No oitavo capítulo, intitulado “Obrigado por estar Viva”, conhecemos a história de uma amiga de Gwija que participou da primeira etapa do 21º Encontro de Famílias Separadas, realizado entre 20 e 22 de agosto de 2018. Depois de 68 anos sem se ver, ela finalmente reencontrou a irmã mais nova, de quem havia se separado durante a Guerra da Coreia.
Esses reencontros são particularmente interessantes porque revelam uma situação quase absurda: pessoas que foram vítimas de uma guerra da qual não escolheram participar acabam se tornando prisioneiras das fronteiras estabelecidas pelos próprios países onde nasceram. Durante décadas, não puderam atravessar uma linha imaginária para visitar seus irmãos, pais, filhos e amigos. Mesmo quando os governos permitem que se encontrem, isso acontece sob condições bastante restritivas.
Os encontros são organizados por meio de acordos entre os dois governos e contam com a participação da Cruz Vermelha. Antes de cada edição, os países trocam listas de pessoas interessadas em localizar seus parentes. Essas informações precisam ser verificadas para confirmar se os familiares ainda estão vivos e se podem participar. O número de participantes, entretanto, é extremamente limitado. Em 2018, por exemplo, foram selecionadas cerca de cem pessoas de cada lado, embora milhares de famílias ainda aguardassem a oportunidade de reencontrar seus parentes.
Naquele ano, os encontros aconteceram no complexo turístico do Monte Kumgang, na Coreia do Norte, em duas etapas. A primeira, entre os dias 20 e 22 de agosto, reuniu 89 sul-coreanos e aproximadamente 180 parentes que viviam no Norte. A segunda ocorreu entre os dias 24 e 26, com participantes norte-coreanos que viajaram para encontrar seus familiares do Sul.
A programação era bastante controlada. Na primeira etapa, as famílias tiveram seis oportunidades de encontro, distribuídas ao longo de três dias, totalizando aproximadamente 11 horas. O primeiro contato aconteceu em uma reunião coletiva, com as famílias acomodadas em mesas previamente organizadas. No segundo dia, houve uma oportunidade de conversa mais reservada nos quartos do hotel onde os sul-coreanos estavam hospedados. Pela primeira vez naquele formato de reencontro, os parentes puderam também almoçar juntos nesses espaços. No último dia, aconteceu uma reunião coletiva de despedida.
É difícil imaginar a dimensão emocional de uma situação como essa. Pessoas que passaram quase sete décadas sem notícias umas das outras precisam tentar recuperar uma vida inteira de lembranças em algumas horas. Há irmãos que se reencontram já idosos, pais que descobrem como os filhos viveram, parentes que precisam apresentar uns aos outros gerações inteiras que nasceram durante a separação. E, quando finalmente começam a se acostumar com a presença daqueles que julgavam talvez nunca mais encontrar, chega a hora de partir novamente. Não existe sequer a garantia de que terão uma segunda oportunidade.
Uma coisa que me chama a atenção nesses encontros é como as vítimas de uma guerra em que não escolheram participar acabam se tornando detentas dentro do próprio país. É possível interpretar esses eventos, do ponto de vista geopolítico, como iniciativas de aproximação humanitária entre os dois governos. Afinal, permitir que famílias separadas há décadas voltem a se encontrar é, sem dúvida, uma medida importante. Mas existe uma contradição bastante incômoda: essas pessoas só conseguem exercer um direito tão elementar quanto visitar seus parentes mediante autorização e negociação entre dois Estados que continuam controlando rigorosamente a circulação entre seus territórios.
Nesse sentido, os encontros também podem ser interpretados como uma demonstração do caráter coercitivo do poder estatal. As fronteiras entre as duas Coreias funcionam, para essas famílias, como os muros de duas grandes penitenciárias. Os reencontros acontecem em um local determinado, em horários previamente estabelecidos, com lugares organizados e numerados e sob vigilância. A própria possibilidade de conversar com um irmão ou uma irmã depende de uma autorização política, de uma lista aprovada e de uma programação que não pode ser ultrapassada.
