O Enfermeiro, de Machado de Assis

Cena do curta O Enfermeiro (1998): Procópio serve a sopa ao Coronel Felisberto na mesa de jantar

O Enfermeiro é um conto de Machado de Assis, originalmente publicado em 1884 na Gazeta de Notícias, sob o título “Cousas Íntimas”. Posteriormente, foi incluído no livro Várias Histórias, de 1896.

O conto foi adaptado para o cinema em um curta-metragem homônimo de 1998, dirigido por Mauro Farias e estrelado por grandes nomes do teatro brasileiro, como Paulo Autran e Matheus Nachtergaele.

A história se passa em 1860 e é narrada em primeira pessoa por Procópio José Gomes Valongo, que, em seu leito de morte, faz uma espécie de confissão tardia ao leitor.

Procópio é um copista pobre de Niterói que aceita uma proposta de trabalho no interior: cuidar do Coronel Felisberto, um idoso muito rico, gravemente doente e conhecido pelo temperamento insuportável e abusivo, que já havia afugentado todos os enfermeiros anteriores.

A rotina de Procópio se transforma em um verdadeiro inferno de humilhações, injúrias e agressões físicas. Ele pensa em desistir várias vezes, mas acaba sempre cedendo aos pedidos de desculpas do coronel e à promessa velada de uma compensação.

Certa noite, em 24 de agosto de 1860, durante um acesso de fúria, o coronel atira um prato de mingau e, em seguida, uma moringa de água contra Procópio, ferindo-o.

Tomado pela dor e pelo descontrole, Procópio reage e estrangula o coronel até a morte.

No mesmo instante, um aneurisma do idoso se rompe.

Apavorado, Procópio disfarça as marcas deixadas em seu pescoço e simula uma morte natural. Para sua surpresa, descobre que o testamento do coronel o nomeia herdeiro universal de toda a fortuna.

O verdadeiro foco de Machado de Assis, porém, começa depois do crime. O autor passa a retratar o processo de acomodação da consciência e de flexibilização moral de Procópio, que encontra maneiras cada vez mais elaboradas de justificar seu ato terrível.

Inicialmente, ele sente um remorso profundo, que tenta aliviar mandando rezar missas e distribuindo esmolas. Depois, ao receber a fortuna e ouvir os elogios da sociedade, que o enxerga como um “anjo de dedicação” por ter cuidado de um “velho terrível”, começa a racionalizar o crime.

Com o tempo, convence a si mesmo de que a morte foi uma fatalidade, um ato de legítima defesa ou até mesmo um “favor” prestado à sociedade.

A culpa desaparece por completo, enquanto os elogios reforçam sua imagem de homem virtuoso e a herança parece confirmar que, de alguma maneira, foi recompensado por suas ações.

Percebi uma certa similaridade entre este conto e Crime e Castigo, romance de Fiódor Dostoiévski publicado em 1866.

No entanto, é justamente ao observar essas semelhanças que conseguimos destacar as diferenças. A matéria-prima de Machado de Assis é a ironia e o distanciamento cético, enquanto Dostoiévski mergulha no trágico e na angústia existencial.

No romance russo, o jovem Raskólnikov assassina uma velha agiota, mesquinha e avarenta. Ele tenta justificar racionalmente o crime, acreditando ser um homem extraordinário, situado acima da moral comum. No entanto, acaba esmagado por uma culpa febril e delirante, que o conduz à redenção espiritual pelo castigo.

Procópio também mata um idoso insuportável e abusivo e, inicialmente, experimenta um sentimento de culpa semelhante. Ao contrário do personagem russo, porém, sua consciência encontra maneiras de se acomodar perfeitamente ao crime.

No fim da vida, ao refletir sobre sua trajetória, Procópio subverte uma passagem bíblica para criar seu próprio lema: “Bem-aventurados os que possuem, porque eles serão consolados”.

Embora eu possa incorrer em generalizações injustas, acredito que seja interessante estabelecer alguns paralelos entre a índole dos protagonistas e certos traços das sociedades brasileira e russa.

O crime de Raskólnikov é ideológico. Ele mata para testar uma teoria sobre sua própria superioridade existencial. O crime de Procópio, por outro lado, é impulsivo e reativo. É o crime do “homem cordial“, no sentido empregado por Sérgio Buarque de Holanda: aquele que age movido pelas emoções e pelas relações pessoais, em detrimento das formalidades e das convenções impessoais. Procópio mata num ímpeto de fúria, depois de ser agredido pelo coronel, e só posteriormente começa a construir justificativas para o próprio ato.

