Noite de Almirante, de Machado de Assis

Um conto sobre a volubilidade dos sentimentos, as ilusões românticas e a dificuldade de aceitar uma realidade que não corresponde às nossas expectativas.

Noite de Almirante é um conto de Machado de Assis publicado originalmente no jornal Gazeta de Notícias, em 10 de fevereiro de 1884, e integrado, no mesmo ano, ao livro Histórias sem Data.

O conto narra a história de Deolindo Venta-Grande, um marinheiro que retorna de uma longa viagem de dez meses pelo mar.

Durante todo esse período, movido por um juramento mútuo de fidelidade, ele resiste às tentações no exterior em nome da promessa romântica que fez à namorada, Genoveva.

Seu sonho é desembarcar e viver com ela a tão esperada “noite de almirante”, uma expressão usada na Marinha da época para designar uma noite de esbórnia, com comemorações, bebidas, música e amor.

No entanto, ao chegar à terra firme, cheio de expectativas e trazendo presentes, Deolindo descobre que Genoveva agora vive com outro homem, um mascate chamado José Diogo.

Genoveva é uma cabocla de vinte anos, descrita como “esperta, de olho negro e atrevido”.

Sua característica mais distintiva é uma certa inocência perversa. Ela não carrega a culpa ou o arrependimento típicos de uma traição romântica. Para ela, a mudança de sentimento foi natural. O “coração mudou”.

Ao descobrir a troca, Deolindo chega a ameaçar matar o rival, mas, confrontado pela indiferença de Genoveva, muito pior do que a própria traição, desiste de qualquer reação violenta.

Genoveva representa o deboche involuntário que a volubilidade humana inocente impõe ao idealismo das expectativas românticas.

O que achei particularmente interessante em Genoveva é que ela não é necessariamente retratada como uma pessoa de má índole.

Ao ver Deolindo chegando à sua casa, já namorando o mascate, ela não se esconde. Convida-o a entrar e a contar suas histórias. Ele, tomado por uma mistura de confusão e esperança de que tudo não passe de um mal-entendido, aceita o convite.

No entanto, ela revela, sorrindo, sim, sorrindo, que está com outro homem. Seu sorriso, entretanto, não é de escárnio. Não há intenção evidente de humilhá-lo. Para ela, a volubilidade dos sentimentos é algo tão natural quanto aceitável.

Na expressão e nas palavras do narrador, há nela algo incerto entre a “candura e o cinismo”, entre a “insolência e a simplicidade”.

O jovem marujo menciona o juramento feito na despedida, e ela o reconhece com sinceridade. No entanto, com a mesma sinceridade, fala de sua mudança de ideia. É como se o conceito de juramento nem sequer existisse para ela.

É justamente aí que reside a ambiguidade de Genoveva. Machado não nos apresenta uma mulher simplesmente cruel, que teria enganado Deolindo desde o início e agora se divertisse com seu sofrimento. Tampouco a transforma em uma figura inteiramente inocente. Ela rompe uma promessa de fidelidade, mas não parece compreender sua atitude nos mesmos termos morais que o marinheiro.

O sentimento que existia dez meses antes foi verdadeiro, assim como é verdadeiro o sentimento que agora dedica a José Diogo. Genoveva não tenta justificar uma mentira porque, aparentemente, não considera que tenha mentido. O coração mudou, e isso lhe basta.

Essa postura torna a personagem mais complexa do que uma simples mulher infiel. Ela não precisa ser cruel para causar sofrimento, assim como não precisa ser inocente para que sua atitude seja compreensível. Há algo de desconcertante na naturalidade com que recebe Deolindo, conversa com ele e aceita seus presentes. Ela não parece sentir vergonha, culpa ou necessidade de pedir perdão. Tampouco demonstra prazer em vê-lo sofrer.

Seu comportamento oscila entre a candura de quem não percebe a gravidade de sua atitude aos olhos do outro e o cinismo de quem não reconhece qualquer obrigação de responder pelas expectativas que ajudou a criar.

É essa incerteza que impede um julgamento definitivo. Se Genoveva fosse uma mulher deliberadamente maliciosa, o leitor encontraria nela uma antagonista relativamente simples. Mas Machado constrói uma personagem cuja sinceridade não elimina a irresponsabilidade. Ela pode ter amado Deolindo de verdade e, ainda assim, abandoná-lo sem considerar que lhe deve uma explicação moral.

