“Sem Olhos” é um conto de Machado de Assis, escrito e publicado pela primeira vez no Jornal das Famílias, por volta de 1876.
A história é a seguinte:
Durante uma reunião social na casa do casal Vasconcelos, o desembargador Cruz é pressionado pelos convidados, após uma conversa sobre fantasmas e superstições, a contar uma história misteriosa de sua juventude.
Quando era estudante, Cruz conheceu um vizinho excêntrico chamado Damasceno Rodrigues, um velho médico recluso, de aparência perturbadora e ideias insólitas. Com o tempo, percebe que Damasceno é mentalmente instável, mas ainda assim desenvolve certa empatia por ele.
Certo dia, Damasceno adoece gravemente. Cruz decide cuidar dele e ouve uma confissão angustiante: anos antes, Damasceno teria se apaixonado por Lucinda, esposa de um médico ciumento. Durante um momento de fraqueza, os dois cruzaram olhares — o que teria despertado o ciúme do marido. Em um ato de vingança cruel, o homem cegou Lucinda com um ferro em brasa, punindo-a pelos “olhos pecadores”.
Antes de morrer, Damasceno entrega a Cruz uma miniatura com o retrato de Lucinda e pede que ele queime certos papéis. Na mesma noite, o narrador vê a figura fantasmagórica de Lucinda sem os olhos, em uma visão tão vívida que o faz desmaiar. Ao recobrar os sentidos, descobre que Damasceno falecera na madrugada.
Mais tarde, Cruz investiga a história e descobre que Damasceno nunca esteve na Bahia, onde teria ocorrido o caso, e que o retrato era, na verdade, de uma sobrinha falecida. Toda a narrativa de Damasceno era provavelmente fruto de uma alucinação ou delírio. Contudo, permanece a dúvida: como Cruz também viu a aparição de Lucinda?
Segundo o artigo de Fábio Waki, intitulado “O medo en abîme: o fantástico à luz do realismo no conto ‘Sem Olhos’ de Machado de Assis”, o conto combina o “inquietante” com o realismo para construir o “medo em abismo” (en abîme): o medo do sobrenatural desperta um segundo medo, mais profundo, ligado às violências sociais cotidianas, especialmente à violência conjugal movida pelo ciúme — tema presente desde o primeiro romance de Machado, Ressurreição.
Outro artigo, “O gótico e o fantástico no conto ‘Sem Olhos’, de Machado de Assis”, escrito por Raíssa Moraes e Roberto Rossi Menegotto, apresenta leitura semelhante. Os autores destacam como Machado articula a ambiguidade entre o real e o sobrenatural, promovendo uma hesitação constante entre razão e irracionalidade — não para evocar o medo dos espíritos, mas sim o medo da violência humana.
Pode-se dizer que este conto é mais um exemplo de subversão machadiana do horror — ou de um “horror machadiano” — em que o elemento sobrenatural é colocado sob suspeita, desconfiança e negação, sem, no entanto, perder o seu impacto emocional.
Machado utiliza uma estrutura narrativa típica do conto de horror europeu, com elementos como o locus horribilis (espaços opressivos), a presença do passado fantasmagórico, figuras monstruosas (a mulher sem olhos) e um grupo social debatendo fenômenos sobrenaturais. Contudo, ele subverte essa estrutura ao final, promovendo uma inversão anticlimática, em que os eventos são atribuídos à loucura ou à fragilidade da memória — rompendo com as expectativas do leitor e reforçando sua crítica à razão humana.

