Philosophie du Soi é o EP de estreia do duo francês PAON, lançado digitalmente em 19 de abril de 2026 pelo selo Scarlet Moon Records. Com cinco faixas e aproximadamente 24 minutos de duração, o trabalho apresenta uma combinação de jazz experimental, música eletrônica e elementos de ficção científica.
O projeto reúne a cantora, compositora e flautista Pernelle, conhecida por sua participação em trilhas sonoras de videogames como Stellar Blade, Goddess of Victory: NIKKE e The Outer Worlds 2, e o compositor, arranjador e produtor Lemm.
Autodefinido como “space jazz”, o PAON desenvolve uma sonoridade que transita entre jazz de vanguarda, fusion, art pop e música eletrônica experimental.
A primeira faixa, Métamorphose, apresenta boa parte dessa identidade musical: uma mistura caótica e inventiva de vocal jazz, bossa-nova, bebop e batidas eletrônicas, que atravessa diferentes referências e chega a incorporar elementos de world music. A quantidade de informações e mudanças de direção em pouco mais de quatro minutos lembra bastante o trabalho de Yoko Kanno com a banda Seatbelts na trilha sonora de Cowboy Bebop. Existe a mesma disposição para combinar linguagens musicais aparentemente incompatíveis, sem perder coesão e o senso de liberdade.
A segunda faixa, Mirage, part. 1 : Ego, segue por outro caminho. A música começa de maneira etérea e expansiva, construindo uma atmosfera quase fantasmagórica a partir de teclados, camadas vocais e um coro que parece flutuar sobre a composição. É um momento mais contemplativo, no qual a interpretação de Pernelle assume o primeiro plano.
Na terceira faixa, Fissure de l’Irréel, o PAON retoma parte da abordagem frenética da abertura. O vocal etéreo contrasta com uma base instrumental caótica e marcadamente eletrônica. Aqui, encontro uma aproximação interessante com o estilo de colagens musicais de Hideki Naganuma, conhecido pelas trilhas sonoras de Jet Set Radio e Jet Set Radio Future. A composição combina mudanças bruscas de direção, ritmos quebrados e inserções orquestrais, criando uma espécie de mosaico sonoro que nunca parece permanecer no mesmo lugar por muito tempo.
Mirage, part. 2 : la zone sous vide, possivelmente minha faixa favorita, dá continuidade à segunda música, aprofundando sua atmosfera fantasmagórica. O destaque é um coro maravilhoso, que transita entre uma dimensão sacra, cósmica e operística e outra mais pastoril e lírica.
Por fim, Le Paon (cœur à psyché) recupera a intensidade das primeiras faixas, mas com uma abordagem ainda mais eletrônica. Aqui, o duo aproxima o jazz de uma espécie de hyperpop maximalista, com sintetizadores, ritmos fragmentados e vocais grandiosos.
Musicalmente, existe neste EP algo que me remete à abordagem caleidoscópica de Kamasi Washington, um dos principais nomes do jazz contemporâneo e responsável pela trilha sonora de Lazarus, produção do Adult Swim. Suas composições expansivas, que transitam entre jazz, elementos orquestrais e experimentação, encontram um paralelo interessante na maneira como o PAON organiza suas referências.
Entre as referências apontadas por Pernelle estão ainda Chick Corea, KNOWER e Vangelis, além das trilhas sonoras de Final Fantasy XIII-2, compostas por Naoshi Mizuta e Masashi Hamauzu, que serviram como um dos pontos de partida para a colaboração entre os dois músicos.
Há um apelo cinético fascinante em praticamente todas as composições. Os vocais etéreos, dramáticos e expansivos alternam-se com batidas eletrônicas frenéticas, enquanto uma espécie de névoa orquestral e espacial envolve os diferentes elementos. Essa camada atmosférica confere ao EP uma estranha unidade estética: apesar da fragmentação, das mudanças bruscas de direção e da quantidade de referências, tudo parece pertencer ao mesmo universo sonoro.
Além da proposta sonora, Philosophie du Soi funciona como o primeiro capítulo de um universo narrativo multimídia concebido por Pernelle. O projeto explora temas como a dualidade entre realidade e imaginação, a solidão extrema, a fragmentação da identidade, a cosmologia e os limites da percepção humana.
Segundo Pernelle, Philosophie du Soi (“Filosofia do Eu”) pretende ser um manifesto estético, existencial e psicológico envolto em uma narrativa de ficção científica. A história parte de uma reflexão sobre como a mente humana reage diante do isolamento profundo, sugerindo uma divisão entre duas forças fundamentais: o real e o imaginário.
O real representa a experiência concreta da existência, marcada pela dor, pelo isolamento e pela consciência da própria finitude. O imaginário, por sua vez, funciona como um mecanismo de sobrevivência psicológica, uma válvula de escape que permite à consciência transcender os limites da realidade cotidiana e alcançar dimensões de natureza cósmica.
A belíssima ilustração da capa ficou a cargo do artista Rex, também conhecido como Oze e identificado nas redes sociais pelo perfil @_rexpo. A colaboração funcionou tão bem que Pernelle e Lemm anunciaram que o ilustrador será responsável pelas próximas capas do universo conceitual do PAON.
Em suma, Philosophie du Soi é um trabalho bastante particular, que encontra justamente na liberdade de experimentação sua principal virtude. O PAON consegue combinar sofisticação harmônica, maximalismo eletrônico e atmosferas cinematográficas sem transformar essa mistura em um mero exercício de virtuosismo ou experimentação vazia.
É uma estreia que desperta curiosidade tanto pelo caminho musical que apresenta quanto pelo universo conceitual que promete desenvolver.
É, até o momento em que escrevo essa crítica, o melhor disco do ano ao lado de The Mountain do Gorillaz.
