A Desejada das Gentes é um conto de Machado de Assis publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 15 de julho de 1886, e posteriormente integrado à célebre coletânea Várias Histórias.
O conto se estrutura inteiramente na forma de um diálogo.
Dois homens conversam na rua quando um deles, conhecido como Conselheiro, assume o papel de narrador memorialista. Durante a conversa, ele recorda seu amor do passado, Quintília, uma mulher rica, deslumbrante e cobiçada por todos na sociedade carioca da década de 1850.
Apesar de ser alvo do desejo de inúmeros pretendentes, incluindo o próprio Conselheiro e seu amigo João Nóbrega, Quintília mantém-se distante e recusa firmemente qualquer proposta de casamento. Ela aceita cultivar apenas uma relação de profunda amizade intelectual com o Conselheiro, rejeitando qualquer aproximação romântica ou contato físico.
O desfecho ganha contornos melancólicos e trágicos. Quintília adoece gravemente, vítima de uma enfermidade na medula, e aceita se casar com o Conselheiro em seu leito de morte. O matrimônio ocorre em 18 de abril de 1859. Dois dias depois, em 20 de abril, ela falece, permanecendo intocada.
O interessante nesse conto é que, no final, ele flerta com as teorias científicas da época. O narrador sugere uma explicação “fisiológica” para o comportamento de Quintília.
No entanto, é muito provável que Machado estivesse ironizando essas teorias, e não endossando-as.
A ironia talvez esteja tanto na busca por uma “explicação cientificista” para a simples falta de interesse romântico de Quintília pelo Conselheiro quanto no próprio tom pomposo do narrador, que parece querer embelezar o passado e esconder seu evidente desconforto e sua frustração.
Ou talvez tudo isso seja apenas uma tentativa minha de atravessar o conto com as minhas próprias opiniões, já que nada disso fica exatamente claro.
De qualquer forma, minhas suposições encontram fundamento na própria obra do autor. Machado de Assis frequentemente zombava da pretensão humana de acreditar que a ciência seria capaz de catalogar e explicar todos os mistérios da alma e do desejo. Nesse sentido, o cientificismo da época funciona, na voz do Conselheiro, como uma espécie de muleta para seu ego masculino ferido.
Acho que o mais seguro que podemos dizer sobre o conto é que ele toca no tema da angústia universal daquilo que hoje se convencionou chamar de friendzone.
Quintília deixa claro que ama o Conselheiro, mas seu afeto é de natureza intelectual. Para um homem apaixonado, isso é insuficiente.
No entanto, Quintília se compadece dele. Concede-lhe o título de marido, mesmo quando já não há possibilidade de consumação do casamento. O Conselheiro conquista, assim, o status social de esposo sem jamais ter sido efetivamente seu companheiro. O próprio narrador chega a interpretar esse desfecho como uma espécie de prêmio de consolação.
Ao longo do conto, percebemos que o Conselheiro era, de fato, apaixonado por Quintília. Mas seu sentimento também era alimentado pela competição com os outros pretendentes. Não bastava desejá-la: havia também o desejo de ser aquele que conseguiria conquistá-la.
Embora Quintília o tenha rejeitado romântica e fisicamente durante toda a vida, o Conselheiro se apega ao fato de ter sido o escolhido para o ato final. No leito de morte, ela aceitou se casar com ele, e com mais ninguém.
Para a sociedade e para o amigo que o escuta, ele apresenta esse casamento de apenas dois dias como uma vitória definitiva sobre todos os outros pretendentes da corte.
A situação é claramente deprimente. O Conselheiro tenta se convencer, embelezando uma não história de amor que viveu, de que saiu vitorioso. Parece querer vender a ideia de que seu amor foi superior e transcendental justamente porque não foi contaminado pela rotina, pelo desgaste da vida conjugal ou pela crueza do sexo.
Em sua cabeça, ou ao menos na narrativa que constrói para os outros, ele viveu o amor mais puro e poético possível, um amor digno dos heróis românticos.
A fala final do Conselheiro é marcada por um tom de superioridade intelectual e resignação filosófica. Ele termina a história não como um homem derrotado pelo desinteresse de uma mulher, mas como um sábio que teria compreendido um grande mistério da natureza.
No fim, o que podemos dizer é que não sobrou nada para o betinha.