Devoção à literatura popular, de Akutagawa Ryūnosuke

Uma leitura de Devoção à literatura popular (Gesaku zanmai), de Akutagawa Ryūnosuke, e uma reflexão sobre o impasse criativo e seus desdobramentos

Publicado em 1917, Devoção à literatura popular (Gesaku zanmai), de Akutagawa Ryūnosuke, apresenta-se como um conto de estrutura deliberadamente contida.

A narrativa acompanha um único dia na vida de Bakin Kyokutei, escritor idoso e consagrado, às vésperas de concluir mais uma obra.

Essa concentração temporal não é apenas um recurso de economia narrativa, mas um princípio formal: ao restringir o tempo da ação, Akutagawa desloca o foco para a intensificação progressiva do conflito interior.

O conto se inicia na sauna Matsunoyu. Ali, Bakin é abordado por Saikichi, um homem que se apresenta como admirador fervoroso de sua obra. O elogio, excessivo e insistente, uma espécie de paradoxal desconcerto lisonjeador. Pouco depois, ainda envolto pela névoa espessa do ambiente, Bakin escuta alguém depreciar violentamente seus livros, chamando-os de medíocres. A impossibilidade de identificar a origem da crítica é decisiva. A narrativa não esclarece se se trata da mesma pessoa, e essa suspensão de sentido torna o episódio ainda mais corrosivo.

Formalmente, Akutagawa constrói essa cena como um jogo de vozes difusas. O elogio e a crítica surgem quase como variações de um mesmo ruído, indistintos no espaço nebuloso da sauna. A névoa não funciona apenas como cenário, mas como metáfora sensorial da instabilidade do juízo público. O escritor não é atingido por uma crítica específica, mas pela percepção de que qualquer palavra externa pode se infiltrar em sua consciência.

Ao deixar a sauna, Bakin tenta afastar o episódio, mas a narrativa já deslocou o conflito para o plano interior.

Akutagawa insiste menos na reação emocional imediata e mais no efeito retardado da crítica. O escritor sabe que palavras injustas não ferem apenas o orgulho; elas passam a atuar como limites invisíveis sobre a escrita, antecipando censuras, modulando escolhas formais, enfraquecendo a imaginação antes mesmo que ela se manifeste. O processo criativo começa a ser contaminado por um olhar que não é mais apenas externo, mas internalizado.

O retorno à casa não representa refúgio. Ali o aguarda o editor Yamamoto, figura construída com precisão econômica. Sua presença é cordial na superfície, mas estruturalmente invasiva. Ele fala de prazos, expectativas do público e, sobretudo, de oportunidade. Sugere que Bakin escreva sobre Nezumikozô Jirôdaifu, ladrão popular recentemente capturado e executado, tema em evidência e facilmente assimilável pelo mercado. A recusa de Bakin não é dramática, mas firme. Ele afirma não conseguir escrever sob temas e ritmos impostos de fora.

A resposta do editor, ao compará-lo a escritores menores e mais obedientes, introduz um segundo eixo formal do conto: o confronto entre tempos distintos da escrita. De um lado, o tempo lento, irregular e incerto do processo criativo; de outro, o tempo linear e instrumental do mercado. Akutagawa não transforma esse embate em debate explícito. Ele o inscreve na própria fricção da cena, na sensação de intrusão que permanece após a partida do editor.

A crise se intensifica quando Bakin se recorda de um episódio ocorrido anos antes. Na ocasião, ele recebera uma carta de um jovem aspirante a escritor que se dizia seu admirador. O rapaz enviara textos para avaliação e manifestara o desejo de tornar-se seu servo, passando a viver em sua casa em troca de abrigo e sustento. Bakin recusara o pedido de forma educada e discreta. Alguns dias depois, contudo, recebeu uma resposta marcada por ressentimento. Nela, o jovem o acusava de arrogância e afirmava que, embora tivesse lido toda a sua obra, considerava-a medíocre.

Narrativamente, essa carta funciona como retorno do reprimido. Akutagawa a insere não como fato isolado, mas como memória que ressurge no momento de maior vulnerabilidade. O efeito não está na violência da acusação, mas na sua capacidade de se somar às vozes anteriores. O elogio excessivo, a crítica anônima, a cobrança editorial e a carta antiga passam a compor um mesmo campo sonoro, no qual o escritor já não distingue o que vem de fora e o que se origina em sua própria dúvida.

A partir daí, o conto desacelera. Bakin relê seus textos recentes e não encontra neles vitalidade. A narrativa acompanha esse gesto sem dramatização excessiva, apostando na repetição e na suspensão. A ideia de destruir o que escreveu e recomeçar do zero surge não como catarse, mas como esgotamento. Formalmente, Akutagawa faz da hesitação um estado narrativo.