A questão não é necessariamente saber se ela está mentindo, mas perceber que duas pessoas podem atribuir significados completamente diferentes à mesma promessa.

Deolindo entende o juramento como um compromisso que deve sobreviver à distância, à passagem do tempo e às tentações. Para Genoveva, ao que tudo indica, ele expressava um sentimento que existia naquele momento, mas que não precisava determinar o futuro. O conflito nasce dessa diferença. Ele organiza sua experiência em torno da continuidade de uma promessa; ela aceita a descontinuidade dos próprios sentimentos como parte natural da vida.

A parte mais triste do conto acontece quando Deolindo efetivamente entrega os presentes que comprou para Genoveva, um par de brincos que trouxe da Europa. Ela os recebe, examina-os e os coloca nas orelhas, agradecida e admirada. Uma vizinha aparece, e as duas começam a conversar. Genoveva pede que o pobre marinheiro conte tudo sobre a viagem, e elas o escutam com interesse, enquanto elogiam os presentes e as histórias.

A cena é dolorosa justamente porque não há uma ruptura dramática. Genoveva não expulsa o marinheiro, não o insulta nem o trata com desprezo. Pelo contrário, recebe-o com cordialidade, demonstra interesse por suas histórias e aprecia os presentes. A vida continua normalmente ao redor de Deolindo, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Para ele, porém, aquela visita representa o desmoronamento de uma expectativa que sustentou durante dez meses.

Se houvesse ao menos alguma pista de maldade deliberada, haveria uma maneira de se defender. Se houvesse maquinação, frieza ou deboche, Deolindo poderia recorrer à raiva, ao orgulho ferido ou à dignidade do homem traído. Mas não há sinais claros disso. Não há defesa contra aquilo que não se pode definir.

Para Genoveva, o juramento feito dez meses antes não foi uma mentira. Foi verdadeiro naquele momento. A mudança de sentimento em relação ao mascate José Diogo também é verdadeira no presente. O que Deolindo considera uma quebra de compromisso, ela parece compreender como uma transformação natural da vida afetiva.

A diferença entre os dois está no modo como lidam com o tempo. Deolindo espera que o sentimento passado permaneça válido no presente. Genoveva não vê motivo para que uma promessa antiga se sobreponha ao que sente agora. Ele acredita na permanência do amor; ela, na legitimidade de sua transformação.

O anticlímax final aprofunda esse conflito porque transforma o sofrimento íntimo de Deolindo em uma mentira social.

Durante o conto, esperamos alguma resolução para o conflito: uma discussão definitiva, uma reação violenta, uma reconciliação ou, pelo menos, uma manifestação de arrependimento. Nada disso acontece. Deolindo não consegue alterar a situação nem obter de Genoveva a resposta emocional que deseja.

No dia seguinte, para preservar as aparências e o orgulho diante dos colegas de farda, ele conta que teve uma noite maravilhosa. Com um sorriso amarelo, finge ter vivido a melhor “noite de almirante” de sua vida.

A ironia é evidente. A noite que deu título ao conto, aquela que deveria coroar o retorno do marinheiro e recompensá-lo pelos meses de fidelidade, simplesmente não aconteceu. Ainda assim, Deolindo precisa afirmar que aconteceu. O homem que atravessou dez meses no mar preservando a fidelidade a uma promessa agora precisa inventar uma experiência para preservar o próprio orgulho.

Essa mentira final também revela que Deolindo não é inteiramente diferente de Genoveva. Ambos acabam subordinando a verdade a uma necessidade imediata.

Genoveva aceita a mudança dos sentimentos sem se prender à promessa passada. Deolindo, incapaz de aceitar publicamente a realidade presente, fabrica uma versão dos acontecimentos que lhe permita continuar vivendo entre os colegas sem expor sua derrota.

Machado encerra o conto sem precisar explicar o que devemos pensar de Genoveva ou de Deolindo. A primeira segue sua vida sem demonstrar o remorso esperado; o segundo segue a sua fingindo que nada deu errado.

O verdadeiro golpe do final está em mostrar que, diante de uma realidade que não corresponde às nossas expectativas, nem sempre buscamos a verdade ou a justiça. Às vezes, buscamos apenas uma versão dos fatos com a qual possamos suportar.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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