Roger Penrose, na conclusão de seu livro A Mente Nova do Imperador, adota um “ponto de vista infantil”, segundo suas próprias palavras.
Ele retoma o cenário dos vícios do debate público atual e também dos círculos filosóficos, que insistem em partir de premissas equivocadas. A mais notável, para ele, neste livro, é a comparação entre o pensamento e o funcionamento de um computador, a ideia de que a “noção existencial” pode ser reproduzida na mera execução de um algoritmo e que a mente pode ser entendida como um cálculo computacional complexo.
Para Penrose, todo o debate e todas as conclusões a respeito da inteligência artificial são falhos devido a esse ponto de partida errado.
A mente não funciona como um computador, embora muito do que está de fato envolvido na atividade mental possa ser explicado dessa forma.
Esse é o tipo de obviedade que, segundo Penrose, uma criança pode perceber. As crianças notam coisas óbvias que, ao crescerem, se tornam obscuras para os adultos.
Para Penrose, as crianças não têm receio de postular questões básicas, que nós, adultos, sentimos vergonha de perguntar. O que acontece com nossos fluxos de consciência após a morte? Onde estávamos antes de nascer? Por que estamos aqui? E por que existe um universo no qual podemos existir?
Mesmo sendo agnóstico (até o momento em que escrevo este texto), Penrose sente dificuldade em atribuir a existência do fenômeno da consciência a um “acidente” de um cálculo computacional complexo.
Seus questionamentos são de ordem metafísica e quase religiosa, como se ele desejasse conectar sua própria existência a um plano maior, talvez até transcendente.
De forma quase “antropocêntrica”, Penrose afirma que a consciência é o fenômeno pelo qual a própria existência do universo se torna conhecida, quase assumindo uma “intensão” nesse processo.
Os “porquês infantis” são absolutamente necessários nesse processo.
Tornar-se criança foi a conclusão de Penrose, mas eu diria que se tornar “como uma criança” seja a melhor resposta.
“Deixai vir a mim os pequeninos e não os embaraceis” (São Lucas 18:16).