A visita do pintor Kazan aprofunda essa lógica. Ao devolver livros emprestados e apresentar uma pintura recém-concluída, a conversa entre os dois deriva para os processos de criação, comparados a batalhas nas quais a derrota é sempre possível. A metáfora reforça a percepção de que a criação não garante redenção. O diálogo não resolve nada; apenas acrescenta mais uma camada de consciência ao impasse.

O ponto de inflexão ocorre com a chegada do neto Tarô, que retorna do templo acompanhado da mãe. A criança corre até o avô e o abraça, dizendo com naturalidade que a deusa Kannon de Asakusa afirmara que ele “ficará importante, mas deve ser paciente e continuar a escrever”. Akutagawa insere essa fala de modo direto no tecido da narrativa, sem explicação ou comentário. Ainda assim, a simples menção a Kannon introduz uma inflexão decisiva: um elemento que ultrapassa a lógica estritamente racional que vinha organizando o pensamento do protagonista.

Nesse contexto, Tarô assume a função de intermediador sutil entre o mundo humano e uma dimensão que não se deixa reduzir ao cálculo, ao juízo crítico ou à economia simbólica da literatura. Sua fala não opera como argumento nem como conselho deliberado. Ela se impõe como enunciação que age por deslocamento, abrindo uma brecha no regime reflexivo em que Bakin se encontra aprisionado. A referência à divindade, transmitida pela criança sem solenidade ou intenção doutrinária, atua como catalisador místico: não oferece explicações, mas transforma o horizonte interno a partir do qual o escritor se relaciona com sua própria prática.

O que se reativa, nesse gesto, não é apenas a disposição para escrever, mas uma dimensão mais profunda da vocação literária, entendida aqui não como escolha racional ou projeto consciente, mas como chamado. A fala de Tarô parece reconectar Bakin a uma concepção da escrita que antecede a crítica, o mercado e a autorreflexão excessiva. Ao evocar Kannon, o conto sugere que escrever não é apenas produzir sentido, mas responder a uma convocação que vem de fora do sujeito e, ao mesmo tempo, o atravessa.

Formalmente, essa mediação altera o regime da narrativa. Até então, Bakin estava encerrado num circuito fechado de reflexão exaustiva, no qual cada gesto criativo era imediatamente submetido ao crivo da avaliação externa e da autossuspeita. A eficácia da fala de Tarô reside justamente na modéstia do gesto e na ausência de intenção persuasiva. O “divino”, aqui, não se manifesta como revelação ou promessa de redenção, mas como força mínima capaz de reativar o movimento interrompido.

O que se restaura em Bakin não é a certeza nem a confiança plena, mas algo mais elementar: a continuidade. Ao sugerir essa intervenção discreta do sagrado, Akutagawa aponta para uma concepção da criação que ultrapassa os limites da razão instrumental. Escrever torna-se, assim, menos uma decisão soberana do sujeito do que uma resposta a algo que convoca, insiste e exige persistência. Nesse sentido, a cena reinscreve a escrita no campo da vocação, não como destino grandioso, mas como fidelidade silenciosa a um chamado que não se deixa justificar plenamente, apenas atender.

Na cena final, Bakin retoma o pincel. Ele escreve não por confiança restaurada, mas por necessidade. A escrita é descrita como combate, não como harmonia. O conto se encerra sem resolução plena, reafirmando uma ética da persistência. Escrever não é vencer a crise, mas atravessá-la.

A partir dessa construção formal rigorosa, Devoção à literatura popular pode ser lido como uma meditação sobre o processo criativo entendido como campo de tensão permanente. Akutagawa dramatiza, por meio de episódios mínimos e cuidadosamente encadeados, a forma como a escrita é atravessada por vozes externas que acabam sendo incorporadas pelo próprio autor. O conflito central não se dá entre o escritor e o mundo, mas entre o escritor e a multiplicidade de olhares que passam a habitar sua consciência.

Essa leitura se aprofunda quando se considera a possibilidade de uma dimensão autobiográfica. Embora o conto não possa ser reduzido a confissão, ele ecoa de maneira significativa as tensões vividas pelo próprio Akutagawa Ryūnosuke em relação à crítica, ao mercado editorial e à exigência constante de renovação formal. Ao projetar essas inquietações em uma figura histórica distante, o autor cria um espaço de deslocamento que lhe permite examinar, com frieza e precisão, o drama da autoria moderna.

Assim, Gesaku zanmai afirma uma concepção da literatura como prática instável, marcada menos pela inspiração do que pela insistência. A escrita aparece não como garantia de sentido, mas como gesto reiterado diante da dúvida. Persistir, em Akutagawa, é menos um triunfo do que uma necessidade vital.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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