Terminei a leitura de Rashômon e outros contos, de Ryûnosuke Akutagawa, na edição da Hedra, com tradução de Madalena Hashimoto Cordaro e Junko Ota.
Costuma-se apresentar o livro como uma coletânea de dez contos que exploram aspectos da cultura e da história do Japão. Essa descrição não está exatamente errada, mas carrega um traço de orientalismo: ela desloca o foco da literatura para um suposto “retrato do Japão”, como se esse fosse o destino natural de todo autor japonês.
Por que um escritor japonês precisaria, antes de tudo, falar de seu país, e não de si mesmo? Por que sua obra é lida como documento cultural antes de ser reconhecida como expressão individual?
Talvez seja mais honesto reformular a sinopse. Em vez de dez contos sobre o Japão, trata-se de dez contos que exploram diferentes aspectos de Ryûnosuke Akutagawa — suas obsessões morais, suas ambiguidades éticas, sua visão trágica da condição humana. O Japão está ali, inevitavelmente, como cenário e linguagem, mas o verdadeiro objeto desses textos é o próprio autor.
Ryûnosuke Akutagawa foi um dos mais importantes escritores japoneses do período Taishō, frequentemente considerado o pai do conto moderno no Japão. Nascido em Tóquio, em 1892, teve uma vida marcada pelo temor da loucura, o que culminou em seu suicídio em 1927, aos 35 anos. Estudou literatura inglesa na Universidade Imperial de Tóquio, onde iniciou sua trajetória literária, e produziu centenas de narrativas que exploram temas como identidade, egoísmo e vaidade, recorrendo tanto a fontes históricas e folclóricas do Japão quanto a referências chinesas e ocidentais.
Minha resistência em tratá-lo como um mero “autor japonês” está no caráter profundamente consciente e cosmopolita de seu estilo. Akutagawa escreve o Japão a partir de um olhar atravessado por influências ocidentais decisivas, especialmente Edgar Allan Poe, Fiódor Dostoiévski, Goethe e Nietzsche, que moldam sua visão de mundo e sua forma de narrar. É preciso, portanto, compreendê-lo como um autor situado em tensão permanente entre seu lugar de origem e suas matrizes intelectuais.
Essa tensão se evidencia de modo particular em sua produção Kirishitanmono (“relatos sobre coisas cristãs”), da qual esta coletânea apresenta três obras notáveis: Ogin, O Mártir e Memorando Ryôsai Ogata. Curiosamente, é ao tratar do cristianismo que Akutagawa se revela mais profundamente japonês. Nessas narrativas, sua literatura abandona qualquer cosmopolitismo abstrato e se ancora de forma rigorosa na história doméstica do Japão feudal dos séculos XVI e XVII, marcado pela perseguição aos cristãos após a proibição do cristianismo. Baseando-se em documentos históricos e em relatos de missionários e convertidos, Akutagawa constrói histórias em que o cristianismo não aparece como doutrina universal, mas como um corpo estranho, filtrado pela sensibilidade, pela violência e pelas estruturas simbólicas do Japão.
Nesta coletânea aparecem dois contos distintos de Akutagawa que, ao longo do tempo, acabaram indevidamente confundidos por causa do cinema: Rashômon e Dentro de um Bosque. A associação entre ambos se deve quase inteiramente ao filme Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, que combina o título de um conto com a trama do outro. O conto Rashômon tem pouca relação com o filme. Nele, Akutagawa constrói uma narrativa sombria centrada em um dilema moral individual, ambientado sob o portal em ruínas de Rashômon. É um dos textos mais claramente dostoiévskianos do autor, tanto na estrutura do conflito ético quanto em seu desfecho niilista, ainda que Dostoiévski, como cristão, mantenha aberta a possibilidade de redenção.
Já Dentro de um Bosque (Yabu no Naka) é o conto que efetivamente serve de base para o enredo do filme de Kurosawa. A história gira em torno do assassinato do samurai Kanazawa no Takehiro, encontrado morto em um bosque nos arredores de Quioto, e é apresentada por meio de sete depoimentos contraditórios prestados a um comissário de polícia. Estruturado como uma investigação fragmentada, o conto é atravessado por uma sensibilidade profundamente budista, articulada em noções como impermanência, ilusão e origem dependente. A realidade existe, mas nunca se apresenta de forma total ou estável. Aqui, o niilismo de Akutagawa não se manifesta na queda moral de um indivíduo, como em Rashômon, mas na exposição da futilidade de organizar a verdade em uma narrativa coerente e moralmente confortável, sobretudo quando mediada por narradores inevitavelmente não confiáveis. Enquanto Kurosawa funde os dois textos em um único gesto cinematográfico, Akutagawa os mantém separados, cada um explorando um aspecto distinto do colapso moral e epistemológico da experiência humana.
