Benjamin Noys é um teórico fundamental para a crítica contemporânea, especialmente nos debates sobre o aceleracionismo — corrente de pensamento que propõe radicalizar o capitalismo, acelerando seus processos tecnológicos, econômicos e sociais até o colapso do sistema (ou sua transformação radical em alguma mais robusto). Professor na Universidade de Chichester, suas pesquisas investigam as relações entre teoria crítica e produção cultural, com um olhar agudo sobre o que ele considera como “contradições internas” do capitalismo. Entre suas obras mais relevantes, destacam-se Georges Bataille: A Critical Introduction, The Persistence of the Negative: A Critique of Contemporary Continental Theory e Malign Velocities: Accelerationism & Capitalism. Além disso, organizou Communization and its Discontents: Contestation, Critique, and Contemporary Struggles, uma coletânea que reúne reflexões sobre estratégias de superação do sistema vigente.
Sua relação com o aceleracionismo é ambígua — e, de certa forma, paradoxal, assim como o próprio aceleracionismo, que oscila entre a extrema esquerda e a extrema direita.
Assim como Marx fez com o capitalismo, Noys critica o fenômeno, mas reconhece sua complexidade e potência. Seu projeto teórico busca, de modo semelhante ao aceleracionismo, explorar as linhas de fuga do capitalismo, levando-o a um ponto de ruptura e implosão.
Em Malign Velocities, um de seus livros mais instigantes, Noys analisa o “núcleo libidinal” do aceleracionismo, marcado pela fantasia de fusão entre humano e máquina e pelo desejo de um estado de “nenhuma dor, nenhum pensamento”. Essa visão, na minha opinião, remete a um fetichismo vulgarizado de espiritualidades orientais — especialmente a noção de “vazio” e a dissolução do eu —, ecoando narrativas como Ghost in the Shell, que também questionam o apagamento da subjetividade.
Inspirado por Paul Virilio, Noys identifica nesse imaginário influências gnósticas: um anseio pelo abandono da carne, um fetichismo esquizofrênico e uma “fantasmagorização” do sujeito. Esses elementos se materializam no que ele chama de “metafísica dos drones”. Os drones, em sua ressignificação simbólica, não seriam apenas ferramentas de vigilância e guerra, mas veículos de um imaginário teológico-tecnológico. Eles “encarnam” atributos místicos: o olhar onisciente, o “anjo exterminador”, a máquina que mata sem morrer. A “dissolução do eu” serve, assim, de base para uma guerra desumanizada, na qual o sujeito é substituído por dispositivos assépticos e distantes.
Ler Noys não se trata de concordar ou discordar, mas de reconhecer que, mesmo nos debates mais tecnológicos — como inteligência artificial, automação bélica ou o fim do sujeito —, temas religiosos ressurgem com força. Eis a ironia histórica: as mesmas angústias que acompanham a humanidade desde o Paleolítico continuam a se manifestar no cerne da pós-modernidade. Não por acaso, até o Vaticano entra na discussão: o atual Papa, ao abordar a inteligência artificial, enfatiza não apenas a tecnologia em si, mas a necessidade de resgatar a dignidade humana nas relações entre homem, máquina e trabalho.