Não haveria computação se Prajapati não tivesse se despedaçado

Em um fascinante mito cosmogônico dos antigos Vedas, conta-se que o deus Prajapati foi despedaçado durante a criação do universo. Depois que o mundo é criado, o deus supremo encontra-se desmembrado, fragmentado. No ritual Agnicayana, os devotos hindus recompõem simbolicamente seu corpo por meio da construção de um elaborado altar de fogo, seguindo um preciso plano geométrico.

O altar é construído com milhares de tijolos de formatos e tamanhos específicos, dispostos de modo a formar a figura de um falcão. Cada tijolo é numerado e colocado em uma posição determinada, enquanto se recita seu mantra correspondente, seguindo uma sequência rigorosa de instruções. O altar é erguido em camadas, uma sobre a outra, mantendo a mesma área e a mesma forma geral.

É aí que surge um verdadeiro enigma geométrico. Cada camada precisa preservar a mesma forma e a mesma área das camadas adjacentes, mas deve ser construída com uma configuração diferente de tijolos. A reconstrução do deus depende, portanto, de uma espécie de quebra-cabeça matemático no qual cada peça precisa ocupar o lugar exato e cada etapa precisa obedecer às regras estabelecidas.

Por fim, o altar em forma de falcão deve estar voltado para o leste, como prelúdio do voo simbólico do deus reconstruído em direção ao sol nascente. A divindade despedaçada é assim recomposta não apenas por meio de palavras e orações, mas através da própria geometria. Seu corpo é reconstruído por meio de uma sequência ordenada de operações matemáticas.

Altar em forma de falcão do rito Agnicayana
Altar em forma de falcão do rito Agnicayana

Em seus estudos sobre a matemática védica, o matemático italiano Paolo Zellini observou que o ritual Agnicayana também servia para transmitir técnicas de aproximação geométrica e crescimento incremental, procedimentos que podem ser compreendidos em termos algorítmicos.

Para quem não está familiarizado com o conceito, um algoritmo nada mais é do que uma sequência de instruções utilizada para resolver um problema ou realizar uma tarefa. Essas instruções precisam seguir uma ordem lógica, ser suficientemente precisas para evitar ambiguidades e produzir um resultado definido. É justamente esse tipo de pensamento que está na base da computação: transformar um problema em uma série de operações que podem ser executadas passo a passo.

O que torna o Agnicayana particularmente interessante é que essa lógica aparece em um contexto religioso milhares de anos anterior ao computador. O ritual está entre os mais antigos ainda documentados e praticados na Índia e constitui um exemplo precoce de cultura algorítmica. O conhecimento não é transmitido apenas como uma ideia abstrata, mas como uma sequência precisa de instruções, operações e regras que permite reconstruir, tijolo após tijolo, uma determinada forma geométrica.

É interessante olhar para tudo isso por essa perspectiva porque encontramos, mais uma vez, um resíduo da religião tradicional em algo que costumamos associar ao futuro, ao progresso e ao materialismo.

Antes de existir o algoritmo computacional, havia o algoritmo sagrado.

Afinal, o que um programador faz? Ele pega um conjunto de dados, estabelece regras e, por meio de uma sequência de instruções, transforma aquilo em um sistema organizado. Em certo sentido, esse também é o papel de um ritual. O ritual estabelece uma sequência precisa de ações que, quando repetidas corretamente, reorganizam o mundo e restauram uma ordem que foi perdida.

Ilustração de Frank Rosenblatt, Principles of Neurodynamics: Perceptrons and the Theory of Brain Mechanisms (Cornell Aeronautical Laboratory, Buffalo NY, 1961).
Ilustração de Frank Rosenblatt, Principles of Neurodynamics: Perceptrons and the Theory of Brain Mechanisms (Cornell Aeronautical Laboratory, Buffalo NY, 1961).

Para Mircea Eliade, o ritual tem justamente essa função de reatualizar o tempo sagrado, o in illo tempore, no presente. Ao repetir gestos e palavras estabelecidos por uma tradição, o homem religioso não está simplesmente lembrando um acontecimento primordial: ele procura torná-lo novamente presente.

Há, portanto, uma curiosa continuidade entre as duas coisas. Tanto o algoritmo quanto o ritual dependem de uma sequência ordenada de operações, da repetição de procedimentos e da obtenção de um resultado determinado. Um organiza dados e produz um sistema; o outro organiza gestos e produz uma ordem simbólica. Em ambos os casos, o caos é transformado em estrutura por meio de uma sequência de instruções.

A função simbólica do ritual Agnicayana é reconstruir o deus por meios mundanos. Mas essa reconstrução também pode ser entendida como uma expressão do múltiplo no Uno, ou, invertendo a fórmula, como uma espécie de “computação” do Uno por meio do múltiplo. O deus fragmentado precisa ser recomposto a partir de uma multiplicidade de peças, cada uma ocupando seu lugar dentro de uma ordem determinada.

Na tentativa de reconstruir um deus, desenvolvemos habilidades básicas de geometria, aprendemos a construir estruturas sólidas e, em algum momento dessa longa história, chegamos à programação. O que começa como a reconstrução ritual de uma divindade despedaçada termina, milhares de anos depois, na capacidade de reconstruir sistemas complexos a partir de unidades simples e regras precisas.

Não haveria computação se Prajapati não tivesse se despedaçado.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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