seriam prioridade absoluta, acabam vulneráveis à desorganização e ao caos da fuga. Não se trata de falta de afeto ou de indiferença, mas da impossibilidade concreta de fazer qualquer coisa além de continuar vivo.

O capítulo também mostra como os refugiados se aproximam cada vez mais das zonas de combate. Durante a noite, rajadas de tiros podem ser ouvidas à distância, lembrando que a guerra continua avançando ao redor deles. A fuga, portanto, não representa necessariamente uma saída do perigo. Mesmo quando conseguem se afastar de uma região, os refugiados permanecem expostos à possibilidade de encontrar novas tropas, novos confrontos e outras situações de violência. A cada etapa da jornada, a sensação de segurança parece mais distante.

Fila de refugiados caminha para o sul pela neve perto de Gangneung, em 1951.
Fila de refugiados caminha para o sul pela neve perto de Gangneung, em 1951. Foto: Cpl. Walter Calmus. (Army). Public domain, via Wikimedia Commons.

Gosto de como esse capítulo reforça uma das ideias centrais de A Espera: em uma guerra, a separação de uma família não precisa acontecer por meio de uma decisão definitiva ou de um acontecimento extraordinário. Às vezes, basta um instante de desatenção em meio a uma multidão em fuga. E, quando as condições materiais impedem qualquer tentativa de recuperar o contato, esse instante pode se transformar em décadas de espera. Para Gwija, continuar caminhando significa tentar sobreviver, mas também preservar a possibilidade de um dia voltar a encontrar aqueles que ficaram para trás.


Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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