Fui ao cinema para assistir Hamnet: A Vida Antes de Hamlet esperando encontrar um filme sobre luto, arte e perda. Encontrei tudo isso, mas fui sobretudo surpreendido por outra coisa: um filme que resgata, de maneira rara e precisa, a geografia simbólica tradicional do masculino e do feminino. Uma geografia que hoje causa desconforto tanto em leituras conservadoras quanto em leituras progressistas.

Estamos acostumados a ouvir que o masculino se define pela objetividade, pelo pragmatismo e pela racionalidade instrumental, enquanto o feminino seria etéreo, intuitivo e sensível.

Essa oposição, porém, é uma construção recente e não encontra lastro sólido na tradição simbólica, filosófica ou mítica. Hamnet opera, de forma deliberada ou não, no sentido oposto: recupera uma organização muito mais antiga desses polos, em que o feminino está profundamente enraizado no mundo concreto, corporal e prático, enquanto o masculino ocupa o domínio da abstração, da mediação simbólica e da elevação narrativa.

Ao fazer isso, o filme não apenas desloca expectativas contemporâneas, mas expõe o quanto nossa compreensão atual de gênero é, em grande parte, uma simplificação anacrônica de estruturas simbólicas muito mais complexas.

Dirigido por Chloé Zhao, vencedora do Oscar por Nomadland, o filme é baseado no romance homônimo de Maggie O’Farrell e acompanha a vida do jovem casal William Shakespeare (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley) na Inglaterra do século XVI. William é apresentado como tutor de latim e aspirante a escritor; Agnes, como uma mulher profundamente conectada à natureza, às ervas, aos ciclos da vida e da morte.

O filme acompanha a história do casal desde o início do relacionamento, passando pelo nascimento dos três filhos, Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet, até as consequências das escolhas que fazem ao longo do tempo. Incentivado por Agnes, William decide deixar a família e ir para Londres em busca de uma carreira no teatro. Essa separação se torna trágica quando Hamnet, o único filho homem do casal, morre aos 11 anos, vítima da peste bubônica, enquanto o pai está ausente.

O luto é o eixo visível do filme. Mas ele funciona como uma camada epidérmica. Abaixo dela, Zhao constrói uma reflexão mais profunda sobre a função da arte e, de forma ainda mais nuclear, sobre as posições simbólicas do masculino e do feminino.

A arte é um elemento central do filme, afinal trata-se da história de Shakespeare. Ainda assim, Chloé Zhao evita tratar o fazer artístico de forma idealizada. O filme dialoga de maneira implícita com a famosa afirmação de Nietzsche de que “temos a arte para não morrer da verdade”, mas desloca o problema. A questão que Zhao propõe não é se a arte salva, e sim até que ponto ela se torna uma necessidade vital quando a experiência da vida se torna insuportável.

Nesse sentido, o filme ultrapassa a formulação de Nietzsche. Zhao parece questionar a ideia de que a arte poderia substituir a vida ou oferecer uma forma de redenção. Em Hamnet, a criação artística não é apresentada como resposta suficiente ao real. Ela surge como um recurso limitado, incapaz de ocupar o lugar da experiência vivida. A dor não é dissolvida, e a brutalidade da vida não é plenamente absorvida pela obra.

Por isso, a arte não aparece como redenção nem como transcendência moral. Ela se manifesta como compulsão, quase como um vício. Para William, criar não é um gesto elevado, mas um mecanismo de sobrevivência psíquica. Ele não enfrenta o real diretamente. Ele o desloca, o fragmenta e o reorganiza em forma de narrativa.

Essa postura se revela desde o primeiro encontro com Agnes. Incapaz de uma comunicação direta, William recorre à mediação do mito ao narrar a história de Orfeu e Eurídice. O “eu artístico” funciona como um espaço intermediário entre ele e o mundo. Permite aproximação, mas também oferece proteção. Torna possível tocar a verdade sem encará-la frontalmente.

Quando Hamnet morre e William não consegue chegar a tempo para se despedir do filho, resta-lhe apenas escrever. Hamlet nasce como um ritual tardio de despedida. As palavras que não puderam ser ditas ao filho são fragmentadas e distribuídas entre personagens distintos, como se o peso de um único “eu” fosse insuportável. A dor precisa ser dispersa para poder ser suportada.

Em Zhao, a arte recupera seu caráter de artifício.

No que diz respeito aos polos masculino e feminino, William expressa um traço profundamente masculino no sentido simbólico tradicional. Não se trata do masculino estereotipado do mundo moderno, associado ao pragmatismo e à ação imediata, mas de um masculino aéreo, celeste, poético e sacerdotal. William não é o homem do gesto direto nem da fala crua. Ele é o homem da mediação, da abstração e da elevação narrativa.

Esse traço se torna mais evidente em contraste com Agnes, cuja presença feminina é construída de forma muito clara pelas imagens do filme.

Na primeira cena, Agnes desperta sozinha na floresta, junto a uma cavidade escura e profunda sob as raízes grossas e retorcidas de uma árvore monumental. A imagem é inequívoca. Trata-se de um útero telúrico, primal e natural. Agnes emerge da terra, do corpo e do ciclo vital, não do símbolo nem da representação.

No encerramento do filme, quando William apresenta Hamlet ao público, vemos um palco cenográfico com uma floresta pintada e um vão artificial entre árvores. Aqui, a natureza não é vivida, mas representada. Ela aparece mediada, controlada e organizada pela forma. Trata-se de uma natureza simbolicamente masculina, transformada em imagem e narrativa.

Esse contraste visual condensa a tese central do filme.

Agnes encarna o feminino tradicional de maneira visceral. Ela é a guardiã do lar, dos nascimentos dolorosos, da cura por meio das ervas e da aceitação da morte como parte do ciclo natural. Sua relação com o mundo é direta, corporal e imediata. Ela cuida dos filhos, enfrenta a perda sem sublimação e sustenta a vida mesmo dilacerada. Sua força é telúrica, enraizada, quase xamânica. Trata-se de uma consciência feminina que nada tem de etérea ou suavizada, mas que se afirma pela presença no real.

William, por sua vez, encarna o masculino tradicional em sua dimensão aérea. Ele parte para a cidade, assume o papel de provedor, mas sobretudo o papel do poeta e do sacerdote. O masculino, aqui, não se define pela eficácia prática, mas pela capacidade de elevar o real ao plano simbólico. William habita o espaço das ideias, da linguagem e da representação. Sua relação com o mundo é sempre mediada pela forma.

O equívoco contemporâneo está justamente em inverter essas posições. O filme deixa claro que, no plano simbólico, é Agnes quem sustenta o mundo prático, enquanto William vive no domínio da abstração. O feminino lida com o real bruto; o masculino tenta traduzi-lo em sentido.

Nesse sentido, Hamnet não é apenas um filme sobre Shakespeare, nem apenas um filme sobre luto. Trata-se de uma obra que resgata uma compreensão antiga e profundamente desconfortável das forças que organizam o humano. Forças que não se alinham às caricaturas modernas de gênero, mas às suas geografias simbólicas mais profundas.

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