A reação dos dois personagens também é bastante distinta. A culpa de Raskólnikov é abrasiva e devastadora. Em Procópio, o remorso inicial é rapidamente sufocado por justificativas convenientes.

Em Dostoiévski, existe a possibilidade de redenção pelo castigo. Em Machado, encontramos algo bastante diferente: uma espécie de absolvição social que acaba aliviando o sofrimento moral do protagonista.

Acho interessante colocar as duas obras em perspectiva, pois, a meu ver, elas espelham, cada uma à sua maneira, as crises civilizacionais de seus respectivos países.

A rapidez com que Procópio acomoda a própria culpa talvez represente o ápice de uma espécie de “jeitinho” moral.

Enquanto a literatura russa frequentemente busca o absoluto, a redenção e o sentido último da existência por meio do sofrimento e do martírio, a literatura machadiana parece diagnosticar uma sociedade brasileira mestre na arte da conciliação e do autoengano, na qual até mesmo os conflitos mais graves podem ser dissolvidos pela conveniência do cotidiano.

No entanto, nem tudo é catastrófico. Sou brasileiro e preciso entender o que está por trás dessa nossa tendência e, a partir dessa compreensão, identificar o que podemos melhorar. Como rejeito a ideia de que qualquer nação seja inerentemente boa ou má, vou tentar analisar aqui as vantagens existenciais de certos traços do perfil brasileiro em relação ao russo, já que o movimento contrário foi explorado nos parágrafos anteriores.

Acredito que esse exercício nos permite ponderar com mais justiça os prós e os contras da nossa sociedade, adotando uma perspectiva realista, distante tanto do ufanismo romântico quanto do catastrofismo infantil daqueles que repetem como um mantra que “nada nunca dá certo no Brasil”, ignorando solenemente tudo aquilo que já funcionou por aqui e que outras nações chegam a invejar.

A tendência à flexibilidade garantiu ao Brasil algumas vantagens estruturais importantes, especialmente quando comparada ao histórico de tragédias e radicalismos da sociedade russa.

Uma das grandes virtudes do perfil conciliador brasileiro é sua capacidade de amortecer conflitos potencialmente catastróficos. Isso contribuiu para a formação de uma sociedade com considerável plasticidade, menor propensão ao radicalismo ideológico destrutivo e uma inclinação relativamente acentuada à convivência entre diferenças.

Enquanto a busca por “absolutos” na história russa frequentemente esteve associada ao fanatismo, às purgas, às revoluções sangrentas e aos regimes totalitários, o pragmatismo flexível brasileiro funcionou, em diferentes momentos, como um mecanismo de contenção de conflitos ideológicos extremos.

No Brasil, mesmo grandes transformações políticas, como a Independência, a Abolição da Escravidão e a Proclamação da República, foram conduzidas predominantemente por meio de pactos, articulações políticas e conciliações de bastidores, ainda que isso não tenha significado a ausência de violência ou de conflitos sociais.

O brasileiro médio, operando na chave da cordialidade, tende a resistir ao sacrifício pessoal ou coletivo em nome de uma “ideologia pura”. Em geral, prefere-se o acordo imperfeito ao confronto absoluto.

A cordialidade, ao colocar os vínculos afetivos e a proximidade pessoal em posição de destaque nas relações sociais, também contribuiu para a construção de uma identidade nacional profundamente sincrética e maleável. Diferentes fluxos migratórios, religiões e matrizes culturais foram incorporados e ressignificados, criando uma sociedade marcada por intensas trocas culturais e pela convivência entre tradições distintas.

Se Raskólnikov é esmagado por uma culpa febril que ameaça paralisar sua existência, Procópio demonstra uma assustadora, porém funcional, capacidade de sobrevivência psíquica. O ceticismo e a disposição para relativizar os absolutos podem funcionar como mecanismos de defesa contra o desespero existencial e nos preservar do niilismo.

Nesse sentido, o brasileiro desenvolveu uma espécie de inteligência prática voltada ao “dar um jeito” e seguir adiante, em vez de se deixar consumir pelo peso da tragédia.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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