Temos também o conto Terra Morta, uma ficcionalização dos momentos finais do poeta Matsuo Bashō. O aspecto mais significativo desse texto está no modo como Akutagawa desloca o foco do célebre moribundo para aqueles que o cercam. Ao penetrar na consciência de cada personagem, o autor expõe a distância entre os gestos exteriores de reverência e os impulsos internos, frequentemente marcados por egoísmo, vaidade ou cálculo pessoal.
Outro conto presente na coletânea é Devoção à literatura popular, narrativa de estrutura deliberadamente contida que acompanha um único dia na vida do escritor idoso Bakin Kyokutei, às vésperas de concluir mais uma obra. Aqui, o conflito interior do protagonista funciona como uma reflexão sobre a autoria moderna e sobre a tensão permanente entre criação, crítica, mercado editorial e autossuspeita — temas que também atravessaram a trajetória do próprio Akutagawa.
Há ainda O Baile, um dos meus contos favoritos. Nele, Akutagawa dialoga diretamente com Madame Crisântemo, do escritor francês Louis Marie-Julien Viaud, conhecido como Pierre Loti. À primeira vista, o conto se apresenta como uma narrativa elegante e nostálgica; no entanto, sob essa superfície refinada, constrói-se uma história ambígua e multifacetada, que funciona como uma crítica sutil e rigorosa às relações culturais entre Japão e Ocidente durante a Era Meiji, sobretudo à maneira exotizante, simplificadora e condescendente com que o Japão era percebido e representado pelo olhar ocidental.
Os dois últimos textos da coletânea intensificam o tom de fragmentação. Passagens do caderno de notas de Yasukichi se apresenta como uma sucessão de anotações dispersas feitas por um tradutor de inglês para o japonês que trabalha em um colégio militar frequentado por marinheiros ocidentais. Não há uma progressão narrativa clara: ora o texto assume um tom quase etnográfico, comentando com curiosidade as diferenças culturais entre orientais e ocidentais, ora se dissolve em reflexões pessoais, observações banais e estados de espírito do narrador. A estrutura quebradiça parece intencional, mas o efeito é o de uma experiência fragmentária, que mais sugere um estado mental do que constrói um sentido plenamente articulado.
O volume se encerra com A vida de um idiota, texto que, embora costume ser classificado como conto, funciona mais como uma confissão íntima ou uma carta de despedida. Akutagawa narra a própria trajetória por meio de fragmentos autobiográficos, referindo-se a si mesmo em terceira pessoa, como se observasse a própria vida à distância. O texto percorre sua infância, sua formação intelectual, as influências literárias, o casamento e os filhos, sempre de forma descontínua, quase exausta. O que atravessa esses fragmentos é a presença cada vez mais nítida de uma depressão profunda, expressa não como lamento dramático, mas como constatação fria do esgotamento. Há espaço para a beleza e para o reconhecimento de momentos de sentido, mas o sentimento dominante é o cansaço diante da própria existência, como se a vida, apesar de tudo, tivesse se tornado pesada demais.

Lido retrospectivamente, o texto ganha um peso particular, pois antecipa o suicídio do autor em 1927. Mais do que explicar esse gesto, A vida de um idiota o circunda e o normaliza, revelando um escritor que não renega sua vida, mas que já não consegue habitá-la. É um encerramento duro, silencioso e profundamente humano — e, talvez por isso mesmo, o mais perturbador de toda a coletânea.
Como conjunto, Rashômon e outros contos não se organiza como um panorama cultural do Japão, nem como uma coletânea temática homogênea, mas como um campo de tensões em que diferentes formas de olhar, narrar e julgar o mundo entram em choque. O que emerge dessa leitura não é uma identidade estável — nacional, moral ou estética —, mas uma literatura marcada pela fratura, pela desconfiança e pela recusa de sínteses fáceis. Akutagawa escreve sempre a partir de um ponto instável, consciente de que toda narrativa é parcial, todo julgamento é interessado e toda tentativa de conciliação carrega algo de falso.
Talvez seja justamente essa recusa em oferecer conforto — seja ao leitor ocidental ávido por exotismo, seja ao leitor japonês em busca de afirmação identitária, seja a si mesmo enquanto sujeito — que torna esses contos tão duráveis. Ao final da leitura, não se tem a sensação de ter compreendido melhor o Japão, mas de ter sido colocado diante de uma inteligência literária rigorosa, inquieta e radicalmente honesta, que fez da própria instabilidade uma forma de verdade.