Existe alguma diferença, nesse aspecto, entre a situação dessas pessoas e a de um prisioneiro que recebe uma visita? A comparação é deliberadamente provocativa, mas ajuda a revelar o grau de controle exercido sobre indivíduos que não cometeram crime algum e que apenas desejam reencontrar suas famílias.
Isso não significa, entretanto, que os dois lados estejam em pé de igualdade. A Coreia do Sul tem seus próprios problemas políticos, sociais e econômicos, mas não existe comparação razoável entre as condições de liberdade oferecidas pelos dois países. A Coreia do Norte é um regime autoritário extremamente repressivo, que controla não apenas a circulação de pessoas, mas também o acesso à informação, as manifestações culturais e praticamente todos os aspectos da vida pública. Essa diferença aparece inclusive nos pequenos detalhes desses encontros.
Um exemplo bastante significativo está na troca de presentes. Os parentes sul-coreanos costumam levar roupas, medicamentos, produtos de higiene, alimentos, fotografias e outros objetos cotidianos. São presentes simples, mas carregados de significado afetivo. Para alguém que passou quase 70 anos sem contato com a família, oferecer um casaco, um remédio ou uma fotografia pode ser uma maneira de tentar compensar, ainda que minimamente, tudo aquilo que o tempo impediu de compartilhar.
Do outro lado, os participantes norte-coreanos também levam presentes, como ginseng, bebidas tradicionais e tecidos. Entretanto, há relatos de que as autoridades do Norte exercem controle sobre aquilo que os participantes recebem. Segundo informações divulgadas após os encontros de 2018, parte do dinheiro entregue pelos familiares sul-coreanos teria sido exigida posteriormente pelo governo como uma espécie de contribuição de lealdade. Também foram relatadas reuniões de orientação política destinadas a neutralizar possíveis influências ideológicas adquiridas durante o contato com os parentes do Sul.
A própria preparação dos participantes norte-coreanos revela esse controle. Há relatos de que as autoridades fornecem roupas e até presentes padronizados para que sejam entregues aos familiares sul-coreanos. Em vez de permitir que cada pessoa escolha livremente o que deseja oferecer, o Estado acaba interferindo até mesmo na expressão material desses vínculos afetivos. A troca de presentes, que deveria ser uma manifestação espontânea de carinho, passa a carregar também a marca da organização política.
É nesse ponto que a diferença entre as duas Coreias se torna particularmente evidente. Não estamos falando apenas de dois governos que estabelecem regras para a realização de um encontro diplomático. No caso norte-coreano, existe uma preocupação permanente em controlar o contato da população com qualquer referência externa que possa colocar em dúvida a narrativa oficial do regime. Até mesmo o reencontro com um irmão que vive no Sul pode representar um risco ideológico aos olhos do Estado.
Em suma, a desumanização promovida pelo regime norte-coreano chega a um nível em que até os momentos mais íntimos e delicados da vida familiar acabam submetidos à lógica da vigilância e do controle estatal. O governo não se limita a determinar quem pode atravessar a fronteira ou quanto tempo as pessoas podem permanecer juntas. Também procura controlar o que elas dizem, o que recebem, o que oferecem e até mesmo a maneira como devem se apresentar diante dos próprios parentes.
Acho particularmente triste que esses encontros sejam apresentados como grandes gestos de aproximação humanitária quando, na verdade, também expõem a dimensão da privação que essas pessoas sofreram durante toda a vida. É claro que qualquer oportunidade de reencontro deve ser celebrada. Mas não podemos esquecer que estamos falando de famílias que precisaram esperar décadas para exercer algo que deveria ser absolutamente natural: a liberdade de visitar quem amam.
Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)
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- Capítulo 1 – Saindo da Cidade
- Capítulo 2 – Duas Amigas
- Capítulo 3 – Minha Terra ao Norte
- Capítulo 4 – Tempos de Caos
- Capítulo 5 – Momentos Felizes, Apesar de Tudo
- Capítulo 6 – 1950: Guerra
- Capítulo 7 – Rumo ao Sul
- Capítulo 8 – Obrigada por Estar Viva
- Capítulo 9 – Passeio ao Mar
- Capítulo 10 – Vídeo Carta da Mamãe