A dissolução da verdade sob o olhar da impermanência
O conto “Dentro de um Bosque”, também conhecido como “No Matagal” (Yabu no Naka), de Ryūnosuke Akutagawa, publicado em 1921 na revista Shinchō, pode ser lido, desde sua estrutura narrativa, como uma investigação profundamente marcada por uma sensibilidade budista.
A história gira em torno do assassinato de um samurai chamado Kanazawa no Takehiro, cujo corpo é encontrado em um bosque de bambu nos arredores de Quioto. A investigação do crime é apresentada por meio de sete depoimentos prestados a um comissário de polícia. Cada relato reconstrói os acontecimentos de maneira distinta, sem que seja possível conciliá-los em uma única versão dos fatos.
O primeiro depoimento é o do lenhador, responsável por encontrar o cadáver. Ele descreve o corpo abandonado no interior do bosque, marcando o ponto de partida da investigação. Em seguida, um monge budista relata ter cruzado com o samurai e sua esposa na estrada, na véspera do crime, confirmando que ambos estavam juntos pouco antes do ocorrido.
Depois, um policial apresenta seu relato, informando a captura de Tajōmaru, um ladrão conhecido e considerado o principal suspeito do assassinato. O policial descreve as circunstâncias da prisão e os indícios que ligam Tajōmaru ao crime. Na sequência, a mãe de Masago, esposa do samurai, presta depoimento. Ela relata o desaparecimento da filha após o ocorrido e descreve seu estado emocional antes do crime.
Tajōmaru, então, apresenta sua versão dos fatos. Ele confessa o assassinato e afirma que matou o samurai em um duelo, que descreve como honroso, ocorrido após ter violentado Masago. Em seu relato, o crime aparece como resultado de um confronto direto entre dois homens.
Logo depois, Masago surge para depor e oferece uma versão completamente diferente. Segundo ela, após a violência sofrida, foi tomada pelo desespero ao perceber o olhar de desprezo do marido. Nesse estado, afirma ter matado o próprio esposo com suas próprias mãos.
Por fim, no depoimento mais perturbador do conto, o próprio Kanazawa no Takehiro fala por meio de uma médium. Nessa última versão, o samurai declara que não foi assassinado, mas que cometeu suicídio, motivado pela vergonha e pela desonra decorrentes do que havia ocorrido.
Nenhuma dessas versões se impõe como definitiva. Todas são coerentes internamente, mas mutuamente excludentes. Esse impasse narrativo foi levado ao cinema por Akira Kurosawa em “Rashomon” (1950), filme que consagrou a expressão “Efeito Rashomon” para designar situações em que a verdade se dissolve em julgamentos conflitantes.
No entanto, em Akutagawa, essa dissolução não é apenas epistemológica, mas existencial.
O conto não defende um relativismo absoluto, como se todas as versões fossem igualmente verdadeiras. O que ele relativiza é a percepção humana da verdade, não a existência de um fato. Um crime ocorreu no bosque. Essa é a única certeza. O problema é que essa verdade se apresenta como algo fraturado, inacessível em sua totalidade. Cada personagem apreende apenas um fragmento, deformado por desejos, medos, vaidade e vergonha.
Essa concepção dialoga diretamente com princípios centrais do budismo. A noção de impermanência (mujō) atravessa o conto ao mostrar que nenhum relato se sustenta como fixo ou definitivo. A ideia de ilusão (mō) se manifesta na confiança excessiva que cada narrador deposita em sua própria versão dos fatos. E o princípio da origem dependente (pratītya-samutpāda) revela-se na impossibilidade de separar sujeito e objeto: o que é visto nunca está dissociado de quem vê.
Sob essa perspectiva, o niilismo de Akutagawa não nega a realidade, mas denuncia a futilidade da tentativa humana de organizá-la em uma narrativa coesa e moralmente confortável. A busca pela verdade se torna, assim, semelhante a um koan zen: um exercício que não conduz a uma resposta lógica, mas à aceitação da contradição como parte constitutiva da experiência.
“Dentro de um Bosque” propõe uma visão profundamente inquietante da condição humana. Ao articular múltiplas versões inconciliáveis de um mesmo acontecimento, Akutagawa não apenas desmonta a noção de verdade objetiva acessível, mas expõe os mecanismos psicológicos e sociais que moldam nossa percepção do real. A verdade existe, mas permanece fora de alcance, não por estar oculta, e sim por ser inevitavelmente filtrada por uma consciência marcada pelo ego, pelo medo e pela vergonha.
Nesse sentido, o conto se aproxima de uma ética budista da lucidez: reconhecer os limites da percepção, aceitar a instabilidade das narrativas e abandonar a ilusão de um ponto de vista absoluto. O bosque, afinal, não é apenas o cenário do crime, mas a metáfora de uma mente turva, onde cada passo revela apenas mais um desvio, nunca o caminho inteiro.
