O disco Lazarus (Adult Swim Original Series Soundtrack), de Kamasi Washington, lançado em 11 de abril de 2025 pela Milan Records, é uma das três trilhas sonoras criadas para a série de anime Lazarus, dirigida por Shinichirō Watanabe, o mesmo criador de Cowboy Bebop e Samurai Champloo.

Desde sua concepção, a obra vai além de um simples acompanhamento musical: trata-se de um projeto essencialmente cinematográfico, em que o som atua como uma força dramática autônoma.

É uma proposta ambiciosa que se conecta diretamente à estética que consolidou Watanabe, no cruzamento entre jazz, ficção científica e animação japonesa. Assim como em Cowboy Bebop, a música em Lazarus não apenas estabelece o tom emocional da narrativa, mas também constrói o imaginário do mundo apresentado, funcionando como uma linguagem narrativa paralela.

A série se desenvolve como um suspense de ficção científica ambientado em um futuro próximo, no ano de 2052. A narrativa acompanha uma crise global provocada por uma droga milagrosa, desencadeando uma corrida desesperada contra o tempo e explorando os limites entre salvação e catástrofe. Essa sensação constante de urgência, perigo e instabilidade é refletida diretamente na trilha sonora, que amplifica a tensão da história.

O álbum traduz esse cenário por meio da linguagem característica de Kamasi Washington, combinando Spiritual Jazz e Jazz Fusion em uma trilha intensa, pulsante e frequentemente dissonante.

A música não funciona como mero pano de fundo, mas como elemento cinematográfico ativo, amplificando a sensação de distopia, movimento contínuo e perigo iminente.

Segundo algumas cenas que vi (não consegui assistir à série completa ainda), a trilha frequentemente parece antecipar ou prolongar a tensão das cenas, como se estivesse sempre alguns segundos à frente da imagem, guiando a percepção do espectador e intensificando a experiência dramática.

Diferente de muitos projetos de trilha sonora que se limitam a compilações pontuais, Lazarus se apresenta como um álbum completo, com 11 faixas e aproximadamente 1 hora e 18 minutos de duração.

Essa extensão reforça sua autonomia enquanto obra musical e permite que suas ideias se desenvolvam de forma orgânica, quase como um “filme sonoro” independente.

O próprio Kamasi Washington descreveu o trabalho como uma das experiências criativas mais gratificantes e naturais de sua carreira. Fã declarado de animes e, em especial, da obra de Watanabe, ele viu na colaboração a concretização de um projeto pessoal de longa data, um sonho de infância finalmente realizado.

Kamasi Washington teve liberdade criativa completa na composição da trilha, e essa autonomia se refletiu diretamente no processo. Ao contrário do modelo tradicional, em que o compositor cria música a partir de cenas já editadas, Watanabe permitiu que Kamasi trabalhasse com total independência. O pedido foi que ele compusesse como se estivesse gravando um álbum próprio, e não apenas criando fundos sonoros ilustrativos.

Em vez de sincronizar notas a ações específicas, Kamasi trabalhou a partir de ideias abstratas sugeridas pelo diretor, como “a imagem de um homem fugindo da prisão” ou a “sensação sonora de alguém vasculhando evidências”. Essa abordagem conceitual permitiu que a trilha se desenvolvesse segundo a lógica do cinema moderno, priorizando a narrativa e a atmosfera, em vez de seguir as convenções da música funcional tradicional.

Um dos grandes destaques do disco é o uso recorrente de corais, que dão à trilha uma sensação marcante de escala e monumentalidade.

Em faixas como Sageness e Lie in Memory, os vocais ampliam o impacto emocional da música, elevando-a a uma dimensão épica e quase ritualística.

Já Vortex, tema de abertura da série, se apresenta como uma peça caótica e energética, evocando a sensação de queda livre, ao mesmo tempo em que incorpora sutis referências ao city pop japonês, filtradas por uma estética de tensão e colapso.

Nesse contexto, os corais desempenham funções narrativas muito precisas.

Em Lazarus, a melodia rápida do coro transmite a sensação de algo gigantesco em constante perseguição. Em Sageness, as vozes surgem como entidades espectrais que parecem se comunicar diretamente com o ouvinte. Já em Lie in Memory, o coro funciona como um griot africano, assumindo o papel de narrador de uma história épica e ancestral.

O tratamento dado ao coro é um dos elementos mais cinematográficos de toda a trilha.

Longe de ser um simples preenchimento harmônico, ele é usado como instrumento de estranhamento, dissonância e grandiosidade. O paralelo com o uso que Stanley Kubrick fez das obras de György Ligeti em 2001: Uma Odisseia no Espaço é evidente: as vozes não soam humanas no sentido tradicional, mas como massas sonoras abstratas, alienígenas e monumentais, capazes de evocar tanto o sublime quanto o inquietante.

As vozes funcionam como verdadeiras texturas sonoras. Harmonias densas e, por vezes, dissonantes conferem à música contornos épicos, enquanto bateria e baixo sustentam um ritmo frenético e quase mecânico.

Sobre essa base sólida, o saxofone de Kamasi e os corais se movem com maior liberdade, gerando uma tensão constante entre controle e expansão, cálculo e caos.

Ao incorporar elementos de Jazz Fusion — como texturas sintetizadas, pianos elétricos e linhas de baixo processadas — Kamasi constrói uma tridimensionalidade sonora profundamente cinematográfica e futurista. O Fusion faz com que os instrumentos pareçam ecoar no vazio, criando uma estética espacial que dialoga diretamente com os temas da série.

Diferente do swing tradicional, o Fusion presente em Lazarus privilegia ritmos mais retos e sincopados, frequentemente inspirados no funk e no rock progressivo. Isso imprime à trilha uma sensação permanente de propulsão, como se a música funcionasse como o motor de uma nave ou como a energia cinética de uma perseguição em gravidade zero.

Em contraste, os momentos de improvisação mais longos evocam uma sensação de deriva espacial, em que o tempo parece se expandir e perder seus contornos habituais.

Essa escolha estética dialoga diretamente com a própria filmografia de Watanabe. O Fusion sempre foi sua linguagem preferencial para mundos futuristas, como já se via no trabalho da banda The Seatbelts em Cowboy Bebop.

Kamasi Washington compreende que, em um contexto de ficção científica, o jazz não pode soar terrestre ou nostálgico. Ele precisa parecer deslocado, filtrado por décadas de tecnologia, distância e solidão cósmica.

O resultado é uma trilha que não apenas acompanha a narrativa, mas constrói a própria arquitetura do espaço onde os personagens habitam. Ela amplia a escala emocional da história e transforma o som em um verdadeiro cenário físico. Em LazarusKamasi Washington cria uma trilha dissonante, monumental e inquietante, que reflete tanto o espírito jazzístico de Cowboy Bebop quanto o senso de assombro cósmico característico do cinema de Kubrick.

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