Uma das coisas que mais me admira no personagem Félix, do romance Ressurreição, de Machado de Assis, é que ele escancara os portões do inferno interior do homem galanteador.
Não me refiro ao galanteador frustrado, mas àquele que sempre consegue o que quer — aquele que, possivelmente, é invejado por outros homens.
O inferno que esse homem vive é o do conquistador que ama a conquista, não a pessoa conquistada.
Quando Félix se declara para Lívia, uma mulher que ele verdadeiramente ama, e é correspondido, o que poderia ser o início de uma resolução feliz e sem conflitos revela-se, na verdade, o prólogo da sua perturbação.
Com Lívia, ele já não fantasiava uma existência futura romanesca, mas sim real e prosaica — em outras palavras, um casamento comum, entre um homem comum e uma mulher comum — bem ao gosto de G.K. Chesterton.
O homem conquistador está habituado não apenas às aventuras, mas ao uso de máscaras, a performar o amor em vez de amar de fato, a lidar com estratégias de sedução e a encarnar uma persona que, no fundo, sabe não ser ele mesmo.
Diante da necessidade de amar uma pessoa real, esse personagem se desfaz — e o que sobra é uma figura insegura quanto à própria identidade e à sua capacidade de amar. Ele não se acha merecedor de um amor recíproco. Em vez disso, vê-se como alguém que “se perdeu no personagem”, que “se envolveu demais” e que, por isso, precisa sabotar esse amor.
“As armas com que lutava eram certamente de boa têmpera, mas se valiam muito para esgrimir, valiam pouco para pelejar. Com uma mulher que apenas tivesse a soma de afeto necessária para dissimular o erro, o nosso herói ficaria na altura da reputação; mas o amor da viúva (Lívia) era um verdadeiro combate. Quando Félix chegou a encarar-lhe o coração, sentiu a fascinação do abismo, e caiu nele.”
Essa crise, vejam só, meus amigos, é o que chamamos de estar apaixonado — uma novidade para ele.
Félix se envolveu com muitas mulheres, foi correspondido por elas, mas nunca conheceu o amor ou sequer se apaixonou — conhecia apenas “a vaidade, o capricho e o pendor sensual”.
Sim, eis o grande inferno de Félix: ele se julga “incapaz de amar”; nas suas próprias palavras, um homem “inábil para as afeições do céu”.
Em determinada passagem do romance, a narrativa assume tons sombrios antes de mergulhar definitivamente na melancolia e no patético. Inseguro por se achar indigno do amor de Lívia, Félix, movido por vaidade e orgulho, passa a alimentar a fantasia inversa: de que seria ela, na verdade, a indigna dele. Essa projeção — talvez um mecanismo para preservar sua autoimagem — se manifesta na tentativa de rebaixá-la ao seu nível. Desse processo degenerativo emergem o ciúme doentio, desconfianças infundadas, grosserias e atitudes persecutórias.
Acredito que boa parte da boa literatura, mesmo a não confessional, acaba tropeçando em algumas verdades de fé. A que Machado de Assis tropeça aqui é a de que não há pecado sem o salário da morte. Em sua vida pecaminosa de amante, Félix foi matando o marido.
O diálogo entre Félix e Lívia em Ressurreição, no Capítulo XI, em que ela revela seu passado e ele se abre francamente sobre suas inseguranças, é um exemplo de como Machado delineia com precisão a estrutura de um relacionamento — especialmente de um relacionamento em crise.
Do lado de Lívia, ele descreve o choque entre sonho e realidade.
Viúva, Lívia fala a Félix sobre seu casamento anterior. Diz que amava verdadeiramente o marido — com o romantismo das jovens. Ele, por sua vez, embora fosse um homem bom, amava com moderação — um amor conjugal, sem ardores, sem asas e sem ilusões.
Lívia conta que tentou inflamá-lo com seus sentimentos, mas ele se mantinha apático, frio e, com o tempo, cansado dessas tentativas.
Contrita, ela diz a Félix que perturbou a paz doméstica por um sonho infantil. Talvez “contrita” não seja o adjetivo mais exato — talvez apenas triste, simplesmente triste, pois afirma que não conseguiria ser de outro modo. Era, segundo ela, “defeituosa” e estaria “amaldiçoada” a querer demais e receber pouco.
O relato de Félix, por sua vez, soa mais sombrio.
Félix é um galanteador, como já mencionado. Enquanto sedutor, diz que desperdiçou seus afetos mais generosos em conquistas vazias, sem cálculo e sem arrependimento. A falsidade da corte e as palavras sentimentais vazias se tornaram, para ele, sólidas crenças na vacuidade dos sentimentos. Toda expressão de afeto e toda promessa, com o tempo, foram perdendo o significado e ganhando feições de falsidade. Não percebia que seus sucessivos amores de verão, com palavras e promessas vãs, deixavam seu espírito árido e seco. Sem notar, a misantropia invadiu-lhe o coração — primeiro de forma irritada e violenta; depois, de maneira resignada e melancólica.
Enquanto Lívia abraçava o cadáver de um sonho frustrado, Félix abraçava a própria serpente: o diabo, a mentira, a desesperança e o amor envenenado.
Nunca foi sincero e, agora, toda entrega sincera ao amor, para ele, carrega a rusga da desconfiança.
