Brat é o sexto álbum de estúdio da cantora e compositora britânica Charli XCX. Lançado em 2024, o disco se tornou um dos maiores fenômenos musicais e culturais dos últimos anos.

O primeiro grande impacto do álbum está na capa, que traz uma estética minimalista, com um verde-neon propositalmente desconfortável e apenas a palavra brat, em uma fonte Arial de baixa resolução.

Sim, é só isso. E, sim, a capa é um grande trunfo de design.

A capa de Brat acabou se tornando uma expressão visual de autenticidade, confiança e independência, quase como um manifesto em favor do tosco, em oposição à paranoia da perfeição que havia dominado a estética das redes sociais.

A coisa foi levada tão a sério que o dicionário elegeu brat como a palavra do ano de 2024.

A sonoridade do disco passeia pelo hyperpop, electropop e dance music, equilibrando batidas agressivas e aceleradas, feitas para as pistas de dança, com letras íntimas e vulneráveis sobre insegurança, rivalidade feminina, luto e maternidade.

Embora não seja o tipo de música que eu normalmente escuto ou aprecio, e eu ache que os efeitos e a produção do disco o tornam excessivo, saturado e, em alguns momentos, enjoativo, não posso deixar de reconhecer algumas de suas qualidades, especialmente nas letras.

São letras que expõem questões como baixa autoestima, síndrome do impostor, inveja, comparação obsessiva com outras mulheres e uma reflexão sincera sobre a carreira e sobre o próprio tempo biológico.

Em um dos momentos mais profundos do disco, ela se pergunta explicitamente se sua dedicação obsessiva à carreira e aos palcos fará com que perca a oportunidade de ser mãe. Ela questiona se o sucesso profissional realmente basta ou se o tempo está escorrendo por suas mãos.

Existe uma certa coragem em colocar o tema da maternidade em pauta dessa maneira, especialmente porque se tornou um bordão feminista bastante comum a ideia de que a maternidade é necessariamente uma prisão e de que a decisão de não ser mãe seria uma escolha pacífica, sem custos emocionais.

Charli aborda o tema do seu tempo biológico com uma lucidez que me lembra Camille Paglia.

Fala-se muito hoje sobre o estigma das mulheres que se arrependem da maternidade, mas Charli traz para o debate o fantasma do arrependimento pela não-maternidade, seja por negligência, seja pelo adiamento provocado pela dedicação à carreira.

Gostei muito de sua atitude confessional, sobretudo porque ela não expõe apenas suas próprias angústias, mas também sua própria vilania, inveja e confusão. Não parece buscar validação nem autopiedade. Ao contrário, existe uma disposição bastante rara de olhar para si mesma sem tentar transformar cada sentimento desagradável em algo moralmente aceitável.

É quase uma atitude agostiniana de exame de consciência: não apenas confessar aquilo que nos aflige, mas também aquilo que há de mesquinho, contraditório e vergonhoso em nós mesmos.

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