“O Mártir”, de Ryūnosuke Akutagawa

Fé cristã, beleza corporal e erotismo contido no kirishitanmono que transforma o corpo em lugar de devoção e conflito

“O Mártir” (奉教人の死, Hōkyōnin no Shi), de Ryūnosuke Akutagawa, é um conto do gênero kirishitanmono que se destaca pela maneira contida e precisa com que articula fé, corpo e beleza. Escrito em 1918, o texto acompanha a trajetória de Lorenzo, um jovem de aparência serena e origem desconhecida, encontrado exausto nos degraus da Igreja de Santa Lúcia, em Nagasaki, na noite de Natal. Acolhido pelos missionários jesuítas, Lorenzo passa a viver como irmão leigo e rapidamente se torna um exemplo de devoção, disciplina e pureza dentro da comunidade cristã.

Desde o início, sua beleza chama a atenção, mas não como simples atributo físico. Ela funciona como um sinal visível de virtude, quase como uma extensão corporal da fé que professa. Trata-se de uma beleza que parece confirmar a santidade interior do personagem, reforçando a imagem de alguém separado do mundo comum. No entanto, essa beleza não permanece restrita ao campo da devoção religiosa. Akutagawa sugere, com economia narrativa, que ela desperta afetos ambíguos entre os fiéis. A admiração de Simeão, em particular, não é descrita como desejo explícito, mas como um apego intenso que ultrapassa a simples camaradagem religiosa. O conto não nomeia esse afeto, mantendo-o em suspensão, de modo que amor espiritual e atração corporal coexistem sem se resolver.

Nesse sentido, o cristianismo apresentado por Akutagawa aparece menos como um sistema de repressão do corpo e mais como um regime de intensificação dos afetos. A contemplação da pureza não elimina o fascínio, antes o desloca e o torna mais silencioso. Essa tensão latente se torna explícita quando surge a acusação de que Lorenzo teria se envolvido sexualmente com a filha de um fabricante de guarda-chuvas. Embora Lorenzo negue qualquer relação, a gravidez da jovem e sua denúncia pública o colocam imediatamente na posição de culpado. O corpo antes percebido como expressão de santidade passa a ser lido como corpo mundano, passível de desejo, erro e culpa.

A expulsão de Lorenzo da comunidade não ocorre apenas pelo suposto pecado, mas sobretudo pela quebra das expectativas idealizadas que os outros projetavam sobre ele. Privado do espaço religioso, ele se torna um mendigo e passa a sofrer hostilidade, como se a comunidade precisasse punir aquilo que antes havia elevado. Ainda assim, Lorenzo continua a retornar à igreja durante a noite, em segredo, para orar longe do olhar dos fiéis. A devoção persiste, agora separada do reconhecimento público e sustentada apenas pela relação direta com Deus.

Um ano depois, um grande incêndio devasta Nagasaki, atingindo diversas áreas da cidade, inclusive a casa do fabricante de guarda-chuvas. No meio do caos, descobre-se que um bebê foi esquecido dentro da casa em chamas. Enquanto todos hesitam, Lorenzo surge das sombras e se lança ao fogo, conseguindo salvar a criança, mas sofrendo ferimentos fatais. Comovida pelo sacrifício, a jovem confessa publicamente que havia mentido por vingança, após ter suas investidas rejeitadas. O verdadeiro pai da criança era outra pessoa.

Enquanto Lorenzo morre nos braços de Simeão, com um sorriso sereno, ocorre a revelação final: ao abrirem suas roupas rasgadas, descobrem seios femininos. Lorenzo era, na verdade, uma mulher que vivera toda a vida sob um disfarce masculino para servir à sua fé. Essa escolha se explica pelas restrições institucionais das missões jesuítas, nas quais mulheres não podiam integrar a ordem nem viver nos alojamentos missionários. Ao assumir uma identidade masculina, Lorenzo pôde viver como “irmão”, participando ativamente dos rituais religiosos, inclusive de funções vedadas às mulheres, como oferecer incenso no presbitério.

A revelação final não altera retrospectivamente o sentido da devoção de Lorenzo, mas reorganiza sua leitura. Os seios expostos no momento da morte não funcionam como choque sensacionalista, e sim como confirmação de uma ambiguidade presente desde o início do conto. O corpo feminino, oculto por necessidade, não contradiz a pureza vivida, mas a torna mais complexa. A santidade não aparece separada do corpo, e tampouco totalmente dissociada de uma dimensão erótica, ainda que essa erotização permaneça discreta e mediada pelo olhar alheio.

Nesse sentido, o conto pode ser lido como uma síntese entre a figura de Santa Joana d’Arc, pela ideia da mulher que vive sob disfarce masculino para servir à fé, e a narrativa do errante, aqui transposta para a figura de um cristão marginalizado. Akutagawa articula, de forma particularmente refinada, elementos da mística cristã, como o sacrifício, a pureza ascética e o martírio redentor, com sensibilidades culturais japonesas e com inflexões sutis sobre os papéis de gênero. Trata-se de uma abordagem distante das polarizações contemporâneas. O disfarce de Lorenzo não é um manifesto moderno sobre identidade, mas um recurso trágico e poético para pensar a transcendência da fé sobre o corpo.

O cristianismo surge, assim, como algo exótico, quase erótico em sua intensidade espiritual. A revelação final dos “seios claros e puros” eleva o sacrifício a um plano ambíguo, situado entre a hagiografia e o erotismo. O corpo feminino, escondido para servir a Deus, torna-se símbolo de inocência radical, imaculada mesmo diante da calúnia e do sofrimento, mas também carregado de uma beleza inquietante. O conto se inscreve, dessa forma, na tradição das lendas medievais de santas travestidas, como Marina ou Marino, mas filtrado pelo olhar de Akutagawa, marcado por melancolia, contenção e ambiguidade.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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