Do culto celta aos crânios às lendas medievais e tradições asiáticas, a permanência simbólica da cabeça como sede da alma, do poder e da proteção
Mircea Eliade, em seu livro A História das Crenças e das Ideias Religiosas, volume II, ao iniciar o capítulo XXI, dedicado a “Celtas, germanos, trácios e getas”, apresenta um dado particularmente interessante sobre a religião celta: o culto aos crânios.
Segundo o autor, desde os cilindros de calcário decorados com cabeças estilizadas, descobertos em Yorkshire e datados do século XVIII a.C., até a Idade Média, há registros constantes da presença de crânios e representações de cabeças cortadas em todas as regiões habitadas por povos celtas. Foram encontrados crânios depositados em nichos ou inseridos nos muros de santuários, cabeças esculpidas em pedra e inúmeras imagens de madeira submersas em fontes. Autores clássicos já haviam destacado a importância religiosa da cabeça, e sua exaltação continua a desempenhar papel relevante nas lendas medievais e no folclore britânico do século XIX.
Um dos exemplos mais conhecidos é a história da cabeça de Bran, o Abençoado, presente na coletânea medieval galesa chamada Mabinogion. Mortalmente ferido, o gigante Bran ordena que seus companheiros cortem sua cabeça e a levem de volta à Grã-Bretanha. A cabeça permanece viva por 87 anos, conversa com seus companheiros e lhes proporciona banquetes mágicos, até ser enterrada no chamado Monte Branco, em Londres, com a função de proteger a ilha contra invasões.
Outro exemplo aparece no romance arturiano Sir Gawain and the Green Knight. Nele, um cavaleiro misterioso sobrevive à própria decapitação, recolhe a própria cabeça do chão e continua a falar, desafiando Gawain a cumprir sua parte de um pacto um ano depois.
No folclore irlandês, destaca-se ainda a figura do Dulahan, o Cavaleiro Sem Cabeça, um espírito que carrega a própria cabeça debaixo do braço. Essa cabeça possui visão sobrenatural e permite ao ser identificar quem está prestes a morrer.
No século XIX, o movimento antiquarista registrou diversas crenças do folclore britânico que ainda sobreviviam em áreas rurais. Muitos poços sagrados, comuns em toda a Grã-Bretanha, eram guardados por cabeças de pedra ou, em épocas mais antigas, por crânios reais. Acreditava-se que a divindade ou o santo associado ao poço residia na cabeça.
Há também uma tradição tipicamente inglesa, amplamente documentada, sobre crânios mantidos em mansões e casas rurais. Em geral, o crânio pertencia a alguém que teria morrido injustamente ou que, no leito de morte, pediu que sua cabeça permanecesse na casa como forma de proteção. Caso alguém tentasse enterrá-lo ou removê-lo, a residência seria perturbada por fenômenos atribuídos a poltergeists, como gritos, batidas nas paredes, tempestades localizadas e extrema má sorte para colheitas e rebanhos.
Durante o processo de cristianização das populações celtas, a própria Igreja frequentemente assimilou e reinterpretou esses cultos. Diversos santos de regiões de influência celta são representados como cefalóforos, isto é, portadores da própria cabeça.
Um exemplo notável é Santa Winifred, também conhecida como Gwenffrewi. Segundo a tradição, ela foi decapitada por um pretendente rejeitado. No local onde sua cabeça caiu, surgiu uma fonte milagrosa, hoje conhecida como St Winefride’s Well. Seu tio, São Beuno, teria recolocado sua cabeça no corpo, trazendo-a de volta à vida.
Outro caso é o de São Justiniano de Ramsey, eremita que viveu no País de Gales. Após ser decapitado por seus próprios servos, teria tomado a própria cabeça nas mãos, caminhado até o mar e atravessado as águas até o local onde desejava ser sepultado.
Também se destaca São Donnán de Eigg, missionário irlandês que atuou na Escócia. Ele e seus monges teriam sido decapitados por piratas pictos durante a missa. A tradição sustenta que, mesmo após a morte, a santidade do local e dos corpos continuou a exercer proteção espiritual sobre a ilha.
Para além das lendas e hagiografias cristãs, o culto à cabeça possui raízes pré-históricas e persistiu em várias culturas asiáticas até o século XIX. Entre os Dayak da Indonésia e da Malásia, acreditava-se que a captura da cabeça de um inimigo garantia prosperidade à aldeia e fertilidade ao solo. Entre os Naga, no nordeste da Índia e em Mianmar, a cabeça era considerada a sede da alma; ao trazer a cabeça de um estrangeiro para a aldeia, acreditava-se que sua energia vital aumentaria a produtividade dos campos de arroz. Entre os Wa, na China, crânios capturados eram expostos em postes de bambu ao longo dos caminhos que levavam à aldeia, funcionando tanto como proteção espiritual quanto como demonstração de poder.
Práticas semelhantes também foram registradas em Taiwan, entre os povos Atayal e Seediq, e nas Filipinas, entre os Igorot e Illongot.
Em termos simbólicos, o valor mágico-religioso da cabeça cortada estava associado à crença de que o crânio concentrava a força vital, sendo considerado a sede do espírito e, em algumas tradições, a origem primordial da potência geradora masculina.
Entre os celtas, em particular, o crânio era visto como o receptáculo por excelência de uma força sagrada de origem divina. Possuir ou preservar uma cabeça significava assegurar proteção contra perigos, além de garantir saúde, riqueza e vitória.
Ao percorrer esse vasto conjunto de mitos, lendas, práticas rituais e relatos históricos, torna-se evidente que o culto à cabeça não é um elemento marginal ou folclórico isolado, mas a expressão de uma estrutura simbólica profunda. A cabeça, em diferentes culturas e épocas, aparece como centro da identidade, sede do espírito e depósito da força vital. Cortá-la, preservá-la ou transportá-la não é apenas um ato violento ou fantástico, mas um gesto carregado de significado religioso.
No caso celta, como mostra Mircea Eliade em A História das Crenças e das Ideias Religiosas, o crânio concentra uma potência sagrada capaz de proteger territórios, garantir fertilidade e assegurar vitória. Essa concepção atravessa a pré-história, infiltra-se na literatura medieval, sobrevive no folclore britânico do século XIX e é reelaborada pelo cristianismo na figura dos santos cefalóforos.
Mais do que uma curiosidade etnográfica, o culto à cabeça revela uma intuição religiosa recorrente: a de que a vida, a alma e o poder não se dissipam com a morte, mas podem permanecer concentrados em um fragmento do corpo. A cabeça torna-se, assim, um ponto de condensação do sagrado, um objeto liminar entre vida e morte, humano e divino, memória e presença.
Obs.: A imagem ilustrativa é de São Denis, santo que nasceu na região de Paris. Eu até queria usar a imagem de um santo britânico, mas essa de São Denis é maneira demais para deixar de fora.
